sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Hall de caminhos.

Ela estava de preto. Sentada, de pernas cruzadas, brincava com uma caneta entre os dedos e me olhava fixamente.Seus cabelos eram ruivos e contrastavam com o branco inocente de sua pele.Ela era linda, uma pergunta sem resposta. Meus olhos estudavam cada detalhe de seu corpo, e a cada segundo eu descobria algo novo. Uma tatuagem no pescoço, um anel no polegar, uma cicatriz na coxa. Eu, encantado, decidi que ali ficaria pelo resto da noite, ou até mesmo da eternidade.
Eu estava cansado, havia, como sempre, trabalhado demais, achado soluções demais para problemas que não eram meus. Minha camisa já estava desarrumada, um botão a mais aberto. A gravata já fugia do corpo.Pensava que talvez fosse hora de me arriscar tanto quanto eu tinha medo de fazer até aquela noite. Depois de analisar minuciosamente aquela sedutora interrogação sentada à minha frente, resolvi aproximar-me.
Ao ver meus incertos passos ela abaixou o olhar e assim permaneceu.Cessei meu caminhar, talvez fosse muito cedo para abordá-la. Desviei o caminho e fui até o bar, de onde observava-a curvada e imóvel.Muito passou pela minha cabeça, pensei tê-la assustado, pensei ter sido precipitado, pensei ter sido agressivo.
Quando esqueci que ela ainda estava ali, fui surpreendido por seu rosto próximo ao meu. Sua maquiagem estava borrada, ela havia chorado. Encostou seus lábios em minha orelha e pediu-me desculpas, deixando-me só antes que eu pudesse questioná-la.Vi-a ir em péssima hora com passos apressados e firmes sob finos saltos. Ela deixou o hotel e sumiu em meio a chuva e a escuridão.
Não sei por que ela fugiu, com certeza por trás daqueles penetrantes olhos negros havia uma vida complicada, desconhecida. Ela deve ter vivido, diferente de mim. Minha monótona e incansável vida esbarra sempre em mulheres assim, cheias de perguntas para mim. Elas não apenas carregam histórias, mas carregam tudo o que me faz pensar em suas histórias. Elas me trazem sempre novidades de passados que ainda não vivi. E isso é delicioso.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Humanas.

Bocas, quantas bocas. Tantas palavras inúteis, desperdiçadas. Em minha cabeça as mesmas palavras se remendam, entrelaçam-se e se desfazem. Procuram um sentido e não o acham, preferem permanecer em sua vastidão ilógica. Lógico é o que sinto, confusa é a irracional razão que me afoga. Não entendo, mas ouço vozes, palavras, palavras, palavras...
Sozinha fico perdida numa mistura desinteressante de seres. Seres falantes, gritantes, exageradamente extremos.Nem sei mais por que escrevo, não sei como conecto tais letras e consigo vomitar palavras certas. Obrigada pela falta de ordem, assim faz mais sentido. Sabe-se lá o que eles querem dizer, eu prefiro calar tudo o que me atormenta. Uma confusão, profusão de gritos tresloucados. Quanto a mim, já não sei o que quero saber, não sei ser mais quem sei saber ser. Calem- se por favor, me deixem em paz, deixem minha mente gritar e sufocar esses barulhos insuportáveis que suas bocas deixam escapar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Próximo segundo:

Ansiedade.

É passado isso aqui, mas é que eu preciso registrar que tem uma vida minha de amores e amigos nos comentários desse blog, tanto quanto em tudo o que eu escrevi. Estou impressionada...

Van Gogh ou Il n'y a plus rien.

Vejo pedras no chão.Elas tentam me derrubar. Minhas mãos estão molhadas e borradas de preto, meu rosto encontra-se nelas, não sou capaz de gerar mais nenhuma expressão.Vejo pessoas falando, gritando, gemendo.Não as vejo nítidas, elas são apenas vultos.A luz amarela da rua me deixa tonta, estou vacilante e incerta em meu passo.O céu continua estrelado como se não se importasse com o horror do que vê. Há mulheres sujas nos cantos, homens bêbados nas esquinas e há Eu.Eu que não sei como vim parar aqui.
Meu vestido vermelho apagou-se, está rasgado, amassado. Alguem esteve aqui. Tenho sede, sinto dor.Ouço a chuva cair sobre meu peito, seu barulho dói.Vejo na calçada um vermelho que não está em mim, mas está porém, tão violado quanto o meu. É uma rosa, morta. Houve uma vida nela, houve uma vida em mim. Sinto pena dela, tão quieta em sua solidão sem brilho.Ela sabe que a toco, sei que ela sente meu toque. Diferentemente da rosa, não é o mundo que quer me derrubar, fui eu quem se jogou no chão. A culpa é minha, só minha.Encontrei o mal que procurei e não sei mais esconder.
Decidi que aqui imortalizo-me como a rosa imortalizou-se em seu vermelho doce. Nessas ruas vazias de verdade o rio é o único que segue um rumo. Ao rumo me entrego e termino por aqui.

Lamarckismo.

Transformo esse desejo em palavras que aliviem a obsessão. Escrevo agora, não gasto grafite em letras perdidas e palavras desconexas que me vêm a mão quando mais te quero. Agora, nem sei quem és. Carrego o peso do teu impuro perfume em meu peito desesperado por sentir-te. Confesso para que saibas o quão absurda é essa anormal fixação. Ao leres essa entrega, logo saberás que é a você que me refiro. À você, o tão proibido você.
Ver meu vestido vermelho em tuas mãos é a única coisa capaz de saciar minha vontade, ou não. Por ti sinto sinto desprezo, sinto nojo, tenho horror, mas hei de transformar tudo o que sinto em um objetivo, ou melhor, um objeto. Exponho-me para que me cubras com teu pudor, há muito vulnerável. Se é impossível, pouco importa. Quanto mais inalcançável, mais cresce...

sábado, 6 de setembro de 2008

Uma qualquer coisa sobre um alguém.

Era uma tarde amarga. Pela janela gelada eu via a chuva adocicando o mar. Já não via mais o sentido de estar ali, de ser ali. Eu estava cansado, há tempos eu estava cansado. A solidão me rondava, minha única companheira nas atuais multidões. O tempo passara rápido demais, ele escapara das minhas mãos enquanto eu pensava poder ser eterno.
Afogado em minha vaguidão fui de repente salvo por um raio de luz que sugou todo aquele tédio que me afundava. Seus cabelos molhados e longos e seu sorriso interminável me trouxeram à vida e me fizeram voltar a sentir a vontade de ter alguem. Nossos olhares não se cruzaram, o olhar dela penetrou o meu e me fez cegar. Lentamente seus lábios se moviam e ela articulava palavras que eram, para mim, estranhas. Talvez ela estivesse falando de mim, talvez esse fosse apenas meu desejo.
Ela comprou um sorvete, encarou-me com olhos de menina e me mostrou que aquele olhar era apenas um truque... Saiu então do meu destino sabendo que dele jamais faria parte novamente.
Demorei algum tempo para acordar e voltar àquela escuridão sem graça. Nada mudou, ou tudo mudou. O sentido ainda me é estranho, mas é, entretanto, mais esperançoso. Esperança de que algum dia um raio de luz possa realmente me queimar.

Considerações.

Amei-te ontem, amo-te hoje, não sei se te amarei amanhã. Isso é crueldade, eu sei. Mas prefiro a crueldade do que a infidelidade de uma mentira.
Se há um amor eterno haverá muitos dias de não-amor.
A inconstância da minha existência não me deixa amar rotineiramente. Mesmo em uma possibilidade de todos os desejos, eu não saberia viver na realização diária deles.Concluo então que nada me satisfará amanhã, se me satisfez hoje. Nem um alguem igualmente insatisfeito poderia me completar, a inconstância seria pois, constante.
Vivo, então, na angústia da esperança de dias impossivelmente desiguais. Engulo assim, tudo aquilo que momentaneamente me satisfaz, pois, obviamente, nenhum momento é igual ao segundo seguinte.