segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Romântico.

Voa, vai, e volta. Não me esquece. Promete que vai olhar pro céu onde você for e vai pensar em mim. Jura que não vai achar ninguém mais bela que eu, que não vai achar ninguém mais interessante, que não vai ser interessar. Quando seu coração apertar, pensa que tem alguém te esperando, e pede pra Alguém te proteger. Quando o medo vier, imagina minhas mãos nos teus cabelos, imagina a gente, imagina o mundo, e nós dois. Saber que você agora está mais longe parece ser saber que agora é que você está realmente longe. Meu quarto, vazio, minhas memórias, insuficientes, minhas mãos, vão. E o peito aperta, dói, mas é uma dor tão diferente, essa tal de saudade. Nem sei quando foi a última vez que a senti de verdade, não sei quando ela foi mais do que apenas uma palavra triste. Agora, viva. S-a-u-d-a-de. Sem mais, não há razão pra tristeza, sem menos, não há razão pra só sorrir. Sempre fui indiferente, sem graça, morta, insensível, e agora você me toca assim. Tão longe, tão mais perto do que tantos outros.
Vai, vai sim, e aproveita cada momento. E sente cada cheiro, vê cada caminho, cada chegada. Guarda as fotografias, depois faça-me um relato. Não meça as energias, jogue-as sempre que achar que vale a pena. Mas também não se canse, te quero com todas as suas forças, com todas as minhas forças.
Jamais me imaginei escrevendo algo assim, mas,ou nessas palavras gasto o que sinto, ou no meu travesseiro gastarei. Escrevendo sinto como se pudesse compartilhar minha dor, tão inexistente senão sinônima. Então aqui estão meus mais melancólicos pensamentos, meus mais românticos sentimentos, meu mais escondido eu. Junto com todo o resto que escrevo com tanta voracidade, com tantos gritos, com tantas inverdades, jaz aqui agora, o que em mim há de mais real, de mais assustador, talvez.
Sei que só vou sossegar quando te tiver na distância normal, quando o longe for o longe habitual. Acostumei com a saudade cotidiana, digna de quem tem várias despedidas na memória. Até as suas despedidas tornaram-se cotidianas, e não sei se isso é bom, por reduzir a dificuldade, ou ruim, por torná-lo mais um pra quem dar adeus.
E me vem na cabeça Vinícius, seu contente, de repente sozinho, seu amante, triste, de repente.
Talvez esteja exagerando, fazendo drama demais. Perdoe-me, drama, sou eu. Mas é no mínimo um alívio soltar esse nó que me deixou seu último beijo, nossa última conversa, sempre interminável.
Olha, cá estou eu a falar de você, quem sabe talvez um dia sejamos plenos e eu não mais tenha razão pra falar da saudade. Aliás, pelo que eu escolhi, não tão cedo as despedidas cessarão.
Então vai, e volta. Eu também vou, vou sonhar com você, comigo com você.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Elas.

O que fui fora do que realmente fui era o que fui na verdade. Ou isso fosse apenas o que eu queria ser.
Olhos negros, respiração ofegante, cabelos negros, bagunçados. Linda, sentada na escada com um cigarro entre os dedos. É óbvio que ela sofre, tanto quanto é óbvio que ela não sabe se isso tudo é real. Pessoas a sua volta, beijos, perguntas. O personagem que ela escolheu está expondo-a demais.Parece envergonhada, mas tentadora, desafiante. Ela parece estar tentando achar um chão onde pisar, uma saída, um porto seguro. Ela tem medo. Mas quem sou eu pra falar dela assim, se nela eu eu já me vi?
Grandes olhos verdes, talvez azuis. Cabelos claros, queixo apoiado nas delicadas mãos, altos saltos vermelhos. Ela está cansada, sonolenta, perdida. Não deve aguentar mais aquelas pessoas nojentas, tão loucas, que não param de gritar. Ela é coesa, óbvia, limpa. Acho que ela quer sair daqui, está entediada. Vejo-a me olhar, me estudar, deve estar achando que essa sou eu. Ei, eu juro que sou bem mais. Esse cigarro não é real, esse olhar não é meu. Espera, volta, não me deixa sozinha. Queria ser assim, certa como você.
Tão apavorada, fica calma, não vou a lugar nenhum, gostei de te olhar. Devo estar exagerando, tenho que parar com essa mania de desnudar a todos antes de conhecê-los.
Estou ficando sem graça, não gosto que tirem minha máscara tão rápido. Meus cabelos estão tão desarrumados, estou acabada, não sei por que ela olha pra mim. Tão bela... Se está tão entediada deveria ir embora, vai, não me importo.
Vou embora, acabou minha paciência. Ah, ela. Não posso deixá-la só, tão insegura, tão perdida. Ficarei mais um pouco, adorei seu sorriso falso. Tira esse cigarro da boca, chora, eu sei que você quer chorar.
Que vergonha, eu, boba, chorando na frente dela. Mas é que dói tanto, não suporto. Ela se levantou. Eu também vou.
Entendeu. São mesmo verdes. Um lindo sorriso, mais belas lágrimas. Me abraça. Eu sei. Meu cheiro, seu. Forte, me abraça forte, não minha deixa sozinha. Vou ficar aqui, com você. Chega, chega, nem sei quem você é. Espera, você não está bem. Nem nunca estarei. Tudo bem, adeus.
O que fui fora do que realmente fui era o que fui na verdade. Ou isso fosse apenas o que eu queria ser.

domingo, 14 de dezembro de 2008

(des) interessante.

Seu cheiro? Não, não, estou enlouquecendo. Hoje é mais um dia em que eu não sei de nada, estou em cima do muro, olhando o mundo de longe, sem esperança de participar da vida. Nem lá, nem cá. Estou em tantos lugares... Minha cabeça fica aqui, descansando, pedindo arrego, não aguenta mais pensar no que não quer. Meu coração vai longe, uns 3 mil km, talvez. Meu coração não vai só lá, ele vai lá, pega alguém e parte pra outro lugar. Estive pensando nessa minha última vinda, na última vez em que eu voltaria para uma casa nos moldes burgueses, com pai, mãe, irmãos. A partir de agora minha casa será outra, a volta será sempre indefinida, meu coração vai esfriar. Esfriar? Não, ele vai ser mais sensível a todas essas paixões, a todos esses lugares. Meu pai me perguntou onde eu morarei, disse que eu tenho que ter pra onde voltar, não sei. Sabe que eu não sei. O importante é que eu vou. E daqui a uns 4 ou 5 anos eu vou de novo, pra outro lugar. E então o mundo será minha casa, o Brasil meu quintal. Que triste, que poético, que decidida. Quero representar minha nação e mostrar meu orgulho por ser brasileira. Enrolação. Quero sair por aí e fazer algo importante, ajudar, servir, a quem quer que seja, que seja por uma razão. Isso, exatamente, busco uma causa, uma razão pra defender. Minha razão agora é chegar onde quero, conseguir, conquistar. Independente do que vou deixar para trás, não vou parar de tentar. Duvido que essa ainda seja minha convicção quando o adeus for mais longo, quando a saudade for maior, quando a solidão pesar.Do que eu começei falando mesmo? Ah, sim, sim. Você, que já não é o você de outrora, é algo mais real, mais, mais, mais.... Possível. Você é assim, tão perto de mim (tão longe...), tão delicioso é tudo o que temos. E agora que ficarás ainda mais longe, por pouco tempo, quero apenas que não esqueca de mim. Cresci criando a teoria de quem fica, de quem vai. Aquele que fica é o que sofre, o que sente o tédio, o que se vê esquecido. O que vai sempre encontra uma mudança no seu destino que sempre o faz feliz, ou ao menos diferente, e sempre o faz, se não esquecer, esfriar a paixão pelo que ficou. Ir, ficar, estar. Verbos lindos, tão difíceis de serem entendidos. Ter, já mais maleável, talvez cause mais palpitação do que o estar, tão constante que acostuma-se.Aqui estou eu novamente, falando do não ter o que falar. Sei que vou apagar o que escrevo, pena que essa tela não é um papel que eu possa veementemente amassar e arremessar no esquecimento. Minha vida é tão (des) interessante que eu me perco em palavras pouco sutis, amenas, sem sal. Gastei minhas melhores palavras com o seu bilhete, foram bem gastas. Prefiro sua leitura a leitura daqueles desconhecidos que me vêm importunar. Aliás, prefiro sua leitura à leitura daquele que adora me irritar. Tão longe...

Por enquanto.

Última vez que volto pra casa. Casa? O asfalto vai ficando pra trás, correndo sob meus olhos, meu pensamento voa. Que subida leve, deliciosa. Tudo vai diminuindo, tanto quanto sua presença vai virando lembrança. Tantas nunvens, não vejo o céu, não vejo a terra. Pergunto-me então o que tem lá em cima. Engraçado como não me canso de repetir essa pergunta, em todas as idas, todas as voltas, todos os caminhos, o que será que há lá? Queria hoje mergulhar nesse mar de estrelas, mas a noite não está limpa, nem se vê a lua. Curioso, ao meu lado há um homem que também escreve, uma caneta, um bloquinho. Será que ele tambem fala do céu, tão vago assunto? Queria saber o que ele tanto escreve, roubar um pensamento, ele parece ter boas idéias. Uma cidade surge, estamos voando tão baixo. Quando eu era criança preferia viajar durante o dia, acreditava que veria um anjo nessas nuvens, adorava passar por dentro delas. Era maravilhosa a sensação de ver tudo branco, sem saber o que encontraria pela frente, tendo algo no que acreditar. Hoje prefiro a noite. Mais me encantam as estrelas e o tom indefinido do negro céu do que os anjos. Sinto-me mais perto de Deus, talvez até próxima dEle, olhando o mundo por um ângulo próximo do que Ele vê. Aliás, é nesse momento que mais tenho fé, não é possível que isso tudo seja uma mera coincidência, na verdade nada disso faz sentido. Hoje tento não dar atenção aos meus dilemas, não quero falar da vida, não quero falar de amor. Quero apenas jogar aqui belas palavras, dizer coisas que façam sentido, mostrar minha paz, apesar de tudo. Sempre imaginei como seria esse momento. A próxima vez é diferente, o adeus será para outros, chorarei. Partir agora é fácil, na próxima vez em que aqui estarei, o peito vai apertar, a saudade vai crescer e eu vou finalmente sentir o que é deixar tudo isso pra trás. A próxima vez, não digo que será pra sempre, mas será apenas ida, não marcarei a volta. Estarei lendo cartas, ouvindo música, sofrendo quietinha, fechando mais uma caixinha. Última vez que estou voltando pra casa. Qual casa?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Tantos títulos.

Uma estante na minha frente. Não, várias estantes, prateleiras, capas. Tanta coisa já foi escrita, jamais lerei metade. Imagino quanta criatividade há, quanto mais ainda pode ser escrito. Será que o que agora escrevo não já foi dito antes? Talvez sim, espero que não.Sempre que entro em uma livraria meus olhos querem chorar. Fico horrorizada com a minha incapacidade de ler, com a minha pouca habilidade de devorar tudo aquilo. Sou uma inútil, penso. Nem mesmo li uma livraria inteira e já me aventuro em decifrar o mundo. Presunção. Hoje pensei se algum dia seria lida, se aquele título estampado já foi um dia imaginação. Engraçado quando alguem próximo a você é publicado. Espero que o leiam, penso. Penso tanto, por isso não escrevo. Se cada pensamento meu se transformasse num texto, reescreveria aquela livraria inteira. Dá um medo pensar nisso tudo. Chega. Olho pra prateleira a minha frente, tantos nomes, tantas cores. Cada livro traz um assunto, ou falam todos da mesma coisa?Nossas vidas expostas ali, jogadas, cuspidas por um alguem que se achou no direito de fazê-lo, só por que era criativo. Grande coisa, criatividade. "Na natureza nada se cria, tudo se copia." O que seria um livro se não uma cópia do que já foi pensado? Acho que estou perdendo a cabeça, o João Ubaldo Ribeiro continua olhando pra mim e eu aqui, devaneando. Tantas palavras em vão, algumas se preocupam em revelar a vida hollywoodiana, outras, o mais intrínseco desejo de poder, de sedução. Quantas palavras em vão, quanta bobagem. E eu aqui, devaneando. Olho para os lados, olhares curiosos, confiantes. Há aqueles que preferem achar que já leram muito, se sentem menos incompletos. Mas é falsidade, prefiro viver no vazio da realidade. Eu gosto de passar meus dedos entre as páginas dos livros, sinto um prazer enorme. Parece que estou podendo degustar um pouco daquilo que jamais terei, é mais um joguinho. Sinto as capas, grandes, pequenas, coloridas, sem graça. A capa muitas vezes é o que me atrai, claro, é assim o ser humano. Por que será que toda livraria blockbuster tem hoje um café? Os cultos seres que as habitam precisam mostrar aos outros quem são, o que fazem. De nada adiantaria ser culto pra si mesmo, eles gostam de exibir seu poderio intelectual. Café e livros, uma boa dupla, na maioria das vezes, surreal. Quem mais toma café não são os nobres leitores de Nietzsche, são os trabalhadores da construção ao lado, que jamais ouvirão falar em psicanálise (tão mesquinha), quem dirá em Nietzsche. Enfim, estão me chamando, não levei nenhum livro. Levei apenas uma lembrança dessa prateleira, já sei o que vou pedir de natal. Livros, um dia ainda escreverei o meu. Serei então devorada por olhos ávidos por vida, em estantes alheias a mim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sem Assunto.

Eu não sou mais. Epifania.Não sei o que deixei de ser, nem sei o que era antes. Meu braço está arranhado, me machuquei. E dessa vez sou uma mulher. Finalmente o sou.Onde estou, o que será que fiz? Fantasmas ao meu redor, medo do que passou. Angústia. Não choro, não sou do tipo que chora.Como uma nuvem que paira, não descarrego.Meu cabelo não está arrumado, não ligo. O vento que à noite me assusta, agora vem pra me dizer que não estou sozinha. Sinceramente, não sei do que estou falando. A sala está vazia. Olho pra frente, não há. Cadeiras vazias, todos foram embora. Estou te esperando, estou me esperando voltar.Essas paredes guardam minhas palavras, aquelas que jamais foram ditas. Guardam beijos que dei, abraços que distribuí, tantas lágrimas que prendi.Um pedaço de mim fica, maior do que o que daqui levo.Coração vomitado, tudo proibido, tirado. São tantos os vocês, tantos sim, duros não.Para ser coerente utilizo a incoerência, a falta de uma idéia central.Tão difícil escrever, quem lê não sabe qual o contexto do que te rege. Dói. Estar sentada aqui dói. Não poder voltar no tempo e fazer o que eu realmente deveria ter feito, dói.Te deixei ir, fui.
Um menino veio me perguntar se eu estava bem. Estou. Desculpe a intromissão, esse livro, já leu O mundo de Sofia? Já. Desculpe a intromissão, vou indo. Tudo bem.
Tudo bem, chega disso tudo. O que me foi sugado agora me é devolvido e a cor volta à minha face.Não sou mais. E, por isso, agora volto a ser. Alívio.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Texto Pílula, ou, F.

Sentado na varanda olhando o mundo girar. Somo tão inúteis. A vida é tão injusta, me foi dito. Não, ela não é. Eu que não quero me levantar daqui e me permitir a justiça. Estou apenas, vendo você ir embora. Se o que derramo são lágrimas, não sei por que choro. Você era tão linda, tão ausente. Lembro-me de quando te vi chegar, tão incerta em seus passos, tão contraditórios seus sorrisos. Mais uma que sabe bem o que quer, só não sabe por que. Foi embora. E voltou. E foi embora. Voltou. Foi... Espera, pára. E eu? Continuo. Cansei de dar adeus, mas ainda a beijo quando a vejo dá-lo. Outro dia a vi com outro. Pensei: bobo, mais um joguinho. Droga, acabou a rodada. Pra posição da qual saí, eu retorno. Ela já ganhou há tempos, não sei porque continua jogando. Dos meus devaneios me despeço e pego meu violão.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Metaphysical Nausea.

E sentir o peso em meus ombros. Sentir que deve-se saber falhar, que deve-se aprender a perder. Nem tudo está sob o seu controle e, cada vez mais, o mundo não fará sua vontade.Vejo que não sou mais do que apenas sou, que nem tudo é tão verdade, que a dor é pequena. Sabe, lembro-me de quando era pequeno e todos se derretiam quando me viam sorrir, meu sorriso era minha barganha. Não que o tenha perdido, jamais, mas ele já não exerce efeito nenhum. Sou apenas mais um bobo sorrindo em meio a multidões e que, sem enxergar a dor do outro, sorri dizendo que sabe superar a sua. Aliás, lembrando-me da minha não tão distante infância, percebo o quanto perdi. Deixei de lado aquela constante felicidade (sabendo que dizer isso é redundante, se é feliz...) e vivo apenas momentaneamente alegre. A felicidade vem em ondas, uma vez me disseram, mas a tristeza é que é ondulatória, vem derrubar a alegria e quando consegue, é difícil ressuscitá-la.Sei que escrevo com ar de quem tem uma vida horrível, sei também que não passo de um presunçoso.Minha vida é fácil. Rio. Tão poucos obstáculos, tão pouca necessidade. Mas, vazio, um vazio.E esse eu não consigo preencher, nem mesmo destampar para então procurar o que deve ser posto ali.São tantas as procuras, tão efêmeros são os encontros. A vida segue, assim, incompleta, mas feliz, simplesmente por que não tenho do que me queixar.A alegria me toma, constantemente,e logo se desfaz em uma busca desenfreada e cada vez maior. Desenfreado.Não não tenho freios, apenas não consigo ou gosto de usá-los.
Será que tenho algo para barganhar?Troco favores e não mais sorrisos, troco olhares e não consigo.Não, não, mentira, eu nem sempre consigo o que quero. O que quero é acreditar que sempre consigo o que quero, mas não tem jeito. Eu não consigo.Há tanto que queria poder acreditar... Sempre há, óbvio, mas em mim há mais daquilo que quero acreditar do que eu realmente acredito. No que acredito? Sei, não sei.
Faz tempo que não escrevo. Não esperava escrever algo bom ao voltar. Queria ter tempo pra escrever, e escrever, deixar meus dedos soletrarem minha imaginação.
Vejam como sou louco, até saudade do que nem escrevo eu sinto. E sinto muito.

sábado, 18 de outubro de 2008

A320.

Lá fora o sol se põe. A dez mil metros, tenho o mundo sob meus pés, mas desconheço tudo o que sob eles acontece. Aqui dentro há apenas um pouco de vida, uma amostra da humanidade. Mulheres, crianças, homens, cada um deixando um pouco do seu passado e destino, podendo mudá-los para sempre. Quem sabe se nós estaremos vivos amanhã? Talvez forme-se um casal, talvez alguém arrependa-se de ter partido, talvez alguém jamais queira voltar. Compartilhamos essas horas, temos, por um curto tempo, a mesma sorte, o mesmo destino.Aqui não há pátria, não há lei, há apenas o que nós queremos que haja. Eu, nessa inércia inevitável de quem sempre vai, observo os olhares e gestos. Penso no que pode acontecer com esse pedaço de mundo. Estar aqui é como não estar em lugar nenhum, mas estar em todos os lugares.Não se é, apenas se foi e se será. O caminho nos é comum, mas o que é esse caminho se não ansiedade?
Lá embaixo a cidade começa a exibir suas permanentes luzes. Vai chegando o fim da transição, vai crescendo a ansiedade para então tornar-se de alegria, explosão. Enquanto nosso mundo vai tornando-se restrito, nossos pés vão querendo andar sob o que foi visto lá de cima. Na terra entramos no turbilhão do qual saímos e a vida não mais continua, ela permanece.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Contracapa.

Às vezes acho que você deve desejar viver tudo o que você leu. Vagueio sempre na sensação de que você deve querer largar essa vida cinzenta e se aventurar por aí. Eu tenho uma vontade imensa de viver. Não mastigo cautelosamente antes de engolir os momentos. Mas, o mal que me faz, pouco me importa. Há uma nostalgia constante naquilo que ainda não vivi e, por não conhecer, amo. Acho que li demais. Cismei que você é mais um personagem, tens algo de H.H. Mas serei eu narradora personagem?
Os filmes, esses já não me encantam mais. Andam tão banais, tão realizáveis que perderam todo o mistério.Os livros, tenho certeza de que tudo o que foi escrito ainda há de acontecer, mas a improbabilidade de tal acontecimento é o que faz querer ler mais. Iludo-me?
Escrevo no escuro, não vejo minhas palavras, mas assim é a vida, uma notícia, não História. Suspiro a espera do príncipe, mas antes que ele chegue eu mudo do romance para o suspense e o troco por um sapo misterioso.Li pouco, ainda não sei bem quem és.Andei pensando em você, escrevendo um romance que jamais sairá da minha cabeça.Tento entender o porque de tantas voltas quando se pode chegar logo ao clímax. Sei apenas que quero escrever tudo o que viverei, para então ler tudo o que vivi. Meu mundo é este, mas esse não o é.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Desvio de senso crítico.

Queria escrever sobre mim. Queria ser a narradora dos meus textos, o eu-lírico de cada palavra, mas não sei fazer isso. Talvez eu seja simples demais e não tenha nada a dizer. A verdade é que sou tantas que não consigo escolher qual ser. Tento agora, inutilmente, falar de mim.
Sabe, ela é meio louca. Vive falando sozinha, é exagerada, não entendo.
Ela é a mulher de um traficante, não, uma missionária evangélica. Pensando bem, acho que é uma garotinha inocente, ou seria uma cartomante?
Tentou ser tudo o que quiseram que ela fosse, fez caras e bocas, se pintou e saiu pro mundo.Ela é do mundo, e ele é dela. Cada canto esconde um sorriso e uma lágrima que ela riu.Todas as lembranças, todas as memórias, nada é mais real, ela vive delas. As paixões que teve, os amigos que pouco conheceu, foi tudo tão efêmero e pouco ficou. O amor que sentiu e os amigos que abraçou, guardou-os todos e com eles vive.
Ela não é muito normal, mas qual a graça de sê-lo?
Diria o Chico que Ela nunca será de ninguém porém eu não sei viver sem, e fim.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Hall de caminhos.

Ela estava de preto. Sentada, de pernas cruzadas, brincava com uma caneta entre os dedos e me olhava fixamente.Seus cabelos eram ruivos e contrastavam com o branco inocente de sua pele.Ela era linda, uma pergunta sem resposta. Meus olhos estudavam cada detalhe de seu corpo, e a cada segundo eu descobria algo novo. Uma tatuagem no pescoço, um anel no polegar, uma cicatriz na coxa. Eu, encantado, decidi que ali ficaria pelo resto da noite, ou até mesmo da eternidade.
Eu estava cansado, havia, como sempre, trabalhado demais, achado soluções demais para problemas que não eram meus. Minha camisa já estava desarrumada, um botão a mais aberto. A gravata já fugia do corpo.Pensava que talvez fosse hora de me arriscar tanto quanto eu tinha medo de fazer até aquela noite. Depois de analisar minuciosamente aquela sedutora interrogação sentada à minha frente, resolvi aproximar-me.
Ao ver meus incertos passos ela abaixou o olhar e assim permaneceu.Cessei meu caminhar, talvez fosse muito cedo para abordá-la. Desviei o caminho e fui até o bar, de onde observava-a curvada e imóvel.Muito passou pela minha cabeça, pensei tê-la assustado, pensei ter sido precipitado, pensei ter sido agressivo.
Quando esqueci que ela ainda estava ali, fui surpreendido por seu rosto próximo ao meu. Sua maquiagem estava borrada, ela havia chorado. Encostou seus lábios em minha orelha e pediu-me desculpas, deixando-me só antes que eu pudesse questioná-la.Vi-a ir em péssima hora com passos apressados e firmes sob finos saltos. Ela deixou o hotel e sumiu em meio a chuva e a escuridão.
Não sei por que ela fugiu, com certeza por trás daqueles penetrantes olhos negros havia uma vida complicada, desconhecida. Ela deve ter vivido, diferente de mim. Minha monótona e incansável vida esbarra sempre em mulheres assim, cheias de perguntas para mim. Elas não apenas carregam histórias, mas carregam tudo o que me faz pensar em suas histórias. Elas me trazem sempre novidades de passados que ainda não vivi. E isso é delicioso.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Humanas.

Bocas, quantas bocas. Tantas palavras inúteis, desperdiçadas. Em minha cabeça as mesmas palavras se remendam, entrelaçam-se e se desfazem. Procuram um sentido e não o acham, preferem permanecer em sua vastidão ilógica. Lógico é o que sinto, confusa é a irracional razão que me afoga. Não entendo, mas ouço vozes, palavras, palavras, palavras...
Sozinha fico perdida numa mistura desinteressante de seres. Seres falantes, gritantes, exageradamente extremos.Nem sei mais por que escrevo, não sei como conecto tais letras e consigo vomitar palavras certas. Obrigada pela falta de ordem, assim faz mais sentido. Sabe-se lá o que eles querem dizer, eu prefiro calar tudo o que me atormenta. Uma confusão, profusão de gritos tresloucados. Quanto a mim, já não sei o que quero saber, não sei ser mais quem sei saber ser. Calem- se por favor, me deixem em paz, deixem minha mente gritar e sufocar esses barulhos insuportáveis que suas bocas deixam escapar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Próximo segundo:

Ansiedade.

É passado isso aqui, mas é que eu preciso registrar que tem uma vida minha de amores e amigos nos comentários desse blog, tanto quanto em tudo o que eu escrevi. Estou impressionada...

Van Gogh ou Il n'y a plus rien.

Vejo pedras no chão.Elas tentam me derrubar. Minhas mãos estão molhadas e borradas de preto, meu rosto encontra-se nelas, não sou capaz de gerar mais nenhuma expressão.Vejo pessoas falando, gritando, gemendo.Não as vejo nítidas, elas são apenas vultos.A luz amarela da rua me deixa tonta, estou vacilante e incerta em meu passo.O céu continua estrelado como se não se importasse com o horror do que vê. Há mulheres sujas nos cantos, homens bêbados nas esquinas e há Eu.Eu que não sei como vim parar aqui.
Meu vestido vermelho apagou-se, está rasgado, amassado. Alguem esteve aqui. Tenho sede, sinto dor.Ouço a chuva cair sobre meu peito, seu barulho dói.Vejo na calçada um vermelho que não está em mim, mas está porém, tão violado quanto o meu. É uma rosa, morta. Houve uma vida nela, houve uma vida em mim. Sinto pena dela, tão quieta em sua solidão sem brilho.Ela sabe que a toco, sei que ela sente meu toque. Diferentemente da rosa, não é o mundo que quer me derrubar, fui eu quem se jogou no chão. A culpa é minha, só minha.Encontrei o mal que procurei e não sei mais esconder.
Decidi que aqui imortalizo-me como a rosa imortalizou-se em seu vermelho doce. Nessas ruas vazias de verdade o rio é o único que segue um rumo. Ao rumo me entrego e termino por aqui.

Lamarckismo.

Transformo esse desejo em palavras que aliviem a obsessão. Escrevo agora, não gasto grafite em letras perdidas e palavras desconexas que me vêm a mão quando mais te quero. Agora, nem sei quem és. Carrego o peso do teu impuro perfume em meu peito desesperado por sentir-te. Confesso para que saibas o quão absurda é essa anormal fixação. Ao leres essa entrega, logo saberás que é a você que me refiro. À você, o tão proibido você.
Ver meu vestido vermelho em tuas mãos é a única coisa capaz de saciar minha vontade, ou não. Por ti sinto sinto desprezo, sinto nojo, tenho horror, mas hei de transformar tudo o que sinto em um objetivo, ou melhor, um objeto. Exponho-me para que me cubras com teu pudor, há muito vulnerável. Se é impossível, pouco importa. Quanto mais inalcançável, mais cresce...

sábado, 6 de setembro de 2008

Uma qualquer coisa sobre um alguém.

Era uma tarde amarga. Pela janela gelada eu via a chuva adocicando o mar. Já não via mais o sentido de estar ali, de ser ali. Eu estava cansado, há tempos eu estava cansado. A solidão me rondava, minha única companheira nas atuais multidões. O tempo passara rápido demais, ele escapara das minhas mãos enquanto eu pensava poder ser eterno.
Afogado em minha vaguidão fui de repente salvo por um raio de luz que sugou todo aquele tédio que me afundava. Seus cabelos molhados e longos e seu sorriso interminável me trouxeram à vida e me fizeram voltar a sentir a vontade de ter alguem. Nossos olhares não se cruzaram, o olhar dela penetrou o meu e me fez cegar. Lentamente seus lábios se moviam e ela articulava palavras que eram, para mim, estranhas. Talvez ela estivesse falando de mim, talvez esse fosse apenas meu desejo.
Ela comprou um sorvete, encarou-me com olhos de menina e me mostrou que aquele olhar era apenas um truque... Saiu então do meu destino sabendo que dele jamais faria parte novamente.
Demorei algum tempo para acordar e voltar àquela escuridão sem graça. Nada mudou, ou tudo mudou. O sentido ainda me é estranho, mas é, entretanto, mais esperançoso. Esperança de que algum dia um raio de luz possa realmente me queimar.

Considerações.

Amei-te ontem, amo-te hoje, não sei se te amarei amanhã. Isso é crueldade, eu sei. Mas prefiro a crueldade do que a infidelidade de uma mentira.
Se há um amor eterno haverá muitos dias de não-amor.
A inconstância da minha existência não me deixa amar rotineiramente. Mesmo em uma possibilidade de todos os desejos, eu não saberia viver na realização diária deles.Concluo então que nada me satisfará amanhã, se me satisfez hoje. Nem um alguem igualmente insatisfeito poderia me completar, a inconstância seria pois, constante.
Vivo, então, na angústia da esperança de dias impossivelmente desiguais. Engulo assim, tudo aquilo que momentaneamente me satisfaz, pois, obviamente, nenhum momento é igual ao segundo seguinte.