Por ter estado tanto tempo longe tenho hoje vontade de voltar. Desperto ao ler o que já não lia a muito tempo, sinto que o que passou na verdade ainda vive e merece minha atenção. Nem sei mais usar palavras nessa nossa lingua gostosa de ser escrita, agora vivo de leituras corridas e cumprimento de prazos. A regra é ler sem prazer, pra que se possa ler. Uma hipocrisia. Gostaria sempre de dissecar cada palavra de autores mais próximos do que tantos outros que li, mas não me é permitido. Engulo informações em um idioma seco, sem graça, sem poder sequer pensar nas belas palavras que essa minha lingua tem. Ler, correr, resumir, entender. Não são verbos tão amigos, inclusive me cansa ter que uni-los. As palavras hoje já são de realidade, não são mais minhas fantasias em livros que tanto procurei. As palavras querem provar uma ideia, querem se auto-defender e não se importam com o que eu penso delas. Absurdo, sempre li aquilo que me permitia indagar, refutar, amar. São tantas teses apresentadas, tantos argumentos e hipoteses que eu só gostaria de ter um momento de ilusão. Sempre li para prever o futuro, ou entender o passado. Li para me deliciar, para me imaginar, para te imaginar em um te que sempre variava. Agora leio paragrafos que se repetem como se a repetição fosse provar alguma coisa. Leio pra sugar tudo aquilo que o autor me permite e ir além dele somente se solicitado.
A cada palavra dita por aquele que lá da frente não me olha, imagino como seria se eu pudesse dizer o que penso disso tudo. Ouvimos dizer que o internacionalismo liberal foi a infancia das relações internacionais, quero dizer então que o realismo foi a adolescencia rebelde. Mas, me contento em anotar, em sugar, em compreender. As vezes, porém, certo luxo me é permitido, posso estender a corda. Indago, vou além e provoco toda aquela ideia tão fechada e organizada.
Gostaria de ter tempo pra ler mais, além do demais que já leio. Gostaria de ter folego pra escrever, gasto-o todo sentada em uma cadeira assistindo e participando do teatro das infindáveis críticas.
Quero o luxo de não criticar, mas de imaginar. Quero o pecado de saborear páginas para além do que elas me oferecem. Volto orgulhosa, mas insatisfeita de ter ido embora para ter que voltar.
Andei lendo outras coisas além das narrações históricas e defesas de teses, mas errei nas escolhas e não fui muito longe. Li um drama que me fez entrar na história, história essa que infelizmente foi realidade. Tenho lido tantas desgraças, tantos massacres, tanta mutilação, morte, tortura, que as vezes penso por que continuo lendo, sabendo que o que leio já passou e o agora ainda não foi escrito.
É prazeroso para mim estar tentando de novo. Espero que não mais me ausente, espero que tudo o que leio não me tire o desejo de ser sempre lida.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Às Aulas.
Deveria eu estar nessa abstracao? Estou sentado em uma cadeira, há um chao abaixo de mim e a noite lá fora. Quem é esse homem que tanto fala, o que ele quer de mim? Confesso que sei que nada ao meu redor é realidade, mas também sei que nao é minha imaginacao. Nao tenho paciencia para ouvir esse homem, nem essa garota, nem minha própria cabeca gritando por uma forma geométrica. Um, duas, tantos, quem sao? Jamais serao, sequer foram, me é dito que é tudo construído e eu quero ter sido natural. Nao me interessa saber por que sou se a razao é tao externa a todos nós, e ao mesmo tempo tao interna. Saber o tudo pra nao entender nada. De que adianta tanta loucura se há apenas o precipício? Nunca chegar ao final, cansar-se da vida, mas nunca achar-se pleno dela. Nao me cansaria da vida, também nao estaria pleno dela, nao vou engolir que isso é o final. Abismo, frustracoes, nao há verdades. Nao preciso de verdades, preciso de perguntas, por favor caro homem que tanto fala, deixe minhas perguntas sem respostas. Estou feliz com minha ignorancia e nao busco mais do que eu posso aguentar. Conceitos, ideias, críticas. Adquirir o mundo e contruir-se sem ser o sujeito da própria construcao. Construir o mundo que será entao adquirido. Nao é natural, nada é natural. Espera, somos animais e eu nao vou acreditar no que esse homem diz, é biológico, é instinto. Ele estar ali falando nao é instinto, eu aqui ouvindo muito menos. Deveria seguir mais meus instintos. Nao ter em que acreditar por ter destruído tudo aquilo que eu senti. Nao quero tantas análises, repudio tantas generalizacoes, o mundo nao é tao transparente. Acharmo-nos responsáveis por tudo que há é no mínimo presuncao. Inventaram o mundo real, complicaram, criaram controles. Agora, é hora de desinventar, desconstruir, descontrolar, desencantar. Deixe meu mundo encantado, ele me é tao mais prazeroso. Já bastam minhas frustracoes que acredito serem reais, nao me imponha mais. O homem é o único animal religioso, também é o único que briga com esse fato. Aliás, nao há fatos, é tudo interpretado. Entao, pra que viver? Nao sei o que faco com o que escuto, nao entendo, nao quero entender, me acho feliz. E pleno. Esse homem me incomoda, me dá nauseas, me faz querer ficar com as tais lentes. Se eu visse o mundo assim tao feio nao veria graca em viver. E considera-se que eu seja pessimista... Chega, abstenho-me dessa discussao. Deixo meu mundo encantado e construído. Meu envolvimento social vai permanecer duplo sem que eu saiba que o é. Ignoro, e isso me dá muito mais prazer. Cansei de tentar abstrair.É essa a minha realidade.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Trágico.
Se eu não fosse eu, quem eu seria? Um desvio no meu caminho e outro estágio. Aqueles que prevaleceram me garantiram toda essa calmaria, sinto saudade do desespero. Vá por aqui, não por ali, dizia minha mãe. O professor também falava, mas ele eu desobedecia, era mais divertido. Encantei-me com um mundo que me satisfez, mas não me prendeu. Era tanta sedução, tanto engano, amargas manhãs de palco, doces noites de espetáculo. Pena que não me segurou. Se eu não estivesse onde estava na vida paralela que eu levava, teria chegado a outro lugar e jamais teria me desfeito das máscaras. Noites borradas, cheiro de alcool, novidade. Quando acabou eu sabia que viveria um certo tédio, mas eu escolhi o tédio e não a tentação. Boa escolha, a longo prazo. Sabe, uma das máscaras que eu achei me servia tão bem. Encaixava com o meu passado e era o perfeito estado presente para o futuro desenhado. Usei-a durante muito tempo, demais para quem comigo esteve, de menos para quem comigo só se divertiu. Para mim, no ponto. Às vezes gostaria de sentir tudo de novo, de por a máscara e sair pro palco. Mas, as pessoas que eu reneguei não me querem mais, certas elas. Acho que fui muito puritana, ridícula. Quem era eu pra dizer quem eles eram. É que minha mãe me disse que eles eram isso, eu só repeti. Mamãe está sempre certa, não devo discutir. Até hoje, sobre os outros, não errou uma. Mães, professores, pais. Eles sempre se confundiram na minha cabeça e eu sempre tive o prazer de desobedecer. Quem sabe não quis impressionar um por não saber que ele era? Papai, li o livro todo, oh papai, aprendi direitinho. Caro professor, não li o livro, não sei do que se trata. O prazer que isso me dava. Era uma criança querendo ser grande, sempre fui.
Agora já não sei mais o que me dará tanto prazer, fui privada do palco, esconderam as máscaras, meu professor não liga mais pra mim. Meus pais não querem saber se li o livro ou não. Acabou a diversão.
Agora já não sei mais o que me dará tanto prazer, fui privada do palco, esconderam as máscaras, meu professor não liga mais pra mim. Meus pais não querem saber se li o livro ou não. Acabou a diversão.
domingo, 19 de abril de 2009
De Volta.
Voltar e viver tudo de novo. Não quero mais isso pra mim, por favor, não. Chega disso, eu fugi e queria retornar sem você aqui. Maldito você, está aqui. Tudo volta, um redemoinho em minha cabeça, um aperto no meu peito. A dor que me traz. Essas ruas, essas paredes, minhas lágrimas. Não sei o quanto vou aguentar depois do alívio que tive. Apesar de você eu cheguei lá. Orgulho por ter aguentado, desgosto por ainda não saber lidar. Será que é você, me arrepio, meu coração acelera, suo frio, há tanto tempo... Uma doença, uma memória que não vai. Talvez a culpa seja minha, eu sou o fraco que não consegue superar. Mas é tão difícil. Eu ainda estou aqui, e tudo o que o ontem deixou. Medo, curvo minhas costas. Em poucos segundos tudo se esvai e a tristeza volta. Onde estive? No paraíso, talvez. Nenhuma dor minha é igual a esse maldito aperto. Vazio, insegurança. Se estive lá eu quero voltar. Prefiro o sufoco das noites solitárias do que essa maldita volta ao passado. Vai embora, e não volta jamais. Vou aprender a me livrar de você, cansei do seu fantasma, chega de ser uma longa história que explica metade da minha existência.
Eu sou mais, bem mais, mais do que isso, mais do que você.
Um quarto que foi meu, que sempre será. Memórias minhas, alegrias, tristezas. Estou de volta, estou de volta sorrindo por saber que é temporário. Confesso que às vezes o conforto vem, a vontade de desistir surge, mas não é suficiente. Não é maior que meu amor, não é maior que meu futuro, não chega perto do prazer da novidade. Aqui só tenho memórias, tantas ruins. Aqui tenho laços, mas tenho também obsessões. O mal que me faz some com a distância, o bem não. Parti pra me ver livre de todo o mal, sei que o que é de bem permanece sem condições. Esse quarto tem vida mesmo quando eu nele não estou, e isso me assusta tanto quanto me conforta.
Os quadros na parede trazem tudo o que eu pensei sobre eles, as telas, tudo o que me fez mal e que senti. O mapa eu queria levar comigo. Ele foi o que me fez tentar sair. Olhando para o mundo lembro que sou ínfimo comparado à infinidade de vidas que existem por aí. Meu pedaço de mundo é muito pequeno e já é demais pra mim. Minhas ideias não são nada, nem meu passado, nem meu futuro.
Volto para saber o que stou perdendo. Volto para dar mais valor pro que conquistei. Volto, por ir embora e ter mais.
Eu sou mais, bem mais, mais do que isso, mais do que você.
Um quarto que foi meu, que sempre será. Memórias minhas, alegrias, tristezas. Estou de volta, estou de volta sorrindo por saber que é temporário. Confesso que às vezes o conforto vem, a vontade de desistir surge, mas não é suficiente. Não é maior que meu amor, não é maior que meu futuro, não chega perto do prazer da novidade. Aqui só tenho memórias, tantas ruins. Aqui tenho laços, mas tenho também obsessões. O mal que me faz some com a distância, o bem não. Parti pra me ver livre de todo o mal, sei que o que é de bem permanece sem condições. Esse quarto tem vida mesmo quando eu nele não estou, e isso me assusta tanto quanto me conforta.
Os quadros na parede trazem tudo o que eu pensei sobre eles, as telas, tudo o que me fez mal e que senti. O mapa eu queria levar comigo. Ele foi o que me fez tentar sair. Olhando para o mundo lembro que sou ínfimo comparado à infinidade de vidas que existem por aí. Meu pedaço de mundo é muito pequeno e já é demais pra mim. Minhas ideias não são nada, nem meu passado, nem meu futuro.
Volto para saber o que stou perdendo. Volto para dar mais valor pro que conquistei. Volto, por ir embora e ter mais.
quinta-feira, 19 de março de 2009
Caminhando.
Nunca fiquei tanto tempo com meus pensamentos. Vejo-os entao, finalmente, como realmente sao. Inquieto, ansioso, indeciso, afobado, desastrado. Tantas novas definicoes pro que eu achava já estar definido. O que eu sonhei aconteceu, mas acontecer nao é tao bom quanto sonhar. O que nem imginava virou sonho de tao bom que foi realizar. Cá estou eu, com medo de onde já cheguei, querendo saber se há mais, insatisfeito com uns, superado por outros. Esperava muito, mas nao tanto quanto é de verdade. Será que me iludo? Talvez esteja cego, talvez queira acreditar que é mais do que é pra nao desistir. Mas, se nao fosse tao bom, nao teria esse gosto de realizacao. Quando eu chegar lá. Quando chegar. Já nao vou mais querer lá estar. Fecho os olhos e peco pra voltar, fecho os olhos e agradeco por estar. Sim, saudade, mas felicidade também. Achei um bom amor, um bom amante. Nem procurava, mas achei. Nao há nada mais que eu possa querer. Venho caminhando devagar, vendo a rua que passa, lembrando de quando aquela rua nao me pertecia. Já nao sei se agora pertence. O que mais eu quero? Eu andando e me dizendo que aqui estou, nao era isso que eu queria? No final o por que de eu ter vindo nao é mais o que eu achava que seria, mais vim por ele do que pelo novo. Ele. Há uns meses eu nem sabia que assim seria, mas foi. E nessa de ser sem eu ter esperado sou surpreendido por mais uma placa que me manda parar de imaginar. Andei com meus pensamentos, nao com a minha imaginacao. Andei pensando. Nao imaginei andando. Uma vitória para mim, reconhecer que nao devo mais imaginar. Ele nao foi imaginado, aliás, o fracasso foi. Imaginei que nao daria certo. Deu. E o que imaginei ser perfeito nao foi. O que me abstive de imaginar foi bastante empolgante. Que maravilha, quem sabe um dia eu consiga dar adeus a toda essa imaginacao pedante. Estou chegando na casa, nao em casa. Em casa por enquanto nao chegarei. Minha casa é um alguém.
Abrem a porta e nao vejo quem esperava ver, tenho que me acostumar com isso. Espero o dia em que eu abra a porta, ou o que eu volte a ver quem faz da casa, lar.
Abrem a porta e nao vejo quem esperava ver, tenho que me acostumar com isso. Espero o dia em que eu abra a porta, ou o que eu volte a ver quem faz da casa, lar.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Ensaio Sobre Um Eu.
Sou eu por que sou dois. Sou, o que fui serei, não quero ser quem já fui. Por ser dois quem sou me é elegível, torna-se mutável. Dentro de um não mudo, minhas mudanças são de lado. Quando atravesso, não sei quem sou e, portanto prefiro pular. De um lado, para outro lado. Nem todos me esperam dos dois lados, alguns nem sabem que dois lados têm. Gosto dos que não deixam um lado pesar mais. Gosto dos que sabem o que sou. Gosto de fingir que sou um, de mostrar que sou mais. Gosto, não gosto, me calo, odeio. Não sei se te quero ou se te amo, amo quem me ama lá e cá, você ama? Não ame por querer unir, mas por saber amar. Amo-te. Quando o amor é assim somam-se dois e dois, acham-se três. Três por que cada um é o que é, sem abrir mão do que não é. Têm-se todos os lados, somados, plenos. Se se somam quatro, não é amor. Soma-se um, é dependência, faz mal. Pergunte qual é a minha verdade, não sei que horas são, respondo uma, depois outra. Na metade troquei, no final recomecei. Até mesmo minha memória não mistura, memória de elefante, péssima memória. O que fiz ontem posso não ter feito e nem querer fazer o que farei amanhã. Fusão confusa. Funciona, às vezes não. Se se misturam geram desespero, angustia, arrependimento de um, orgulho do outro. Apenas escolho. Sou, não sou. Quem sou?
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
(ansie)(sau)dade.
Suspiro de saudade e um calafrio. Olha, lá vem o Novo. Seja bem-vindo, eu já gostei de voce antes de te conhecer. Confesso que agora que voce está se aproximando meu coracão vai acelerando. Meus olhos estao um pouco úmidos, mas não vou chorar. Oh, não é medo, de maneira nenhuma. É pavor. Não de voce, querida Novidade, mas da forca que voce pode ter, do ciúme que tem. Eu sei, não precisa mentir, nenhum Novo gosta do Velho. Todos voces, adjetivos, são ciumentos, e não pouco. Ameacadoramente ciumentos. O Velho vai me atormentar todos os dias, vai me encher de perguntas, enquanto voce, Novo, vai me puxar pelo braco e me encher de risadas até eu parar de responder ao Velho. Vai ser assim até voces acharem um meio termo, um vai aceitar ser meu amigo, o outro minha paixão. Ou até um dos dois me convencer de que é melhor do que o outro, e me fazer escolher. Novo, Velho, por favor, convivam! Enquanto voces ainda não se encontram eu me contento com o Transicão, tão mais calmo, diria até entediante. Transicão, um affair, nada sério. Um passatempo, Transicão, sinto muito mas voce não desperta em mim nenhum sentimento se não aquele que me faz lembrar o Velho ou pensar no Novo. Maldita Transicão, nem sei por que dizem que voce é tão necessário e que vale a pena te dar uma chance. Eu preferia ter ido de um amor ao outro, não me agrada o que voce me traz. Ah, Tempo, o Deus do Novo e do Velho, e até da Transicão, escuta minhas preces e desliza enquanto o Novo não se declara. Tempo, por que passaste assim, quando o Velho ainda era meu amor? Sabe, não sou do tipo que gosta de um amor rotineiro, e o Velho já não cabia mais. Não nego, seria feliz com o Velho eternamente, ele me conhece, sabe do que gosto, mas quando eu já fosse também parte do Velho, veria que deveria ter me aventurado quando o Novo piscou para mim. Já vi tanta gente que carrega o Velho em suas costas, que diz que é feliz, mas que não poe o pé fora da calcada, muito menos a vida fora do eixo. Agora, é tão fácil reconhecer quem acabou de conhecer o Novo. Eles tem um olhar diferente, meio assustado, meio desafiador, e tão brilhante. O Novo me dá brilho nos olhos.
Olho pro espelho, o Velho logo atrás de mim, triste. Mas em meus olhos já vejo o Novo, e vem o calafrio, uma epifania que pensar no Novo me traz. Vem então a saudade, melhor e pior sentimento que o Velho me deixa. Suspiro, pelo que vem, pelo que foi. Saudade, calafrio.
Olho pro espelho, o Velho logo atrás de mim, triste. Mas em meus olhos já vejo o Novo, e vem o calafrio, uma epifania que pensar no Novo me traz. Vem então a saudade, melhor e pior sentimento que o Velho me deixa. Suspiro, pelo que vem, pelo que foi. Saudade, calafrio.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Sono.
Dormir transforma tudo em passado. O que era recente torna-se distante. Ainda se pode retornar antes que se fechem os olhos, mas, quando abertos, é impossível voltar. Ela estava deitada ao meu lado, olhos bem abertos, sorriso cansado. Piscava lentamente sempre que meus dedos chegavam às pontas dos seus cabelos. Eu nao cansava de dizer que a amava, que ela era linda. Ela me interrompia e, efusiva, falava em casamento. Planejava o futuro, dava nome aos nossos filhos, decorava a casa, escolhia a raça do cachorro. Aquilo me cansava. Nao que eu nao quissese aquele futuro, mas minha ansiedade pelo presente se chocava com sua pressa em viver o que ainda viria. Eu sabia que ela seria minha mulher, que envelheceríamos juntos, nos amaríamos para sempre. Nao entendia, porém, a necessidade que ela tinha de saber o amanha se o hoje nao havia terminado. Falou da lua-de-mel, das férias na Disney com as crianças, da casa de campo. Era inútil tentar traze-la para mim, para aquele instante.Eu sentia ciúmes do meu eu futuro que ocupava seus pensamentos. A queria agora, nao na esperança de um futuro distante. Desisti, fui ao banheiro. Interrompi-a. Ela calou-se, zangada, ela detesta ser interrompida, principalmente em seus devaneios ansiosos. Quando voltei para cama, ela dormia. Nem notou meu retorno, ela provavelmente sonhava comigo dali a vinte anos.Fiquei calado admirando minha menina. Em seu sono ela parecia serena, presente. Somente enquanto dormia ela me permitia te-la plenamente, presentemente. Adormeci com o rosto acima do seu, sem tocá-la. Por que dormi? Ao abrir os olhos ela nao estava mais sob o meu olhar, seu corpo nao estava ao meu lado, a cama esfriara.Desesperado, gritei por ela, procurei a roupa da noite que terminara. A casa estava vazia, eu estava sozinho, eu nao soubera amá-la como ela queria ser amada. Sob a mesa, apenas um recado. Nao deveria ter dormido, deveria ter acompanhado seus pensamentos, deveria ter pedido desculpa por nao ter ido ao futuro com ela. Perdi-a.O futuro que ela desenhava será agora de outro, de um que nao tenha ciúmes de si mesmo, que nao se apegue ao presente.Seu futuro era agora meu passado. Por que fechei os olhos?Descuidado. Dormir transformou tudo em passado.O que era vivo adormeceu, o calor do contato tornou-se a fria saudade. Com meus olhos abertos, sei que nao posso retornar e te-la de volta. Nem sei se sonhava, ou se sao apenas memórias. Antes fosse sonho, sonharia de novo. Fiquei preso ao passado, ao futuro que nao virá.Vou ao banheiro. Adormeço.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Eu-lírico.
Andando em uma rua deserta, talvez lotada, ela sorri pra mim. Ela tropeca, ri, chora. Entra num café, senta e pede um expresso, dois, aliás. Muitos homens olham para ela, também pudera, ela é deslumbrante. Mesmo meio bêbada, com a maquiagem borrada, cheia de lágrimas no rosto, ela é linda, e o mundo se ajoelha aos seus pés. Não sei onde ela quer chegar, talvez nem ela saiba. Vagueia meio sem rumo, e para, de quando em vez senta no chão e olha as estrelas. Mal sabe ela que eu sei de tudo, sei por que chora, sei por que ri. Quem a ama a deixou mais uma vez, ela não sabe amar, nunca soube. Estaria sozinha, se não fosse por mim. Mas ela é tão bela, leva uma vida tão gostosa, e por isso ela ri. Mais uma vez ela se levanta, e sem tomar o café, segue atenta. Entra em um prédio qualquer, sobe, vai até uma festa. Todos a olham, sua presenca é incômoda para elas, insuportável para eles. Beija o mesmo homem, ri da sua cara, ri de si mesma.Pega uma taca, bebe, chora na janela, sempre olhando as estrelas. Vai embora, e eu não me canso de narrar seu caminho, sempre tão indiferente, sempre tão inútil. Não sei o que tanto me fascina nessa mulher, talvez sua certeza de que eu estou aqui. Enquanto ninguém me nota, ela me encara horas a fundo. Só eu sei quem ela é, só ela sabe que eu existo. Quando a conheci ela era apenas uma menina, se olhando no espelho, sem saber o que a levara até ali. Naquele tempo ela ainda questionava minha presenca, não gostava de olhar para mim, gritava quando eu falava ao seu ouvido. Mas ela não se afastou, quis me deixar vê-la crescer, vê-la mudar. Eu a vi usar seus grandes saltos vermelhos, seus tênis modestos, seus chinelos de plástico. Vi-a apaixonar-se, entregar-se, sofrer. Muitas vezes em meus bracos a tive, muitas vezes vi o que era tê-la de verdade. Ela jamais me negou um beijo, jamais me negou uma noite. Tive que vê-la com outros, porém, e muito sofri, não minto. Ela nunca me amou como eu quis que amasse, mas nunca fui capaz de cobrar isso dela. Preferi uma amizade, um amor paternal meio louco do que nada. Sei que um dia porém, ela irá me amar, do jeito que eu a amei, e aí então seremos completos, aliás, ela será, eu já o sou desde que a vi pela primeira vez. Juro que não sou patético, é só amor. Melhor te-la sem que ela me ame, do que nao te-la de jeito nenhum. Sou quem sou por que ela é, se ela nao fosse, nao seria.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Relicário.
Olha, o infinito reduzido a essa noite, trocar a eternidade por ela. Só de abaixar os olhos some o pensamento. Quanta ganância, querer usar o que é concreto (apesar de maleável) para descrever o que nem explicável é. Quero sempre acreditar que cada pontinho desses é um alguém que se foi e deixou quem se fez amado.A luz ofusca o brilho das estrelas, mais uma pretensão do homem que despreza o obvio, tão oculto para os insensíveis. Dizer tanto é só pra tentar dizer o que me leva a pensar no tempo. Estou mais uma vez aqui, apaixonada por essa vida, tão mais bela e complexa que minhas tolas palavras.
Lá se vai o tempo, indiferente. Não foi ontem que eu nasci, nem quero amanha morrer. O ano è passado, esse è presente, e o que mudou?Ainda sou a mesma, você, não sei. O que na verdade mudou já não é tão novidade, mas ainda não consolidou tamanha mudança. Logo em uma tão grande transição, a transição é imperceptível. Sete ondas, e lá se vai o passado. Ouço os fogos, parecem ser a explosão de tudo o que aconteceu. Enquanto brilham as luzes vejo todos os meus destinatários, tudo o que senti, choro o que já foi chorado. E então vem o silencio, no meu peito a satisfação, a certeza de que o ontem acabou. Sete ondas, e agora vem o futuro. Não quero desejar mais as mesmas coisas, mas nada tenho a desejar se não que as transições se concluam, e que eu saiba lidar com mais uma grande partida. Quero mesmo é não ter medo do que vem. Meu inferno anterior, já não mais o vejo, largo os espinhos, não quero mais causar dor. Tinha que tocar justo essa, canto com a verdade de quem o que canta viveu. Se você trouxer o seu lar, eu vou cuidar, do seu jantar, do céu e do mar, ainda, de você e de mim. Dessa vez, o ano que nasce traz uma nova vida, minha chance de, se não ser outra, fazer diferente. Ah, assim seja, tudo mudar. Claro que eu não desgosto de quem sou agora, nem do que me permite a vida, mas entenda, minha ansiedade me faz pedir mais. Rendo-me a essa maldita expectativa de poder zerar o jogo, ansiosa, deixo o futuro reger o hoje. Guardo a esperança de vencer meu vazio, a vontade de saber quem sou, certa de mim. O hoje não é mais que uma conseqüência do ontem, a causa do amanha. Digo que me dói saber que para mudar terei que abrir mão do que já tenho. Se o adeus não será mais literário, é porque a vida é uma partida. Insistirei em fazer de verbos no futuro uma fonte de nostalgia reversa. Água, leva minha saudade, traz a ansiedade. Sete ondas, o mar me trouxe o futuro. Sete ondas, quem serei.
Lá se vai o tempo, indiferente. Não foi ontem que eu nasci, nem quero amanha morrer. O ano è passado, esse è presente, e o que mudou?Ainda sou a mesma, você, não sei. O que na verdade mudou já não é tão novidade, mas ainda não consolidou tamanha mudança. Logo em uma tão grande transição, a transição é imperceptível. Sete ondas, e lá se vai o passado. Ouço os fogos, parecem ser a explosão de tudo o que aconteceu. Enquanto brilham as luzes vejo todos os meus destinatários, tudo o que senti, choro o que já foi chorado. E então vem o silencio, no meu peito a satisfação, a certeza de que o ontem acabou. Sete ondas, e agora vem o futuro. Não quero desejar mais as mesmas coisas, mas nada tenho a desejar se não que as transições se concluam, e que eu saiba lidar com mais uma grande partida. Quero mesmo é não ter medo do que vem. Meu inferno anterior, já não mais o vejo, largo os espinhos, não quero mais causar dor. Tinha que tocar justo essa, canto com a verdade de quem o que canta viveu. Se você trouxer o seu lar, eu vou cuidar, do seu jantar, do céu e do mar, ainda, de você e de mim. Dessa vez, o ano que nasce traz uma nova vida, minha chance de, se não ser outra, fazer diferente. Ah, assim seja, tudo mudar. Claro que eu não desgosto de quem sou agora, nem do que me permite a vida, mas entenda, minha ansiedade me faz pedir mais. Rendo-me a essa maldita expectativa de poder zerar o jogo, ansiosa, deixo o futuro reger o hoje. Guardo a esperança de vencer meu vazio, a vontade de saber quem sou, certa de mim. O hoje não é mais que uma conseqüência do ontem, a causa do amanha. Digo que me dói saber que para mudar terei que abrir mão do que já tenho. Se o adeus não será mais literário, é porque a vida é uma partida. Insistirei em fazer de verbos no futuro uma fonte de nostalgia reversa. Água, leva minha saudade, traz a ansiedade. Sete ondas, o mar me trouxe o futuro. Sete ondas, quem serei.
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