Banalizaram o eu te amo com essa coisa de amar objetos. Pouco tempo atrás ele veio me visitar. Olhou-me de cima abaixo e logo se agitou. Tocou-me não com carinho e admiração, mas com posse e desejo. Eu, que já me achava objeto depois de anos treinada pelo mínimo, mais uma vez me vi manuseada. E então o vaso quebrou. Se foi ele quem quebrou, se foi outra, não sei dizer. Queria poder dizer que o quebrar desse vaso quebrou os encantos. Não, quando o vaso quebrou eu me tornei o vaso. Espalhado em cacos tentando me colar de volta, mas verdadeiramente precisando que alguém viesse com uma vassoura me juntar. Não vieram. No início até pisaram pra quebrar mais um pouco. Eu, objeto, tive então que ser sujeito pra me consertar. Para poder voltar a ser vaso útil. Consegui, e retornei a objeto. Agora lâmpada mágica. E assim sendo, ele continuou vindo pedir seus desejos. Não só ele. Eles, elas. Poucos me davam a impressão de que talvez eu não mais vaso-lâmpada fosse. E em geral, era mesmo só impressão. Pois eis que lá vem ele outra vez, agora diz que ama o vaso. Que amor é esse, por aquilo que não se considera sujeito? Já ouvi outra vez esse eu te amo, porém. Afinal, vaso é pra ser usado e não carregado pra todo lado. Pergunto a mim mesma qual o momento em que eu, objeto, deixei claro demais que tinha pretensões de sujeito. Foi o pedido de ajuda? Foram as lágrimas? Foram as medicações? Não sei. Sei que conveniente não sou pra quem diz me amar. Realmente, um vaso inútil eu também jogaria fora. Uma lâmpada mágica usaria todos os desejos. A diferença é que eu nunca enxergo vasos e lâmpadas. Mesmo quando acho que vejo percebo que é só meu reflexo, projeção. Só vejo gente. Cataram os cacos mas esqueceram de mim. Grito em silêncio no eco dessas paredes de vidro. Ele não escuta. Mantém o tom inalterado e aponta a minha inconveniência. E pensar que quando primeiro ele me escolheu na prateleira eu era uma barbie novinha. Depois virei até trofeu. Agora que transito entre sujeito e objeto é que tento entender a vida. Não feito a boneca que fui, feito criança. É isso enfim, objeto não sou, pois criança sou. Não me toque nunca mais.
sábado, 30 de maio de 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
delírios de terça a noite
A música diz que não perca seu tempo comigo, pois voce já está na minha cabeça. Minha coleção cresceu de tal maneira que já não sei de quem falo. Recito um verso qualquer e vem aquele que não deve ser nomeado, mas vem também estrela. Sou uma caixinha de recordações de amor e paixões. Guardo demais, guardo pra sempre. Cheiros, visões, cenas, sensações, toques, lembranças. Cada pequeneza, cada grandiosidade. Um ursinho sem lugar circulando na casa. Um porta retrato virado e desvirado. Um bibelô que mais lembra quem quebrou do que o que foi simbolicamente quebrado. Cartas e mais cartas de amor, de saudade, de verdades. Pequenas pistas da vida que passou e de quem nela me visitou. Entradas de cinema e teatro são beijos roubados e bilhetes trocados. Na memória o mesmo, cada pedaço uma pessoa. Que passou ou que passa ou que vive no vai e vem. As vezes seleciono a seção pra que seja uma memoria útil, mas em geral utilidade não há. É apenas aquilo que me cerca. Cumpriu seu dever, move on. Dizem vocês que vivem de futuro. Eu prefiro viver no presente o meu passado. Sem deixar de aumentar minha coleção tão colorida. Estrela quando tudo começou a desenrolar me disse que o passado passou, que não se vive nele. Pois me retrato do compromisso que fiz aquele dia. Meu passado é o chão que eu piso, é pedaço de quem sou. Fala em mim, fala por mim muitas vezes. Vivo no presente sem largar as teias que me entremeiam em um tempo contínuo de gente passada e gente presente. Vivo assim, emaranhada. Pois tudo isso por que não decidi quem a tal música mais me lembrava, você ou ele.
domingo, 10 de maio de 2026
cinnamon
With every degree that goes up so goes my longing.
For water, for the breeze
For the salt.
With every blossom that perfumes I feel their colors.
Pink, blue and red, all cleaning up
The Grey mess.
With every ray the sun shines, my soul burns
In exasperation, in wanting
In warmth.
With every step on green grass I can spy the birds
I hear the music and I feel alive.
With every fresh breath I breath
I am curious to see where each day
This season will bring me.
With every note of every song
I remember that this summer I am free
And you are not around
to kill me.