Por ter estado tanto tempo longe tenho hoje vontade de voltar. Desperto ao ler o que já não lia a muito tempo, sinto que o que passou na verdade ainda vive e merece minha atenção. Nem sei mais usar palavras nessa nossa lingua gostosa de ser escrita, agora vivo de leituras corridas e cumprimento de prazos. A regra é ler sem prazer, pra que se possa ler. Uma hipocrisia. Gostaria sempre de dissecar cada palavra de autores mais próximos do que tantos outros que li, mas não me é permitido. Engulo informações em um idioma seco, sem graça, sem poder sequer pensar nas belas palavras que essa minha lingua tem. Ler, correr, resumir, entender. Não são verbos tão amigos, inclusive me cansa ter que uni-los. As palavras hoje já são de realidade, não são mais minhas fantasias em livros que tanto procurei. As palavras querem provar uma ideia, querem se auto-defender e não se importam com o que eu penso delas. Absurdo, sempre li aquilo que me permitia indagar, refutar, amar. São tantas teses apresentadas, tantos argumentos e hipoteses que eu só gostaria de ter um momento de ilusão. Sempre li para prever o futuro, ou entender o passado. Li para me deliciar, para me imaginar, para te imaginar em um te que sempre variava. Agora leio paragrafos que se repetem como se a repetição fosse provar alguma coisa. Leio pra sugar tudo aquilo que o autor me permite e ir além dele somente se solicitado.
A cada palavra dita por aquele que lá da frente não me olha, imagino como seria se eu pudesse dizer o que penso disso tudo. Ouvimos dizer que o internacionalismo liberal foi a infancia das relações internacionais, quero dizer então que o realismo foi a adolescencia rebelde. Mas, me contento em anotar, em sugar, em compreender. As vezes, porém, certo luxo me é permitido, posso estender a corda. Indago, vou além e provoco toda aquela ideia tão fechada e organizada.
Gostaria de ter tempo pra ler mais, além do demais que já leio. Gostaria de ter folego pra escrever, gasto-o todo sentada em uma cadeira assistindo e participando do teatro das infindáveis críticas.
Quero o luxo de não criticar, mas de imaginar. Quero o pecado de saborear páginas para além do que elas me oferecem. Volto orgulhosa, mas insatisfeita de ter ido embora para ter que voltar.
Andei lendo outras coisas além das narrações históricas e defesas de teses, mas errei nas escolhas e não fui muito longe. Li um drama que me fez entrar na história, história essa que infelizmente foi realidade. Tenho lido tantas desgraças, tantos massacres, tanta mutilação, morte, tortura, que as vezes penso por que continuo lendo, sabendo que o que leio já passou e o agora ainda não foi escrito.
É prazeroso para mim estar tentando de novo. Espero que não mais me ausente, espero que tudo o que leio não me tire o desejo de ser sempre lida.