Lá fora o sol se põe. A dez mil metros, tenho o mundo sob meus pés, mas desconheço tudo o que sob eles acontece. Aqui dentro há apenas um pouco de vida, uma amostra da humanidade. Mulheres, crianças, homens, cada um deixando um pouco do seu passado e destino, podendo mudá-los para sempre. Quem sabe se nós estaremos vivos amanhã? Talvez forme-se um casal, talvez alguém arrependa-se de ter partido, talvez alguém jamais queira voltar. Compartilhamos essas horas, temos, por um curto tempo, a mesma sorte, o mesmo destino.Aqui não há pátria, não há lei, há apenas o que nós queremos que haja. Eu, nessa inércia inevitável de quem sempre vai, observo os olhares e gestos. Penso no que pode acontecer com esse pedaço de mundo. Estar aqui é como não estar em lugar nenhum, mas estar em todos os lugares.Não se é, apenas se foi e se será. O caminho nos é comum, mas o que é esse caminho se não ansiedade?
Lá embaixo a cidade começa a exibir suas permanentes luzes. Vai chegando o fim da transição, vai crescendo a ansiedade para então tornar-se de alegria, explosão. Enquanto nosso mundo vai tornando-se restrito, nossos pés vão querendo andar sob o que foi visto lá de cima. Na terra entramos no turbilhão do qual saímos e a vida não mais continua, ela permanece.