Sigo meu caminho. A cada passo caminho pela vida que pode ser. Um pé a frente do outro, devagar. Dei-me permissão para descansar. Correr não está mais nos meus planos. Saboreio o que é, sinto o gosto do pode ser. Sem sair do presente. Aprecio. Esse momento não vai se repetir.
Quando comecei a voar me afobei. Quis provar do mundo todo rápido demais. Foi indigesto. Pessoas e aprendizados. Agora não mais. Piso no freio e sinto o vento bater devagar. Posso me ver no espelho. Percebo pequenos sorrisos. Escuto os silenciosos barulhos. É como se tudo estivesse maior, mais lento, mais vivo. É inverno e eu, mamífero.
Daqui uns dias estarei voando. Como pássaro que foge da neve, é como eles chamam. Mas eu não estou fugindo. Estou indo ao encontro de amores e mares. De sol e de calor, areia, sal, verde. De pão de queijo. Será familiar e ainda assim, novo. Um mundo que é meu e não é. Vivo no entremeio.
Nunca fui apegada a pátria. Coisa boba. Aprendi desde cedo que o que acontece do outro lado do mundo é tão importante quanto o que acontece aqui. Aprendi que toda gente é gente. Aprendi a me despedir e ir. Ainda assim, parte de mim sente que pertence. Sente que existe-se melhor lá, cercado dos seus.
Também pertenço aqui. Já não vejo mais minha vida sem o palco, sem a sala de aula, sem essa casa, essas pessoas. Tudo muito normal, como um dia após outro. Rotina. Vida. Casa. Recebo uma visita. Faço um jantar. Falo inglês. Aos domingos vejo a família brasileira em um bar ucraniano. Na Ilha da Tartaruga e ainda assim, casa.
Navegar entre esses mundos é um privilégio. Preciso lembrar mais disso quando estiver com a louça acumulando. Quando não conseguir trabalhar. Andei falando que me sinto fantasma. Tenho estado melhor, mas há dias. Agora vivo no aguardo de encontrar Maria. Isso me faz mover. Privilégio é viver no mesmo tempo que Maria. Tão doce e tão decidida.
Vou-me então ao encontro com minha terra meu mar minha estrela. De volta pra casa fora de casa. Em busca de cura, de reparação, de acolhimento. Levem minhas malas de lágrimas pelo ano. Agora apenas felicidade ou cogumelos. Vamos.