terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Intromissão

 Eu tenho por hábito me intrometer na vida de quem amo. Não para mexer em nada, não pra sacudir ninguém. Apenas para conbecer novos mundos. Quando amo, seja amor romance ou amor amigo, preciso conhecer seu mundo. Saber quem você é, de onde vem, o que faz, o que pensa. Preciso entender o caminho para te conhecer. 

Cada pessoa tem consigo um universo. Famílias, amigos, crenças, histórias. Meu mundo não me basta. Preciso conhecer o seu e te trazer pro meu. Navegar a nossa jornada é conhecer seu universo. Seja você quem for. Cada estrela cada sorriso cada canto cada memória. Cada pessoa. Visitarei, verei, sorrirei. 

Não estou te invadindo. Não estou te cercando. Sei que muitos se assustam com meu caminhar, com meu olhar. Acredite, não é por maldade. É apenas curiosidade. Uma necessidade gigante de estar em harmonia com as energias que te cercam e te influenciam. Não é sobre Robin, é sobre Be. Não é sobre Laura, é sobre Maria. Não é sobre Recarei, é sobre Frederico. Não é sobre Angela ou Índia, China, evangélicos ou judeus, é sobre Jade, Nittin, Kitty, Danilo, Dani.

Seja você quem for, conhecer seu caminho é te descobrir. Te descobrir é te entender. Te entender é te amar sem condição. Quisera eu que mais de vocês quisessem conhecer meu mundo. Sinto que tantos nem olham, nem veem. Você ainda sem nome, seja bem vinda. A porta está aberta e eu vou bater na sua. Vou adicionar sua mãe, ser cortes com sua ex, estudar sua religião e ouvir sua música. E vou estar sempre, sempre no seu time.

Saiba: não vou virar você. Jamais me interessou o espelho. Jamais me interessou ser cópia. Se queres que eu seja você, negócio não fechado. Não copio não imito não sigo. Seu universo me inspira a ser melhor para você sem deixar de ser eu. Seu universo me diz onde pisar, onde me mostrar, onde me esconder. Sem deixar de ser eu. Sem querer o que é seu. Sem desdenhar do que você ama. Prazer, Ana. E esse é o meu universo. 

Inner blooming

 The universe is quite a balancing force. If we surrender to it, if we allow it to rule our lives. If we forsake all dreams of control, all impressions of self interest. If we walk on grass, swim in the ocean and stare at the stars. It will respond. 

I see the full moon from my window. It reminds me of Summer, of kissing her in the park while the mosquitoes attacked us. We didn't care, and it was magical because we didn't. Summer's gone now, and I barely saw Summer this Fall. I miss her sweet smile and our switching between three different languages. I miss drinking her soda from Pakistan, I miss the smell of her apartment, I miss the sweetness of her lips. 

The window itself reminds me of someone else. Me. At 8, at 18, at 33. Looking out for something more. Asking for signs. Listening to music that makes my soul cry. Sometimes I just wish I could see something and then I remember that I see things all the time. I must pay attention. Names, numbers, songs, phrases, smells. It's all connected. 

I always believed there was more. I just lost faith for a while. I stopped observing, watching the little things. Reason and emotion took over and left soul behind. Like both a little lab rat and it's owner, at once I created a sterile, isolated and controlled environment. Built my own cage. No more. I'm free. 

Last new year's eve I held my stomach and wished for a life to be born and for it to be mine. Little did I know I was fertilizing my own self. Little did I know that a seed was already inside me, screaming for water and sunlight. Little did I know that the blooming had already begun. That what would bloom was me again, anew. My Be then showed me Innerbloom last spring and like a snake to an enchanter flute I grew taller and taller, mightier and stronger. Colorful. Spring called. I flowered.

I now end this year in full blossom. No, not full. There's still much more. The hermit card told me to keep looking inward. To keep reflecting. To keep watering my earth. I now go feed from my little star, Maria, who first watered me. I crave to know her ever more. I crave to know myself ever more. I dream and the universe makes sure I'm dreaming it right. Thank you. 


domingo, 15 de dezembro de 2024

expectativa

 Sigo meu caminho. A cada passo caminho pela vida que pode ser. Um pé a frente do outro, devagar. Dei-me permissão para descansar. Correr não está mais nos meus planos. Saboreio o que é, sinto o gosto do pode ser. Sem sair do presente. Aprecio. Esse momento não vai se repetir.

Quando comecei a voar me afobei. Quis provar do mundo todo rápido demais. Foi indigesto. Pessoas e aprendizados. Agora não mais. Piso no freio e sinto o vento bater devagar. Posso me ver no espelho. Percebo pequenos sorrisos. Escuto os silenciosos barulhos. É como se tudo estivesse maior, mais lento, mais vivo. É inverno e eu, mamífero. 

Daqui uns dias estarei voando. Como pássaro que foge da neve, é como eles chamam. Mas eu não estou fugindo. Estou indo ao encontro de amores e mares. De sol e de calor, areia, sal, verde. De pão de queijo. Será familiar e ainda assim, novo. Um mundo que é meu e não é. Vivo no entremeio. 

Nunca fui apegada a pátria. Coisa boba. Aprendi desde cedo que o que acontece do outro lado do mundo é tão importante quanto o que acontece aqui. Aprendi que toda gente é gente. Aprendi a me despedir e ir. Ainda assim, parte de mim sente que pertence. Sente que existe-se melhor lá, cercado dos seus. 

Também pertenço aqui. Já não vejo mais minha vida sem o palco, sem a sala de aula, sem essa casa, essas pessoas. Tudo muito normal, como um dia após outro. Rotina. Vida. Casa. Recebo uma visita. Faço um jantar. Falo inglês. Aos domingos vejo a família brasileira em um bar ucraniano. Na Ilha da Tartaruga e ainda assim, casa. 

Navegar entre esses mundos é um privilégio. Preciso lembrar mais disso quando estiver com a louça acumulando. Quando não conseguir trabalhar. Andei falando que me sinto fantasma. Tenho estado melhor, mas há dias. Agora vivo no aguardo de encontrar Maria. Isso me faz mover. Privilégio é viver no mesmo tempo que Maria. Tão doce e tão decidida. 

Vou-me então ao encontro com minha terra meu mar minha estrela. De volta pra casa fora de casa. Em busca de cura, de reparação, de acolhimento. Levem minhas malas de lágrimas pelo ano. Agora apenas felicidade ou cogumelos. Vamos. 



quarta-feira, 13 de novembro de 2024

mulheres

Eu hoje ando nas ruas que já eram minhas antes de serem minhas. Eu só não sabia. A duas quadras de onde fiquei em 19 estava a rua da igreja, onde se une a minha gente, e eu sem saber o que o universo guardava. Fui com ele, sentei em um pub, pedi um poutine. Voltaria ali com amigas, e no pub ao lado com duas belas mulheres. Andaria naquela rua com meu outro eu de cabelo preto em 24. Seria o meu lugar na cidade. Nevava. E eu não tinha ideia. 

"It takes a village" diz a pintura na parede onde tirei foto e me assumi pro mundo em 21. Lá em 07 me questionei ao amar Pequena, mas não soube responder. Meu coração partiu ao som de PJ Harvey. Fui vivendo sem pensar, mas já escrevia textos para uma certa alguém em 2010. Pra outra em 12, outra em 14.  Ainda assim, fingindo. Até que em 24 foi mesmo um vilarejo, um conjunto de mulheres sábias e complexas que me trouxe de volta o gosto pela complexidade. Perdi o medo de viver. Foi um vilarejo, foi uma comunidade. 

Já me pensei tantas coisas. Não estava dentre elas ser parte de uma comunidade. Não estava dentre elas ser alguém que se ama. Alguém que atravessa fora do sinal. Que sai pra dançar e conhece alguém de nome Ana. Que sobe em um palco e rima. Não pensei na vida sem ele, por que eu não me parecia suficiente pra estar sozinha. Não pensei em viver daquilo que eu só desejava. E então um palco, uma estrela, e uma comunidade me lembraram o que é viver, nada menos do que o que senti aquela semana. 

Como um efeito borboleta uma levou a outra. Conheci então Be, e não teve volta. Pensei que ainda daria pra fingir mais um pouco. Pensei que não fingir seria falhar. Feri Be, e me feri mais ainda. Mas o efeito já não podia ser interrompido. O universo já havia decidido que máscaras agora só no palco. Estrela já me dizia pra ser eu. Be não sabia quem eu era. Parece que me senti desafiada a mostrar. No mês do arco íris Be me deu adeus e eu dei adeus enfim a velha versão de mim.

Estou sentada em Rosedale fumando, ouvindo um saxofone tocar. Sexta feira estou no palco, hoje joguei um esporte com mulheres que amam mulheres, amanhã invisto no crescimento espiritual de estrela. Sábado junto quem amo ao redor da mesa comendo feijão. Junto parte do vilarejo que se recusa a usar máscaras. Até Be, que agora me conhece. Não há mais amor que isso. 

24 também teve paralelos no mesmo espaço. Como pensar que quem estrela conheceria naquela noite seria então parte do meu vilarejo. Que quem eu conheci na noite que tudo mudou era amiga de Be e dividiria um banco de trás apertado com mais três. O universo parece que costura com uma dramaticidade teatral. Parece mesmo que essa vida é arte. A minha sem dúvidas é. Arte que faço que vejo que sinto que sou. Esse ano a arte me salvou. Está ventando bastante lá fora. Já chegou o frio. 

Olha eu aqui, refletindo sobre o ano e ainda é novembro. Ando vivendo mais, me movendo mais, agindo mais. É especial. Muitas águas ainda virão. Aguardo ansiosa o sal o sol e o abraço de estrela de jade de vó. Melhor que eu vá dormir, amanhã posso reencontrar mais uma versão do meu passado. Direi adeus e muito obrigada. 

domingo, 10 de novembro de 2024

Na Estrada

 Maria se move, Maria não para um segundo. Maria tem a alma leve e com o vento voa. Maria não se cansa não descansa vive de sol e de gente. Voa, voa Maria e não se deixe parar. Cada caminho cada pedaço de terra de história de vida Maria quer testemunhar. Não basta conhecer o saber Maria precisa viver. Maria anda de trem de carro de avião de barca de bicleta de barco de pé. Caminha e caminha Maria. Deixa em cada porto um amor uma história uma noite que seja. Maria vive e eu assisto enquanto vivo a humanidade no palco. Maria vê o mundo eu vejo Maria. Ainda não me viu ser outros, ainda não riu comigo. Verá. Dentre tantos caminhos me interessa nossas intersecções. Belo Horizonte vem e vou andar com Maria. Vamos mover vamos viver de luz de sede de palavra de mundo. Sorte a minha que dentre todos os caminhos me cruzou Maria. 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

versinho

One. Two. Three.
Many more there could be. 
With a capacity for infinite love,
for love is no scarce resource.
I love you and me 
And also 
She. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

show must go on

Yester-night the stars smiled upon us. 

Yester-night I was the star.

Yester-night our lips touched.

Inhale.

Just for show, you say.

But the red in your cheeks is real.

The confort is real. 

The easiness with which your body moves is real.

The smile, the laugh, the love.

Real, real, real.

Yester-night you came. 

Yester-night you gave me the hug I've been waiting for since Spring.

Yester-night it was Fall and you were here.

Your hair. Your scent. Your breath.

Exhale.

There it goes, my heart. 

Boom, boom, boom. 

Keep watching me put on a show. 

Keep putting on yours. 

Yester-night will become the morrow

and you will miss me. 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Teatro

Que a vida é um palco todos já disseram. Não vou repetir. Direi então que uma estrela é uma bailarina dançando por esse palco. Que assistir da plateia o movimento dessa estrela é também arte. Que conhece-la é vê-la bailar sem questionamento. É entendimento pleno, sem legenda. 

Estrela flutua pelo mundo. Faz turnê. Faz plateia. Faz fãs. Faz história. Estrela dança no espaço do mundo. Ocupa e se move e dança e vibra e chora. Estrela é gente. Eu também sou. Quando ligam os refletores enxergo essa dança no espaço. Vai Estrela onde chama a luz em uma sensibilidade levíssima. 

Gosto de falar em códigos. Se precisar explicar não sei dizer. Falo o que vejo, e te vejo, me vejo. Kindred spirits. Andando com fé vamos sem saber bem o que nos aguarda. Mais importa o andar. O dançar. Mais importa o mover. Mover junto de quem também dança. 

Estrela dança como se fosse a alma e não os pés levando. Em sincronia com o tempo com a terra com o universo. A batida é dela, o ritmo é poesia, o sorriso é figurino. Estrela me leva junto com seus caminhos. Teatro itinerante no palco da vida. Eu não sou boa poeta, mas canto seus passos como se Clarice pudesse ser. 

É que estrela me foi apresentada pelo destino. Agradeci. Que sorte a nossa. Quero continuar assistindo esse espetáculo. 

sábado, 19 de outubro de 2024

decision

I stand at the edge of a cliff.

I can't see what's below. 

I do not know if you will be there to hold me.

Or if I will free fall. 

I am afraid. 

My name there and three years.

I hope they aren't three years of falling. 

I see darkness.

Yet somewhere far there seems to be a light.

I'm not sure if my eyes deceive me.

Or if it's my heart. 

I persist. 

I hope the light grows and illuminates my jump. 

I hope I'm not left in the dark to fall alone. 

Three years. 

Please, don't discard me unto the void. 

Please, don't let me free fall.

Please, be ready to answer my questions. 

Please, be ready to hold my hand.

Please, please, please.

Don't let me down the cliff.

Not alone, at least. 

Se tem medo,

Vamos com medo mesmo. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

soul grounding

O que a gente não vê é o que a gente mais sente. Aquele ditado que diz out of sight out of mind só vale porque fala de mente. Já em português, o que os olhos não veem o coração não sente, é uma tremenda mentira. O que não vejo, sinto. O que não sinto, vejo. As vezes vejo e sinto, mas o que está invisível é o que me atrai.

Acordei outro dia um tanto triste. Disse que chorei. Maria então apareceu lembrando de quando se sentiu em casa na cidade da torre. Disse que também chorou. Trocamos um dia inteiro de conversa, mas os cabos de fibra ótica não conseguem carregar o que a gente sente. O que a gente sente é como uma nuvem, uma cloud mesmo, de informações sensações sentimentos memórias. Vez em quando sinto acessar essa nuvem e fazer um download sem nem perceber. Daí vem o sentir. 

Andando na rua me sinto de olhos mais abertos. Uso esses que leem pra enxergar o que não vejo. Pra enxergar o sentido por trás da frase. O sentimento por trás da foto. Pra enxergar o amor por trás do bom dia. Pra enxergar na frase colada no poste um certo tipo de encorajamento divino. Pra ver um futuro em uma placa de aluga-se uma coin laundry. Uso esses olhos pra ler meu Português dizendo que outro mundo é possível em uma árvore de papel feita em 2005. 

Sinto meus ouvidos mais sensíveis. Uso esses que escutam pra ouvir mensagens não faladas. Pra ouvir a emoção por trás da voz de alguém. Pra sentir o gosto do Caju. Pra ouvir a minha história em uma música que não foi feita pra mim. Uso esses ouvidos pra ouvir meu Português dizendo take your time and relax que nessa estrada longa há um destino. Que ainda não sei como será.

Acredito veementemente. Acredito no que há entre nós todas, entre essas mulheres tão iguais e tão diferentes. Acredito no que não sei se será. Acredito no espaço entre racional e inexplicável. Acredito em cisnes brancos. Acredito no sol e na lua, nas estrelas e no amanhã. Acredito em mim, em nós, em vocês.

Não faço questão de entender ovo e galinha. Mais me interessa o ET. Mais me interessa o que não está escrito mas que sangra na tinta da impressora. Sub-texto. Meta-escrita. Metáfora e vida em folhas de papel, em ondas sonoras e pulsos em cabos de fibra ótica. Lá debaixo da água, no fundo do mar, minhas palavras são carregadas. Interessa-me saber o que chegou pra além das palavras que escrevi. 

Que os dias continuem desafiando a lógica. Que meu corpo continue rejeitando a imobilidade. Que as nuvens entre nós continuem se alimentando de nós. De sentimento, sensação, memória, e energia.  Que eu continue enxergando e ouvindo o que ali não está. Que minha alma continue falando mais alto que meus sentidos. Que a força das ondas estourando nas pedras seja a intensidade do viver para além do racional.

domingo, 29 de setembro de 2024

liniker

No metrô ouvindo Liniker e nada de ouvir o mundo lá fora. Parece que a gente já construiu um mundo nesse álbum. Entro nele quando ponho o fone quase no máximo. Eu fico repetindo as perguntas pra ter certeza que vou te dar as respostas. 

Que bobagem pensar se eu correria atrás de você no aeroporto. É claro que sim. Você esquece que o palco é minha vida e a nossa história já está virando roteiro de comédia romântica. Comédia sem dúvidas, nada me faz sorrir mais do que quando eu sei que te fiz rir. Mesmo que eu não veja esse riso. Imagino. 

Confesso que quantas tatuagens não decorei. Não tive tempo pra explorar todos os cantos do seu corpo. Pretendo ter. Prometo não só decorar quantas, mas também quais. E todas as ideias por trás, como você sendo conduzida pelo polvo-universo-Deus em cima de livros. 

Fazer um escarcéu com teu sorriso é o que mais quero. Ainda espero o dia que você vai me ver no palco pra valer e vai rir em inglês comigo. Espero te dedicar, espero me inspirar num dia nosso pra escrever. Mas ando pensando também no sorriso só de te entregar um café gelado no domingo de manhã. Você é suficiente. 

Andei pensando no Japão. Engraçado que por tanto tempo quiseram me levar lá. Eu não fazia questão. Agora pensei na gente rindo tentando usar uma vending machine japonesa. A gente entrelaçada num quarto de hotel do tamanho da minha cozinha. Eu tirando mil fotos suas até você achar a perfeita enquanto todas pra mim já são. A gente andando kilometros e mais kilometros, querendo sentir tudo viver tudo absorver tudo. Será que tem karaoke queer em Tóquio?

Passei na frente de uma coin laundry e pensei em estar do teu lado. Em voar com você, alcançar com você, ser amor correspondente pra testemunhar. Pensei que você já está no meu voo mais bonito até hoje. Mas que do seu lado mais bonitos virão. E eu gostaria de estar do seu. Te esperar em casa, te chamar de amor, de gostosa, de querida. 

Quero olhar nos seus olhos todos os dias. Quando escuto sua playlist brevemente me transporto para o espaço entre os nossos olhares. A verdade é que ninguém me olha como você. Que você também esteja pensando em mim quando ouve Caju. 

terça-feira, 17 de setembro de 2024

magic

I live life looking for magic. Even before, I always expected something to happen. I am now more clear on what I want this magic to be like. Still, the universe doesn't like to be predictable. It doesn't like to do as expected. It is indeed a tad of cruelty from whoever rules us to gives us the feeling of expectation and not deliver. 

I keep reading books and hoping they will come true. When will she appear on my doorstep I wonder. Will my friends be those inseparable ones that we see on television? Will I get a postcard? I expect nothing but magic. But, an empty mailbox says it all. No phone calls. No knocks on my door. 

Yet, whoever makes us suffer also gives us joy. And when least expected, magic happens. A day unplanned that ends up bringing good news, good fortune, good friends and a postcard. I confess I waited for that postcard like a kid waiting for Christmas gifts. It's good to have people who I feel close to sending physical things. I still don't quite understand.

Magic happens through connections. Through people. Through trees, and the sky and the moon. Large bodies of water. Through beautiful postcards left in the hall of my building. No mailbox. Just the surprise of seeing you there. Somebody picked you up from the floor and read your words and thought of a version of us. We have all been out of ourselves for a while, but magic puts us together. It's the power of laughter and touch. Ideas. Words and more words as if nothing was more urgent than talking to each other. It's magical. Seeing a mirror, finding a friend in it. Flying high. 

Movement is also magic. I started to feel joy in moving. Moving in all senses. Feeling comfortable in my skin. Loving me beautifully while still tending to the hurt and the grief. Walking without a destination just to feel the city. Getting out there and learning to read people. Learning they don't always mean what they say. Learning I must find a balance but not lose the magic. Maybe expect it less. But I must be me.

Magic is in the smallest things and in the big ones. It comes and sways me. I embrace it. I promised to feel. I won't shy away from myself. My sticker that i got right before it ended said: every ending is a new beginning. I hope for many new beginnings. What a serious thing to be alive with all of you. Magical.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

memória

A cozinha está vazia. Ainda quente, sempre quente. Um forno sempre ligado em casa de cozinheira. Os dias voaram. Tanto, em tão pouco. Outro dia estávamos ali, eu e você. 

Outro dia nos descobrimos e havia um mundo inteiro pela frente. Parecia impossível. Parecia demais. Era. Para aquele momento. Eu não sabia o que estava fazendo, apenas sabia que precisava fazer. Errei. Descuidei de todos ao tentar não machucar ninguém. Tanta possibilidade naquele pão de beijo.

A vida faz dessas que marca lugares na nossa memória e nos fazem lembrar do que sentimos. Não é dor. É nostalgia. É vontade de voltar e ter feito mais, ter dado mais, ter arriscado mais. Fui covarde. Mas fui o que pude ser. Assim como naquela noite, que você me disse que achava que seria nossa. E eu errando. Ainda assim, cozinha, banheiro. 

Lembrei de você encostada na parede, tentando não me beijar. Lembrei de você me beijando. Ficando sem graça. Saindo juntas como se ninguém tivesse visto. Fingindo por meses que não estávamos juntas. Não sei bem por que. Aceito. Lembrei dos minutos que passaram, e o forno quente. Os óculos, a mesa com os temperos, a bancada. A geladeira e o frio que estava. 

Olha só, já vai esfriar novamente. Aceito o caminho que decidimos, recordo e sereno. Sinto saudade de olhar nos seus olhos. 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

2 peixes

Depois de morrer a gente renasce. Não sei por que me surpreendo, afinal a gente é gente mas é bicho, muda com a estação. As folhas das árvores anunciam que o outono está chegando, mas meu coração se recusa a dar até logo para o verão.

Nessa busca encontro uma nova forma de manter o calor. Dessa vez tão diferente. Coração igualmente acelerado, mas em paz. De primeira mal vi, só guardei que de Minas era. De segunda você estava acompanhada, e eu também. De terceira você novamente, ela nos seus braços e eu levemente incomodada achando que perdi minha chance. Confesso, fui ácida. Achei vocês juntas uma combinação estranha. Confesso, naquele momento a curiosidade era sobre as duas. Mas o café nunca aconteceu e quanto mais eu te via menos eu queria ir atrás desse café. Quanto mais eu te via mais curiosa eu ficava. 

De repente você me estende uma mão inesperada. Você carregou meu colchão, eu montei sua cama. A gente é peixe e estender mãos é a nossa língua. Você sabe. E a curiosidade crescendo. Nossa vida não parou. Eu precisei morrer pra estar aqui, você precisou ter o coração partido pra me encontrar. 

E então o universo resolve sobrecarregar meus circuitos e a você que eu recorro. Não sei dizer por que. Não sei o que me deu pra de repente te pedir algo assim. A gente estende mão mas eu te pedi uma cama inteira. Fui. E nosso toque então veio. Tão doce. Tão constante quanto eu ansiava. Instaurando suspiros de conforto, de segurança, de ainda curiosidade. 

Confesso fiquei confusa. Eu não quero, eu não posso te machucar. Eu não vou. Estar com você é uma calmaria que meu sistema nervoso pedia. É respirar sem medo. Te beijar é sentir sua respiração e te ver mulher. 

Sua pele ser macia parece óbvio. O toque é de seda. Seu cabelo curto que tanto pede pra se libertar. Eu queria ter ainda mais jogo pra jogar a gente no mundo. Mas eu também ainda estou aprendendo. E a gente navega juntas, em um equilibro preciso e justo. Alívio. Parece que eu posso abaixar minhas armas.

Fui com tanta sede que foi rápido demais. Quero mais. Quero você aqui comigo. Quero você na minha frente, inteira, nua. Quero você nos meus lábios ofegando e me tocando. Quero você também naqueles minutos que resolve me assistir como quem vê um filme rodando a fita na mão. Você e eu entrelaçadas e você se divertindo com a gente. Quero ver suas cores e sorrisos. Ouvir sua voz e me deliciar no seu sotaque, que é o melhor. Te quero de riso frouxo, de peito aberto, em mim.

Olho pra gente e vejo equilíbrio. Vejo justiça. Vejo água, muita água. Vejo duas peixinhas nadando em direção a uma ilha linda e deserta. 

sábado, 24 de agosto de 2024

luto

Quantas mortes vivemos em vida. Não só mortes de carne e osso. Nascemos e assim vivemos a morte da simbiose com quem nos carreg. Caminhamos, comemos e morre assim nossa total dependência. Morre uma versão de nós. Crescemos e cada versão de nós se vai, seja com o tempo, seja com o trajeto.

Vida é pra ser sentida. De tanto sentir, morremos dentro dela. Morremos de cansaço, de tédio, de dor. Morremos de amor. E a dor é tão grande, tão onipresente que a gente precisa sentir na pele. Parece que o que está fora não ser o que está dentro faz doer mais ainda. É uma outra morte. 

Perder alguém, separar, perder o rumo, questionar quem se é, essas também são mortes em vida. Coração partido, amizade acabada, expectativa desprovida de realidade. Cada um vive uma imensidão de despedidas. Não volta. As mortes em vida são tão inescapáveis quanto a própria vida e a própria morte.

Quando nos perdemos e reencontramos o luto é de nós mesmos. Nos dias em que é possível suportar o luto de mim mesma, sobrevivo. Vivo. Rio. Bebo. Falo. Humana sou. Nos dias em que não, o luto é a própria morte. Me desespero. Me perco. Grito. Humana ainda sou.

Tantos de nós nos entorpecemos pra aguentar o luto. Tantos de nós buscamos o prazer. Ainda outros choram, outros calam, outros dormem. Eu de tudo tenho feito. Certa hora passa, dizem. A morte se vai. Renasce-se. O luto se encerra. Esse luto. Logo na próxima esquina outro virá, e continuaremos vivendo. 

Tempo de sentir é em cima da terra. É vida.

sábado, 10 de agosto de 2024

universo

Uma casinha branca de porta Azul, nós e o mar. Da janela a rua de paralelepípedo, bem pouco reta ou bem cuidada. Todo dia de manhã vemos os vizinhos passarem com curiosidade enquanto tomamos café. Assim como nós, quando passamos nas janelas deles. 

A casa é baixinha, casa de tijolo, coisa simples. É na medida do necessário, na medida do justo. Mas o quintal, o quintal é privilegiado. O quintal é um latifúndio pra todos os passarinhos que por lá passam. É canto de sombra, de frescor, das ervas, dos tomates, da mangueira. No quintal a gente troca poesia, troca carinho, troca cuidado com a terra. Troca descanso.

Lá dentro você na rede lendo um livro. Você não parou. Continua a potência que sempre foi. Eu na cozinha limpando o peixe que comprei do moço que saiu na jangada. Você diz que não gosta de cadáveres na geladeira mas aqui é um peixe que mantém toda uma gente viva. Nem tem tempo de geladeira. Vou cozinhar pra você e encher a casa de cheiro. 

A gente vive da gente, a gente vive da arte, a gente vive da escrita, do ensinar. Que vida que é viver assim. Pequena caminhada e o mar. Poucos passos e um oceano inteiro pra gente. O horizonte como se já nos esperasse naquele por do sol. De noite uma ducha, um vinho, um bom sono. 

Quem passa só vê a casinha com sua porta azul.  Azul mais escuro que o céu do dia, mais claro que o da madrugada. É fantasia e é vontade. É plano e é sonho nessa casinha branca da beira do mar. 




segunda-feira, 5 de agosto de 2024

pente 2

Quebras de longas relações são também longas. Ainda lembro o dia que antes de tudo acontecer você disse que eu te deixaria. Parece que de certa maneira você previu o que viria. Te deixei por mim, te deixei por nós. Ainda escuto John Lennon cantando enquanto eu aumentava o volume pra que Maria não nos escutasse naquela conversa que foi o prelúdio. Ainda lembro de deitar no chão quando você se foi pela primeira vez como se em um filme eu estivesse. Pediu que eu falasse pra Maria, e meu coração disparado sem entender. 

Maria não decidiu nossa história. Seguimos. Tentamos. Horas de palavras. Horas de lágrimas. Dor. E eu interpretando, maquiada de sorriso. Você continuando, me perguntando, e tantas, tantas perguntas. A vida não parou. Você foi embora pra perto. Voltou, mas a vida não parou de acontecer.

Essa primavera foi de flores e de morte. Foi de cores e de escuridão. De descoberta e retirada, sobrevivência e super-vivência. Mais perguntas. E de repente uma vontade. Quem apareceu pra você de repente era pra mim. Ela ganhou o jogo. Fui de peito aberto saciar um desejo, te machuquei e me machuquei. Te golpeei. Te surpreendi. Eu só precisava viver. Em uma noite morta de segunda feira você então desabou. 

As perguntas já não tinham mais respostas suficientes. Meu amor já não era pleno o bastante. Maria continuava viva, mas aqui já não estava pra ser justificativa de nada. Pairavam no ar as palavras daquela madrugada: cruel, maldosa, e rios de lágrimas. Eu não sabia o que fazer. Eu não poderia saber o que fazer. A vida não veio com tamanho manual. E você querendo respostas. 

Como um carro velho no meio da Rio-Lagos eu de tanto correr no calor pifei. Superaqueci. Soltei fumaça mas você continuou insistindo. E quando eu morri você se foi e me deixou no acostamento. Foi pra longe. Minha vida continuou. Perdi parte do meu sustento. A outra parte já com fim no horizonte. Meu melhor colo então se foi. Ficou a mãe e as palavras no ar. Você lá perto de Maria e eu aqui, sozinha. Não te culpo. Eu sei o quanto te machuquei. Sei o quanto duvidei. Sei o quanto busquei um fogo que consumiu tudo. Talvez uma parte de mim esperava que você lutasse por mim. Lutasse por nós. Mas não havia forças. 

A vida seguiu. Eu no palco pintada de risos. Ela me chamando, me pedindo, me dando. E as palavras daquela noite ecoando: cruel, maldosa. Você então com tempo e suporte. Você com grana e amigos. Você se entendendo e eu aqui, sozinha. Me equivoquei então. Quis lutar sozinha. Disse que voltaríamos quando você voltasse. Mas você falando de 50% de chance. Você continuando a questionar. E eu exausta. Durante o dia o trabalho, o estudo, a mãe. A noite você com suas dúvidas. Nada leve. Nada simples. Tudo pesado e duro. Ela então me dava esquecimento. Alegria.

Ao lado dela as palavras sumiam. Ao lado dela as perguntas cessavam. Ao lado dela eu me deitava e a tarefa mais difícil que eu tinha era faze-la revirar os olhos. Descanso. Mas me enganei. E doeu. Confesso que até hoje não sei bem porque chorei antes de você chegar. Se por você, se por ela. Se por ver que nada do que eu achava que viria pela frente veio. Se por perceber que eu estava enfim sozinha. Se por sentir que falhei. 

E então uma nova fase veio. Te avisei antes de você chegar. Você não se surpreendeu. Você voltou e dclaramo-nos dois. Declaramo-nos sós. Não foi aqui que desistimos, que fique claro. Desistimos naquela segunda feira de abril. Desistimos quando você entrou no avião e eu não corri atrás de você. Aqui só formalidades. Comunicações. Lágrimas ainda, mas talvez lágrimas menos trágicas. Foi então minha vez de ir embora pros braços dos meus. 

Ouvi tanto. Ouvi todos. Balancei. Fiquei firme. Falei com a sua mãe e de novo as palavras vieram: cruel, maldosa. Uma culpa enorme que só eu conheço o peso. Uma culpa que eu não aguento mais carregar. Nem por mais um segundo. Ainda assim, culpa. Foi o palco, sua mãe disse. Foi Toronto, disse a minha. Foram as mulheres e meus questionamentos, disse você. 

Digo eu que foi o cansaço. Foi o cansaço de sentir o meu peso e o seu. O cansaço de me questionar a todo segundo pra logo então ser questionada por você. Foi o cansaço de fazer escolhas, tantas. Foi o cansaço de ter segurança em nós por nós dois. O cansaço de ser mulher. De ser filha. De ser esposa. De trabalhar dois, três trabalhos e ouvir que nós ainda precisávamos de mais. O cansaço de não acertar nunca o que você realmente queria. O cansaço de tentar te fazer feliz e não conseguir. Foi o cansaço. 

Agora nesse início do fim do término o cansaço é também físico. Te vejo chorar e quero apenas parar. Não consigo mais te ver sofrer assim. Não sei o que fazer, o que te dar. Se eu tivesse uma poção mágica pra te fazer feliz eu te dava ela inteira. Mas não há poção. E eu, eu não te faço feliz. Eu te dou tesão, eu te dou companhia, eu tento te dar alegria. Mas felicidade, acho que não. E é por isso que mesmo que o cansaço passe eu não posso continuar tentando. Você precisa se fazer feliz. 

Hoje a tempestade voltou. Como quando nos casamos. Como quando você foi pra longe. Como quando mais chorei. Mesmo que o céu chore, te peço que sorria. Te peço, por obséquio, que seja feliz. E quando for, serei então uma flor adornando sua vida. Serei um passarinho que vem e bebe da tua água. Serei peixe que sazonalmente visita tuas águas. Serei eu e você será enfim você. Assim como nosso pente será sempre nosso meu amor permanecerá. Ainda que novo, ainda que nova, ainda que outro. Ainda assim, amor. 

quarta-feira, 31 de julho de 2024

yonge street

Eu sempre digo que casas são pessoas. Devo adicionar que as vezes casas são apenas casas. Paredes e chão planta e pessoa. Mas as vezes é onde tudo passa tudo sente tudo acontece. Saímos dessas casas e nelas deixamos uma parte de nós. Uma versão de nós que não vai mais existir. Você não vai mais naquela padaria. Não frequenta aquele café. Já não lembra mais o número do ônibus. Já não dorme mais com ele. Casas são também fragmentos de nós. 

Quero construir uma nova casa. Não porque essa não seja boa, mas não é minha. É talvez de outra pessoa que não eu. Eu achei que era. Me confundi. Acordei. Não volto mais pra essa que não é minha. Não digo que não haja luto. Há. Das noites de televisão e doces, dos dias e dias de trabalho, de poucas porém ilustres visitas. Ainda assim, é hora de partir. 

Dessa casa me despeço e com ela dou adeus a uma versão de mim que não existe mais. Agradeço ao verde da janela, ao lago lá no fundo, as máquinas que facilitam a vida. Agradeço ao que cresci aqui e as memórias de uma vida. Aqui é onde eu estava quando me senti com os pés no chão pronta pra voar. Agradeço. Alívio também. 

Alívio de saber que cheguei até aqui. Que essa casa já não me pertence. Que essa que fui já não sou mais. Essa casa fica comigo então, mas eu nela não fico. Vou pro centro. Vou pra vida outra. Sair da torre. Pra perto do chão. E de lá vou voar, vou atrás de uma nova casa seja ela ou outra. Vou encher de vida de gente de mim. 

Vou pra casa de madeira casa de rua casa de quase século. Casa que tem história e que ainda vai ver mais. Casa quente que faz sair e aproveitar o verão. Sem máscara. Que vai ter um novo café uma loja um restaurante. Vizinhos. Gente outra. Casa que me cabe. Casa que é minha. Casa. 


sábado, 27 de julho de 2024

seasons

I see water and the tower. It still impresses me. It's all new. Like water I flow, like the tower I stand tall. Like water I find paths where a track doesn't go, like the tower I keep my balance.

Last summer I was down, broken, scattered, shattered. Came fall I went the opposite way and grew. Put my leafs back where they belong. I started laughing and singing and with my imperfect body I found the space I was called to occupy.

Came winter I didn't see all the snow I was hoping for. I searched for summer but it wasn't there yet. I think the skies were just holding the snowflakes for early spring. Yet I was no longer a bear and I couldn't hibernate. I was already awake and I couldn't shake the feeling that this year would be different. I waited. 

Came March my new year started and with it a whole new world. She came and the snow fell. You see, I made this pact with the universe that she should have all the good things. She did. As the snowflakes fell so did the tears in my eyes. I washed it all up. Washed up my fears, washed up my rules, washed up my certainties. 

Came spring I was shook. Came Easter I found saving. Not a mystical saving for the afterlife, a saving of my own path above earth. Spring melted any leftover ice I still had with a passion so hot that I got burned. Yet I had no fear anymore. Burns heal. Spring came and I was free. Learned to blossom through my own watering. My own tendering. My own caring. 

Came summer again and I am me. Not broken. Mended. Shining. Bubbly. Sunny. Hot. I don't burn though. Too tender, too soft, too watery to burn. I now live, no more waiting. I see the water move and with it my story goes. I'll enjoy the warmth this time so that in the fall I can prepare for winter. I will swim and feel and cry and sing and dance. I will use my body like it was meant to be used. To occupy spaces. To be loud. To bring warmth to others. To be a tower shining bright and steady. To be water flowing in between the lines of life. It is new. 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

world

To name things is to name our humanity. 

A name is not a label. Labels belong to objects. We are no such things. 

We are others. 

Naming a relationship creates rules. 

Naming a breakup, it changes a bond. 

Naming a sensation makes it a feeling. 

Naming the act of naming as humanizing or dehumanizing shakes the world.

It makes you more careful about the names you choose. 

More careful about naming yourself, too.

Names are often seen as matching people.

Summers are sweet and shinny. 

Johns are just plain old Johns. 

Bills are nice, and so are Anas. 

Folks analyze names through numbers.

Astrologers check compatibilities. 

A couple where it's two versions of the same name is seen as a sign from the universe.

A match. 

Not me.

All the women I have loved, all the men, they all had very distinct names from mine. Unusual even. 

Maria is the exception. 

Parents choose names expecting babies.

When a name is decided upon, there's a projection on that little person. 

Are names a catalogue of people?

All of the Danis are this. 

All Mari, like that.

Duosyllabic names, I've heard many of them. 

If such catalogue exists, I sometimes wish we could have an alert system for those that have terrible personality traits. 

Stay away from Roses! They'll hurt you.

Don't elect a Donald, he's a clown. 

Don't believe the new Moses!

What an amazing thing it would be.

Yet it wouldn't. 

One must get to know others. 

One must name them.

It seems my list still stands. 

I've named what I needed. 

Naming me, naming her, naming the world. 

It's fresh. 

domingo, 7 de julho de 2024

dois rios

Eu disse que te deixaria ir. Não deixei. Não vou deixar. Sigo dançando contigo, ainda que eu pegue mil aviões e não chegue até você. Sou água sou rio sou mar mas em ti ainda não desaguei. Quem dera nossas digitais fossem mesmo portais. Não te sinto nas pontas dos dedos, mas, a cada passo que dou, te toco. 

Te toco quando leio Krenak e ele lembra das confluências. Quando diz que somos movência. Te toco quando ouço "quem sabe o que o amanhã traz" e quero nisso acreditar. Quando ouço que "estou cansada de ficar sozinha" e lembro de você me dizendo que adora essa música, enquanto se balançava em frente a minha varanda. Te toco quando canto que "tô contando o tempo e ele me pirraça", mas eu nem sei quando te vejo. Te toco quando piso na areia e sinto a água salgada curar todas as minhas feridas, a areia escapando entre meus dedos. Te toco quando mil vezes falo teu nome, sem perceber, sem pensar. Te toco porque você está comigo, mesmo sem estar. 

Já não sei mais o que fazer pra te ver. Poderia pegar o avião certo. Mas me encontro atravessada de dúvidas sobre o amanhã, tal como você. Me encontro sem pressa. Sinto que a pressa não existe entre nós, por mais que a vontade seja de correr pros seus braços. O reencontro nos persegue, você diz. Pois que ele nos alcance. Enquanto isso, fazemos planos. E quantos planos já fizemos.

Você encontrou no mar sua calma. Quero entender que esse mar também faz você sentir meu toque. O mar onde moro, o mar onde nasci, o mar que sempre esteve comigo. Acho curioso. Tanto quanto quando você desata a falar, me encontro curiosa. Curiosa pra te ouvir, te conhecer, te abraçar. Curiosa pra dançar com você uma noite inteira e todas as noites que vierem.

Quando te abraçei naquele dia ensolarado, você com ela, eu com ele, parece que o mundo mudou por um segundo. Não te contei, mas meu peito, quase desnudo no teu, fez mágica. Um breve terremoto. Uma tsunami. O resto em silêncio e eu não queria te soltar. Acho que você também não. Voltei a te abraçar nas terras geladas, mas esses abraços com tantas roupas trouxeram conforto. Não digo que meu mundo não mudou naqueles dias frios, mas mudou com tuas palavras e perguntas. Mudou com teu olhar. Mudou com o jeito que você sentava no braço do sofá devorando um pote de granola. 

Acho que você fez eu me amar mais um pouquinho. As listas, nossos acordos, teu pedido de desculpas depois de uma longa noite, tudo fez sentido, fez sentir. E sentindo eu não pude mais voltar. Imagino então estar contigo num desses carros velhos dirigindo pela beira do mar. Anseio pelas horas de conversa que nunca vemos passar, sem uma tela no meio.

Anseio ver tuas lágrimas de novo, não as de cansaço, as de conexão sobrenatural. Não quero que você volte a sentir aquele cansaço, mas, se sentir, anseio poder novamente te acolher. Anseio ouvir sobre girafas, sobre mulheres que amam mulheres, sobre números, sobre movimento, sobre luta. Anseio te contar sobre o meu dia, sem ter que digitar. Anseio te preparar um café e te entregar devagarzinho, enquanto você olha o mundo lá fora. Anseio te navegar e te mostrar o que você nem deve imaginar. Anseio descansar meus pensamentos na tua força. Anseio te ver dançar, sem metáfora. 

Ainda que você diga que eu falo a tua língua, me pergunto se não serão apenas falsos cognatos. Se eu mais uma vez estou vendo apenas o que quero (mas o que havemos de ver, se não o que queremos?). Achei que eu não aguentaria te perder sem te ter, mas aguentei. Busquei outras musas, mas não consegui te mudar em mim. Seja quem vem, você permanece. Pois aqui me ponho novamente. Pronta pra te perder de novo, sem nunca ter te tido. E tudo isso de ter e perder nem faz sentido. Só você é tua, só eu sou minha. Ainda assim, quero que sejamos nossas. 

Nesse risco estou pronta pra nunca ter a oportunidade de te levar um café com abraço. Prefiro crer que terei. Prefiro crer que você vai gostar do meu café. Crer que nossos rios vão se encontrar. Prefiro crer que é tudo apenas uma questão de tempo. De alinhamento das estrelas, do mar. Proponho, então: vem. 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

bem vinda

Tem certas coisas que mudam. Mudam a gente por dentro, mudam por fora, mudam nosso entorno. Mudam não porque viramos outras pessoas, mas porque de repente reconhecemos aquilo que sempre esteve ali. A gente só não viu. Não quis ver. Não conseguiu. 

Enquanto o avião sobrevoava o Rio vi as luzinhas se aproximando e quinze anos atrás viraram ontem. Meus olhos encheram de lágrima. Não de medo. Não de tristeza. Não de solidão. De Novo. Do Novo. Tantas prosas tive falando desse tal Novo, da Transição. E agora o que é Novo é na verdade o Velho, e a Transição é a Permanência. Com o tranco das rodas tocando no chão tranco dá também meu coração, lembrando não de memórias, mas de mim. Pretérito futuro. Presente. 

O Rio não mudou. Não é outro. Permanece caos, permanece duro, permanece. O olhar é que é outro. Os amores persistem. Cada cigarro no bosque, um cigarro no bar. Parece que pagamos o pecado de todos esses anos perdidos. Os abraços e os minutos, não mais controlados, regulados, amedrontados. Ser quem se é, e não ser estranho aos que sempre nos enxergaram. Sensação estranha traz esse Novo. É o Velho recontado, recitado. Feito poema de uma vida inteira. 

No abraço de sangue, acalento. No abraço de escolha, escuta. No abraço que sempre trouxe alegria, orgulho. Orgulho. Tamanha palavra que nunca usei. Não soube. Não tinha. Agora vivo, colorida, um sol brilhando no peito. Não fui duas. Fui uma que se escondeu. Fui uma que se anestesiou. Fui uma que dormiu. Sono leve. Acordei. Sonho.

Como cheguei, parti, como tantas vezes fiz. Mas essas mãos que pegam minha mala já não anseiam tanto porque não fogem. Não tem pressa. Se eu pudesse, ficaria mais nos braços dela. Ouviria mais poesia. Se pudesse, fumaria mais cigarros com ele. Beberia mais um mate com elas. Não posso. Permanece a impermanência. Agora sem desconforto. Nesse não-poder mora também a liberdade. 

Sobrevoando então a Fortaleza de quem ontem me despedi vem aquele aperto. Agora sim, medo. Coragem também, mas medo. Não quero que apaguem meu orgulho. Entendo então que o orgulho é só meu. Não apaga porque só eu tenho água pra apagar meu sol. O mundo nas minhas costas, leve. Não é fardo. É descoberta. Então encaro, enfrento, falo. Dou nomes. Lembro. Surpresa, vejo que não roubaram meu eu. Surpresa, resisto. Surpresa, persisto.

Chega então a comunidade. Comunidade de uma vida toda, de comum idade, de estrada partilhada. E de novo, o Novo é o Velho. Aquele bloco de concreto que com tanto afico construí agora me sustenta. Reconhece-me. Dentre esses, o orgulho demorou a chegar. Ainda assim orgulhamo-nos um do outro enquanto o nosso próprio não vinha. Demos as mãos e o colo. A escuta e o riso. Quanta história, e muito mais futuro. É casa, família construída. Agora plena de orgulho. 

De repente o coração acelera. Aquele tão inesperado momento, tão inimaginado encontro, doze anos depois. Somos as mesma, mas outras. Inteiramente novo, mesmo que aínda saibamos nossos nomes. Queria compartilhar esse momento com minha estrela, que me lembra de navegar nesse mar da vida. Ela que tanto ouviu dessas memórias. Mas já não vivo mais nesse passado. São só histórias. Contar histórias e, aqui também, achar comunidade. Partilhar do vinho e desatar a falar. Como se não houvesse tempo entre a gente, como se a gente se conhecesse. Absorvo a alegria dessas mulheres, me banho nesse amor, nesses sorrisos. Casa-senti-mento. 

Com os lábios roxos de rir eu então descanso. Descanso com a certeza de que fiz tudo que estava ao meu alcance. Com a certeza do que enfim está para além do que posso. Do que quero. Acolho ao Velho re-citado, agora Novo. Não são memórias. Não há mais espinhos. Não há mais dor. Não há medo. Não preciso do trabalho ou das paredes pra ter um chão pra pisar, piso firme em um chão de minha própria construção. 

Haja Eu. História, fôlego, força e sangue. Lavo o rosto e me conheço no espelho. Meia cabeça nua. Digo oi. E abro os braços pra abraçar a mim mesma, envolta pelo mundo. 

sábado, 29 de junho de 2024

Estrela do Mar

Há vinte e três anos nascia Maria, longe do mar. Maria não é qualquer Maria. Não é Maria dessas que tem por aí. Não é Maria dessas que copia as outras. Não é Maria só Maria. Maria é Luiza, é muito mais que só Maria, que só Luiza. 

Maria nasceu em um ano complicado. Um ano que enrijeceu o mundo. Um ano que sacudiu. Sacudia também Maria. Sacudia a vida de Regina, sacudia a vida de Sônia, sacudia a vida de Renato. Mal sabia, Maria, que sacudiria também a minha vida, vinte e um anos depois. Não sei se quando Maria era menina era daquelas de encher a casa de alegria. Suspeito que era. Não por suas manhas, essas eram de Regina. Mas sim pelo seu tamanho, mesmo pequena. Pela sua voz. Pelo seu coração, na mão e na cabeça, sendo declamado a cada passo de Maria. Ela era também daquelas que iria levar o mundo nas costas. Maria cuidava, Maria cuida. Como se a responsabilidade fosse sua, sem muito questionar.

Ainda assim questionava. Ou melhor, enfrentava. Maria não se escondeu quando viu que não era mais uma. Maria pôs a cara no mundo. Sofria, Maria. Nem só por que tinha uma casca forte que as palavras da rua nela não doíam. Ela sabia quem era. Mesmo assim, fácil nunca seria e ela nunca deixaria de ser a Maria que amava marias. Maria foi pra escola e na escola fez o mundo. Ocupou o espaço que a negaram e gritou pelo que acreditava. Maria organizou e lutou e marchou e mudou e caminhou e amou e radicalizou, sem perder a ternura.

Sabe, é que Maria tem suas ideias. Tantas, tantas ideias. O mundo não pode enrijecer tanto como no ano em que nasceu. Maria sabe que é preciso ser mais humano. Sabe que a humanidade é o que aparece no falar das palavras, no ensinar dos números, na poesia do abraço. Maria sabe que sentir e sonhar entre o racional e o inexplicável é o que faz a vida valer a pena. 

Maria seguiu. Regina precisou dela e lá estava Maria. Maria a primeira, mas não seria a única. A primeira por que mostrou a Regina que era possível. Que ela estaria lá ao lado dela, mesmo que distante. Maria foi pra longe, ainda perto. Saiu da terra do horizonte e foi pra terra onde os prédios cobrem qualquer beldade. Ainda assim achou beleza. Beleza no corre, beleza nos amigos, beleza nos amores, beleza nos números, na poesia. Sobretudo, beleza na luta. Maria novamente sobreviveu. Nos cálculos do dia a dia, subtraiam-lhe tudo e ainda assim, restava Maria. E de repente ter ocupado aquele chão da escola a mostrou um novo caminho. 

Bendito caminho, bendito chão da escola, bendita pedagogia da liberdade. Sem saber no que daria, Maria foi entender a educação. Livro e caneta na mão, resolveu Maria que ainda mais alto voaria. Bendito desejo de voar. E em um final de abril Maria então entrou no meu caminho. Benditos malditos bilionários que investem em educação. 

Logo vi que Maria é dessas que tem a voz mansa e a fala forte. Logo vi que Maria era pequena, e gigante. Que seu coração estava sempre no lugar certo. Que seu caminho seria de luz. Luz Maria sempre foi, mesmo quando com raiva briga, mesmo quando destruída chora. Apostei em Maria. Apostei alto de que não era possível que os outros não vissem o que eu via. É que Maria é o mundo. Certo dia eu em um trem, Maria falando trem, eu vi que Maria era também o meu mundo. Passei horas segurando a mão de Maria. Passei horas lendo Maria. Horas debatendo, conversando, guiando e o tempo nunca, nunca passando. 

E é claro, eu estava certa. Não do vôo mais alto, não era hora ainda. Nem do vôo mais perto de mim, também não era hora. Mas de um bom vôo. Ah, se eu soubesse, Maria, que aquele lugar árido tanto a machucaria. Ainda assim sei que ela teria ido, por que minha proteção não poderia jamais pretender segura-la. Mas ao menos um colchão eu teria posto, ao menos um aviso eu teria dado, um abraço bem mais apertado. 

Maria então me conheceu de verdade. Maria veio e como fez com a escola, ocupou o meu espaço. Em um março conturbado, Maria me abraçou. Como eu imaginava, abracei com ela o mundo. Maria, Maria. Que noite e que dia. O Rio de Janeiro não era nada caótico perto do meu peito. E Maria, nada sabia. Quando me deu adeus e se foi pras terras do norte tive medo de perder Maria. Benditos malditos bilionários que investem em tecnologia. 

Eu quis ver Maria dançar. Ela que tem uma dança que é só dela, que é bela. Ela que se move com o fluxo da vida ainda que as vezes só queira parar. Ela que carrega o mundo na cabeça e os amores no peito, mesmo quando só precisa descansar. Ela que nos meus braços desabou, e tudo que eu queria era resolver o mundo pra ela. Ela que vê poesia nas menores coisas do dia. E lê. E escreve. Ela que junta os alimentos como quem faz um jardim, e planta flores no meu coração. 

Maria então veio me ver. Eu que não achei que esse trem era tão grande, de repente me supreendi com o comboio de Maria. Nada mais importava além do sorriso de Maria. Quando chorava, eu só queria lhe dar colo e dizer que ficaria tudo bem. Quando me olhava e perguntava, meu coração disparava. Ah, Maria, quanta curiosidade. Quantas conversas nos moveram. Quanta cumplicidade. Quanta humanidade. De repente granola. Granola e Lamparina na minha vitrola. Uma lista. Maria chora com o cisne. Maria vê girafas no céu. Maria e a melhor batatinha frita que há. Taças de vinho e a chuva lá fora. Biscoitos, frescos e quentes. Eu, caos, e Maria serena. Uma chuva de sentimento e Maria nem sabe o que fazer com tanto afeto. Eu não sabia que podia haver tanta bondade assim, Maria. Havia. Há.

Agora Maria é a estrela do meu mar. É que Maria descobriu que large bodies of water também a acalmam. Cresceu longe do mar e longe de mim, mas a vida mostrou que ao lado desses dois tudo pode ser melhor. Mineira que sabe nadar. Uma estrela que brilha forte, que de longe me dá amor, que de longe cuida de Sônia, Regina e Renato. Maria que me deu coragem pra ser quem sou. Maria que dança como se ninguém mais houvesse, que se expressa com a liberdade que ela mesma construiu. Que calcula e pensa em um café qualquer como quem vê uma série boba. Maria que também gosta das minhas séries bobas, da boa comida e da boa companhia. Maria que luta. Maria que não é bicho. Maria, uma Luiza que essa Luiza só pode amar. Não há mais a vida antes de Maria. Bendita força, bendita vida, bendita Luiza, bendita Maria. 

Que eu possa sempre te ver dançar. 


terça-feira, 25 de junho de 2024

Amor Quiosque

Te quis porque professora é. Sabe, é que eu tenho uma queda por ser aluna. Mas hoje logo vi que não haveria educação bancária. Só pedagogia da libertação. É que já sou outra. Foram-se poucos dias da última vez que recebi lição na carteira da sala de aula, mas parece que o mundo girou 365 vezes. Parece que passei de ano. Parece que recobrei os sentidos e entendi que óculos seriam mais adequados. Que não há motivo pra não querer enxergar direito. E te enxerguei. 

Como quem quer, disse sim. Sim pra qualquer coisa. Sim pra tudo. Sei que estou em uma fase de aprender a dizer não, mas de que adianta negar o que quero. Te quis e fui, navegando na sua tinta pra tentar te conhecer melhor. Afinal, não foram mais do que profissões e nomes trocados. E de repente você me lê. Não sei se o que escrevo tem mesmo algum valor, mas parece que nas palavras te despertei algo. Logo você, publicada, lendo essas aulas e banheiros. 

Doralice é doce feito caramelo com chocolate. Suas paredes tem algo de familiar, do tempo que eu visitava minha tia avó rebelde na Barata. E o Rio lá fora. As janelas ao nosso redor, tanto potencial. Tantas histórias. Você diz que não vê, mas as áreas de serviço tem literaturas de Carolina. Um dia você escreverá sobre elas ou sobre a sombra, mais uma. Essa sozinha, sem Marias e entrelaços. 

Um cigarro, dois, quatro. Manoel de Barros e você apegada nos românticos. Alencarina, carioca. E eis que encontro mais uma boca pequena. Talvez não é que seja pequena, a minha é que é gigante de vontade de devorar o mundo. Com você não seria diferente. Seus olhos pretos e profundos contam uma história que só quem também ensina conhece. Só quem também lê o mundo em noites mal dormidas. É que pra gente fechar os olhos é luxo. Corva, corvina, branca de neve. 

Mate-me então, e mais cigarros. Não vou te matar de curiosidade. Digo sim, só sim. Sem disfarces, sem desculpas, nem precisava dizer que era pela visita inesperada. Eu iria mesmo assim. Então ao som do fim de semana em uma terça feira você me leva pra navegar nas minhas águas. Tanta água, e você aquário. Eu disse que era pedagogia da libertação. Co-construção, sem ordens, sem hierarquia. Cabelos curtos que escorrem entre os dedos. Sua pele daquelas que há uns meses ouvi dizer serem incomparáveis. Caminho devagar pelo seu rosto, pelo seu pescoço. Toque. Linguagem. 

Como se não bastasse tanta história, em poucos minutos você me diz que nem pareço aluna. Meu braço tremendo mas continuo confiante te escrevendo. Você me chama pra te assistir e eu aqui, com você. Sua boca de repente enorme, e eu que fiz ela crescer assim. Seu brinco uma jóia iluminando seu ofegar. Meu corpo tremendo e poder te abraçar. Ressignifico aquela música de olhar pro nada aos doze anos, olho agora pra você, vinte e um anos depois. Abril, no Brasil, mas já é Junho e eu escolhi me queimar.

Queria ficar nesse quarto. Ficar te beijando os ombros, as costas, a tinta. Mas tive que ir. Ya no me quedo más. Recentemente ouvi dizer que havia em mim uma capacidade de amor universal. Espero que você hoje possa ter sentido um pouco desse amor. Bendito quiosque. 

domingo, 23 de junho de 2024

Carry-ons.

People are rushing past me, fast and determined to find their gate. They don't want to miss their flights. They want to get in line quickly to secure a space in the overhead compartment. They carry pieces of their lives with them, usually in their carry-ons. It's uncommon to send such personal items to the baggage compartment. Sure, clothes that make people look like themselves can be sent down. Food—a common item for both immigrants and tourists alike, though immigrants often bring food that reminds them of their grandmother - can't be brought in a carry on. Gifts for loved ones. All of those are in the baggage compartment, cold and alone. But it's ok. They're superfluous, they're new, they're not people's lives.

In the overhead compartment, though, it's a mix of trinkets and memories. People's wallets with photos of their children, spouses, and dogs. Travelers' medications, because those who need them know to never leave them far away. Maybe a quick change of clothes in case something goes wrong. People's worries. The most precious gifts, those that break, usually for the most solid of all loves. Their laptops and phones, which nowadays serve as photo albums, entire libraries and discographies. People's memories can now be carried everywhere. No wonder we feel so much more than our elders did. And, always, carefully wrapped on a duty-free bag, you can find that bottle of booze someone bought to celebrate their arrival home. Or to cry over their lost ones. These are memories, worries, gestures of love, care, and health. Of course they would be overhead. Over all of our heads, as if we all shared an intimate secret for a couple of hours. As if we held each other's lives above ourselves. 

When I see those videos of bizarre turbulence, I always focus on the things getting scattered, thrown into the air. Suddenly everyone is exposed. Not only their hearts revealed through their carry-ons but also through fear. That crazy, odd, gut-wrenching fear when a plane loses altitude or goes through different pressure systems. Planes are so much like people—they just fall a bit when the pressure changes, and then casually get back on track as if nothing had happened.

I've been there multiple times. Once, my father continued to tightly hold and read his book while my mother held on to our dear lives, in utter shock and panic. I laughed. Nothing could be a better representation of those two than their reactions. It's not that my dad didn't feel the fear, he simply chose to ignore it. It's not that my mom thought we would really die, she just panicked because it's what she does. And me and my laughter? Oh, I felt the fear too. But I also felt life. I also felt my dad's attempt to calm us by pretending everything was just fine. I felt my mom's attempt to show how much she loved us by almost breaking the bones in our hands. I was just taking it all in, absorbing the world as I usually do.

The man in seat 5A was saying how he lost his second wife. It's been a while, and he's coming out of mourning. I felt it, and my eyes teared up. Not that I don't have my own reasons to cry—I do. I know loss, but not that type of loss. My carry-on has a multiplicity of things, but I'm alone now. I only care about my medication and my sleep aids. My laptop and phone have to be closer than overhead; it's all I have now, memories and a project. As Gilberto Velho says, through a mix of memory and project, past and future, I have an identity. 

As we cross the American continent all the way from Toronto to Rio, my wish is to travel more, to get out there and continue to experience the new. I've found my way to living just with a carry-on. I've found my way to carry all that matters most on my phone. I've found my way.

I'm free, and I'm in no rush. I thought I regretted missing my last flight, but I don't. If I had caught that flight, I wouldn't be who I need to be now. And so I walk slowly through the terminal with my carry-on, waiting for my next flight to be announced. I walk and think about all of the stories passing me by. I see a couple crying, a baby laughing, a grandmother struggling to carry her cane and luggage. I imagine what their lives are like. Where are they flying to? Who are they flying towards? Maybe, who are they flying away from?

Me, I'm just flying for the sake of flying. Towards, away, with. No rush, no gate, no time.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Inner death ou rumo

Eu andei distraída caminhando sem rumo. Até que tropecei em você. De início suspeitei. Mas que diabos me fez tropeçar? Eu que andava com passos tão firmes. Não confiei. Não me abri. Cabreira, inventei mil desculpas pra não te querer. Todas eu te contei. Ainda assim, te quis. Te quis como quando do avião vejo as luzes das cidades e minha cabeça dispara querendo viver aquelas mil vidas desconhecidas. Te quis como a um pão de beijo, quentinho, recém saído do forno. 

Não digo que você não me quis. Você só teve pressa demais enquanto eu te pedia paciência. Você teve descuido, quando eu mais estava quebrando. Você teve dez caras, quando só me mostrava duas. Não pode ser sincera. Preferiu me culpar e sair correndo. Como se nada. Como se ninguém.  

Não digo que entendo os rumos da vida. Não vou fingir que sei o que está acontecendo, que confio que o rio vai desaguar no mar. Parece que nado, mas a correnteza é tão forte que meus braços as vezes não conseguem vencer. Parece que sai do calor da minha casa pra enfrentar uma ventania, uma tempestade. Quase vôo. Quase. Ao invés de voar, fico encharcada, machucada e sem casa. 

Acredito que tenho direito de te odiar. Não porque eu perdi minha casa, afinal a tempestade já estava se formando há muito tempo, não havia como ficar naquele lugar inseguro. Não foi você quem me fez perder a casa. Mas porque quando sai dessa casa, vi a sua estrada perto da minha e acreditei que nosso rumo andava junto. Não acreditei sozinha. Te ouvi e peguei o rumo sem ver o mapa, sem ver tudo que estava acontecendo do meu lado e eu, perdida. Quando você nos escondia, eu acreditava nas suas justificativas. Quando você me cobrava, eu achava justo visto meu novo caminhar. Não podia ter acreditado, não devia ter aceitado. 

Tem uma música que me lembra a gente. Não, não é uma dessas de batidas dançantes. É uma que desesperado ele grita pedindo que Deus não leve as lindas coisas que Ele deu. Eu já sabia que poderia perder você. Mas não achei que perderia só por perder. Por você não mais me querer. Me convenci de que não perderia então. Me convenci de que eu ainda ia passar horas cozinhando e ganhando beijos. Me convenci de que o que eu estava perdendo eram realmente lindas coisas. 

Sem esse rumo tem me sobrado o palco. Não que esse rumo seja mais importante que o palco. Não. Nunca mais um rumo será mais importante que o palco, que eu. Ontem senti sua falta. Queria sair do palco e correr pro teu beijo. Queria saber que teus olhos tinham me visto. Que eu tinha te feito sorrir. Mas você não estava lá. Nem um adeus você pôde me dar. Disse que iria me demonstrar amor e então me jogou pedras. Você só nos deixou morrer, por dentro, em silêncio. Ontem meu coração derreteu, te odiei. 

Por te odiar, minha vontade é pagar o que senti. Mas já não sou mais essa. Os espinhos já não me atraem mais. Por ter te desejado tanto, minha vontade era te implorar pra ficar. Mas já não sou mais essa que implora. Por me amar eu refaço meu rumo. Busco outras estradas. Por me amar eu me dou. Como me dei pra você. Por me amar eu subo no palco e com a cabeça a mil entrego muito mais do que quando serena. Por me amar eu escrevo. Por me amar eu te mato dentro de mim.  


quinta-feira, 13 de junho de 2024

awake

One day I slept and stopped dreaming. I don't know when it happened. I don't know if it was when someone yelled at me because of nothing, or if it was when I started feeling like nothing. I just stopped dreaming. Even when plans existed, they were but plans, feasible, easy, possible. Immigration? Sure, let's do a feasible place, not a dream place. Doctorate? Yes, a very comfortable plan, I'll go somewhere that resembles an old dream, but possible. No dreams, just reality. 

I believe my lack of dreaming had something to do with how I felt about myself. I used to feel like a burden. I felt like loving me was a burden. I used to think I was uninteresting, boring, annoying. I felt I was my disability. I used to want to be perfect. I used to be awake at all times, protecting my heart, my health, and my mind. Hypervigilant. Afraid. 

On a January day he then showed me love in face of imperfection. I was shown forgiveness. I was shown care. It wasn't enough, of course, to magically make me feel other. No. I also tried God, but He didn't seem to be very responsive, and the demands seemed to be opposite of who I was. And so I ended up depending on his slightly rare demonstrations to reaffirm my worth. When they didn't happen, I would again crawl up and sleep, dreamless. Every birthday I was reminded that I could have dreams, because that is what my birthdays do. But I quickly felt that dreaming was pointless. I was surely undeserving. Yet, I survived. With the foundation that his love gave me, I was able to seek healing. In my healing, all those dreams that I had bottled up started making bubbles, but the bubbles would only amount to crying, not to dreaming. And suddenly the world started to shift with the puddles that my eyes created. He started to see me differently. I was deemed too emotional. I was accused of doubting too much. Of challenging too much. I couldn't give him wholeness. I was somebody else, he said. Yet, I could only be me. Yet, I was healing. Unable to give him or myself any dreams, but still me. 

I again don't know exactly what or when but I've found a way back to dreaming. Might have been the stage. Might have been that Halloween. Might have been a starfish. I can't say. But I've gone back to dreaming. And not the easy dreams that come without invitation. The hard ones, the ones we build for ourselves. Suddenly, I dream of a kiss on my neck and a hug when I'm cooking. I dream of a borrowed family that will cherish me the way I cherish them. I dream of making just enough money to take a girl on romantic dates every other night. I dream of cooking something new. I dream of a Friends type of friends. I dream of dream jobs. I dream of going back, not to where I felt vulnerable and unsafe but to a new place. I even dream the silly dream of making ends meet just through being on stage.

I still don't dream it all. You see, these dreams are fresh. A fortnight ago I still thought - thought, not felt - that I shouldn't be dreaming. When a starfish made me dream of the Maldives I got scared. I got scared of the consequences of my dreams, scared of hurting him, scared of being a terrible person, scared of others. I got scared of dreaming the minute the first dream appeared. I was scared of not only being alone, but feeling alone. I was scared of dreaming dreams that simply would not come true. 

Yet, I insisted on dreaming. Maybe because a starfish said the time to dream is above ground. Maybe because I continued to be on stage, dreaming of other worlds where I am other people. Maybe because the people who know me told me to keep dreaming, that it was worth it. I know I may be setting myself up for failure. I know I might be chasing rainbows in a world of little rain and little sun. Still, I believe the chase is worth it. Still, I've learned to fail. And dreams, dreams are worth dreaming even if they continue to always be just that, dreams. I will dream of the unknown and I will continue to feel sure being uncertain of what's coming. I refuse to sleep again. 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Moebius Ribbon

The way we occupy spaces is not an occupation. We are there yet we aren't. I was at my old alma matter when a friend was too, but I didn't meet her then. We were occupying the same place, yet we weren't. I crossed a hemisphere, she switched time zones. And on stage we finally met. I grew up going to the same places as my first true, healthy love. Yet we only met online. I walked the same street and took the same subway station as my lover for months. Yet we only occupied the same space when looking deeply at each other uptown.

Even when we are at the exact same place, looking at one another, we often aren't really there either. Most often for me it's an in-between. How rare it is to have two people at once really there, together in a moment. I experienced that a couple of times, but much less than the amount of times I think a human being needs. Especially a being like me, so deeply engulfed in questions of time and space. What is most unfair is that often the person who is fully there has no clue that the other isn't. Again, so rare to have those moments where both are there, heart, mind, body, soul, all. And when such moments do appear, you can barely breath. It's like no air exists between you two. Even though you are two separate bodies and you might not even be touching, it's like you are one. Physicists say two bodies can't occupy the same space at the same time. I guess that's what this rule really means, that if both people are there, they actually become one. I learned that recently. 

I have been learning about the spaces I occupy. Learning that the in-betweeness is no sweet deal. Learning that you can only be in-between without suffering if you are unpreoccupied and full of insider people pretending you are there too. So you feel safe occasionally, even though you're on the line. I'm learning that being both inside and outside is in fact just a lack of courage and/or knowledge and/or power to enter, or exit. It is uncomfortably comfortable. Numbing. Painless because feeling-less. 

The rigidity I live by leads to fragmentation. And our shared communities aren't ready to heal fragmented people.  Still, we are learning. Fragmented people cry alone because they are not inside someone else's life, not inside a home, not inside a community or a structure that sustains them. They are also not completely outside of needing said someone, said home, said structure, said community. Yet, fragmentation is the only path to being fully outside. Or, if you are lucky, to being fully inside. Afterall being fully outside means negating community, and hence, humanity. Let me be clear, everyone that is willing to do the work should be in an inside. 

When you decide to move not on top of the Moebius, but through it, you get pixelated. Your body mind soul all break into small pieces to be reunited on the other side. I remain on the Moebius trying to cross. Dazed, confused, lost. Yet, certain that staying here has been a coping mechanism. Nothing more than a source of strength to be able to live through all the good-byes. To live through all the what-ifs. To live through all the chaos and fear. Enough. I need to jump and fully be inside. But before I can jump in, I need to jump out. Jump out and see from the outside. I need to meet myself, animal, solo, alone. Then I'll choose doors. Proper doors. Doors that match my keys. Doors that once pixelation happens, it leads to high definition. Doors where, after crossing, I can occupy the same space as another body and be one. Yet not rigid, and still multiple and diverse as one. No longer will I be a ghost flying through people's doors, floating on top of the Moebius, pretending to not be affected. 

I need affect. Not afeto. I promised a starfish I'd never go back to not being affected. So let me cross the Moebius. Let me swim my way through. I just need to practice. I need to endure. To act. To inaugurate the next act of my play. I hope it's entertaining. I hope it's not hurtful. I hope it brings me to being fully inside someday. High definition and not pixelated. In community. At home. Navigating multiplicity without fragmentation. No more in-betweens. No more living on a border. No more Moebius ribbons. 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

notice of fragmentation

The best thing you can do for me is to ignore me. Wait, no, the best thing you can do is to give me all the attention there is. I don't know how to be alone. But I love my company. Yet I'm anxious. It must be a social media problem. No, it's the prospect of seeing you in person. Or not seeing you.  I can't see you anymore. Or can I? Please tell me that I can. I thought the problem was that I was too blue. Wait, no, too pink. I'm neither, I'm both. The problem is that I'm just not here fully in your eyes. Feels like I'm waiting for you to see that I am. I can only be here fully, mind body soul heart blood memories breath. There's no half me. Indeed I don't know what I want from me. I know I'm done yet I need more. I'm happy, desperately. What is making me happy I do not know. So I can't pursue it. I can't tell you where I want to be in five years. I can tell you I want to be there. Somewhere. Often my mind doesn't stop saying the most preposterous things. I've given all I've got. Little breath left yet all the love. My body doesn't feel like getting up sometimes. Still, I'm up. I noticed I need the stage to find peace. To find silence in my own mind. I'm addicted. I'm addicted to you. I'm addicted to myself. Addicted to feeling, addicted to suffering yet addicted to being happy. Maybe if I moved more. If I moved just a little bit more. Go to the gym. Dance. Walk. But what if I stood still? Lay down and reflect. Read. Write. I feel like running away. But I can't run. I'm tired of running. Yet I just can't stay. I can't stop but I'm paralized. I'm moving, moving, moving. Is this healing? I want to be with her. I want to be with him. I want to be single. I don't want to mingle. I want her naked music buildings. I want him high forest naked. I want us but I just want me. I want us high, and I want us sober. Who's us? Where is my starfish? Did I forget? Did she? Did my mirror break? Certainly it is cracked at least. Who's there to hold me up? I need to stand on my own two feet. I'm learning to stand on my breasts. I need more but less. I need time, I need me. Yet I continue to push forward. I'm not available right now. Not to think. My hours of operation aren't accurate. Please leave a message and I'll get back to me when I can. 

sábado, 25 de maio de 2024

Innerbloom.

Vi você de perto e parece que foi tudo novo. Não digo que te desaprendi. Você me ensinou com tamanha disciplina que não esqueço. Mas te ver de perto sempre traz um arrepio diferente. Sinto o calor daquele forno e o silêncio daquela cozinha como se não estivesse no ar condicionado de um metrô sujo e barulhento. Eu te sigo mas eu já sei o caminho. I go all the way up just to go down on her, lembra? Quando a porta fecha a gente até tenta enrolar, encher o ar com palavra como se ele não já estivesse lotado de desejo. A lua. E então eu te beijo. Sua boca feita pra falar francês. Não entendo bem o mecanismo que faz seus lábios serem sempre tão doces, tão úmidos, tão perfeitos. Não entendo bem por que encostar minha boca na tua me deixa assim. Mas não sou louca de ir contra, só fico louca quando você me joga no sofá. Quando vem no pé do meu ouvido e me dá um nome. E de repente essa música que pouco sentido faz me embala de um jeito que eu deságuo. Fácil, fácil demais. Penso quando é que vou te dar mais trabalho. Você não me dá trabalho, me dá lição. O jeito que você me guia me irrita, mas hoje eu já sei te pedir pra calar. Sei te mostrar ainda mais a mim mesma. Sei te dizer o que quero. Ainda assim, fico sentada na carteira da sala de aula comportada por que você sabe que eu quero tirar dez. Prendo o cabelo em um rabo de cavalo. Escuto as únicas lições que realmente me interessam nesse mundo. Eu que sempre gostei de desafiar professores, agora preciso ser sua teacher's pet. Pet. Te falei que é isso que você fez comigo, e como uma, é minha vez de me ajoelhar. Você falou pra eu escrever menos sentimento. Pois aqui está. Você dentro de mim e meu joelho dobra. Você perguntando o que eu quero e eu com todas as letras. Você atrás de mim e minhas pernas fracas. Você de costas e eu te hidratando até os seus pés. Meu cabelo preso e eu te dando ordem como se eu pudesse mandar em alguma coisa. De novo a gente entrelaçada e o mar todinho nessa cama. Fico te olhando e, como um navio nesse mar, navego até sozinha pra você ver. E quando a gente para e respira, é rarefeito. Um suspiro, dois. Seus cachos entre os meus dedos e seus olhos brilhando. Quero ficar. You're my piece of paradise, diz uma daquelas da nossa playlist. Uma semana e eu fico. 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

And the Oscars go to...

Not me, no. Pelo menos não o de protagonista. Não é exatamente também o de "coadjuvante". Não sou "co" de ninguém. Sou supporting. Em português esse termo não traduz. É que eu vim pra essa vida pra isso. Quem tem o prazer ou desprazer de entrar na minha vida encontra em mim uma mão pra segurar. Tive sempre medo de ser narcisa, mas o que me tornei foi espelho. Não que eu reflita os outros, mas seguro um espelho gigante na frente deles e tudo fica à mostra. Quando te olho, você vai se ver incrível. Ou vai ver tudo aquilo que precisa mudar, pra ontem. Se você está na pior, vem até mim que eu prometo vou te lembrar de quão protagonista você é. Mesmo que no fundo eu sinta que não é bem por aí. Se está bicho, vou te lembrar da tua humanidade. Se duvidando de que seja suficiente, vou encher sua bola até você lembrar de que é suficiente e o problema são os outros. Se anda melancólica, vou te ouvir por horas a fundo e te olhar com tanta admiração que te vai te dar alegria. No improviso, não vou ser sempre engraçada. As piadas não serão minhas. Mas vou te dar a deixa perfeita. Vou organizar a cena inteira pra você brilhar. Se você esquecer sua fala, vou te dar cola. Como dei na escola. Sempre batendo palmas pra amiga que era primeiro lugar e enxugando as lágrimas dela quando ela tinha a ousadia de duvidar de si. Continuo fazendo. Mas nas boas relações, como a da amiga-primeiro-lugar, eu também me enxergo grande. Talvez por isso ele e eu funcionamos desse jeito curioso, ele segura o espelho pra mim e eu pra ele. Acredito, enfim que ele hoje vê o incrível, e também o que precisa mudar. Acredito, enfim, que eu também esteja enxergando. Preste atenção, não há nada de ressentimento no meu papel. Sei o meu lugar muito bem. Cheerleader. Mais um termo que não traduz. É isso que nasci pra ser e pra sempre serei. Vim pra dar afeto. Capacidade de amor universal. Quando viram que cresceram, que alcançaram, que estão bem, muitas vezes dizem adeus. Se vão. As vezes sem a cortesia de dizer tchau, as vezes fingindo ser difícil ir, mas na maioria das vezes só indo, avec le temps. Tout s'en va, tout s'évanouit. Eu permaneço, insistente, narrando histórias alheias. Nasci pra contar a história dos outros. Aqueles que pra mim não seguram espelho me permitem até brincar de ser eles fora do palco. Mas logo vejo que ser outra que não eu, não é pra mim. Só no palco. Lá a luz vem em mim como eu vou nos outros. Nasci pra shed light on. Como aquelas luzes em sala de detetives de filme, um foco de luz no seu rosto te iluminando até que você consiga se iluminar sozinho. E se a luz estourar, sou eu quem vai pular na frente pra te proteger, como fiz há duas décadas em um hotel assombrado num banheiro úmido. E você, você nem sequer me deu adeus. Se aquela que me ataca te atacar, eu vou também voar 3 mil quilômetros pra te defender, como fiz há cinco anos. Você que diz acreditar que estou no seu time, mas ainda não sabe demonstrar e prefere as vezes brigar. Se a internet resolver que você é péssima, vou eu responder a cada um o quanto você é magnífica. Pedra preciosa. Você que foi a primeira, que nunca segurou pra mim espelho mas que eu também não quis imitar. Não digo que não tive ilusões de grandeza. Tive. Astronauta, diplomata, ministra, Sérgio Vieira de Mello. Desisti. Me convenci de que eu não tinha what it takes e fui pra sala de aula. A sala de aula é bem maior afinal do que um cargo qualquer. Resolvi trabalhar pela multiplicidade, não pelo meu próprio pódio. Agora nem mais isso, troquei o gostinho de me ver nos futuros protagonistas pela liberdade. E vivo livre, enfim sem espelhos pra segurar até que chegue a próxima. Agora transformo calada - ou melhor, escrevendo mal e falando por aí - o papel que escrevi pra mim. E subo no palco pra ser outras. Por aqui, carrego o espelho no bolso pra quem mais aparecer. Afinal já refleti tantos vocês que não espero parar por aqui. Continuarei sendo suporte. Ilumininando. Sendo trampolim. Na vida, best supporting actress. No palco, eu. 

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Incomensurable longing.

Ossington is now just another stop on my way to forgetting.

Yet I remember.

The door has closed and I can no longer see inside your life. 

Yet I still feel invited.

You sent me a postcard with a couple of words.

Yet all I wanted was a long, unending letter. 

It's a new city. A new girl. 

Yet, you.

I wonder about the size of your smile.

How much teeth can she see?

I allow myself to think you'll never smile like you did with me. 

I barely know you. 

Yet I know you so.

I see a movie that couldn't be more different from us. 

Yet the same. 

What a happy ending. I cry.

My heart is full of certainties and decisions.

Yet I question. Yet it hurts. 

I saw your mom the other day. 

Yet you weren't there. 

I dreamed of you.

Yet I woke up. 

I've convinced myself it is just a nightmare.

Yet I sleep 

With your clothes

In your bed

On your seat on the sofa's arm

In your city, within your life. 

Yet me. Yet mine. Yet to be lived. 

Yet to believe. 

Just send me a word or two. 

Yet don't say anything more. 

Leave me longing, leave me wishing. 

Leave. 

Yet don't, not just yet. 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Erros de português

 Eu sou feita de porquês. Desde pequena tinha uma curiosidade gigante em entender porque as coisas eram dessa forma ou daquela. Mas enquanto criança, dificilmente alguma resposta era verdadeira. Ouvia que era a maldade dos homens. Que era assim que o mundo girava. Que não deveria nem perguntar, porque aquilo não era assunto pra mim. Perguntei por que minha irmã foi embora. Ouvi que porque ela nos abandonou.  Porque era rebelde. Porque egoísta. Só aos vinte e tantos soube de fato porquê, e só ela pôde me dizer. Perguntei porquê a amiga gritava comigo. Por que as pessoas se maltratavam. Por que eu nasci com uma doença incurável. Cada mentira-silêncio-resposta, dor. Certa hora cansei de perguntar. Só agi, como quem duvidava. E passei a duvidar de tudo: deles, do mundo, mas principalmente de mim. Tentando me proteger da não-resposta, eu mesma parei de perguntar. Quando assim fiz, parece que o mundo perdeu o encanto. Foi quando me encontrei sem graça, desinteressante. Foi quando me desencontrei. Pra que perguntar, se a resposta seria mais uma mentira? Ainda assim, num empurrão que a vida dá, um porquê se deixou escapar: porque não tentar diferente? Voltei pra carteira da sala de aula. A pergunta do professor uma brecha, uma quebra naquele rígido sistema que eu mesma havia criado. De repente me perguntavam por que, e eu ousava responder. Falhava. Me corrigia. Ainda não sabia dizer tudo aquilo que precisava. Ainda não era hora de responder. Então segui. Cercada de pessoas cheias de certezas, perguntei enfim por que preciso ficar nessa cidade. Por que preciso seguir esse caminho que não me pertence? E sem resposta peguei meus porquês e fui. Parti. Partimos. Ele do meu lado. Ele que sempre responde os meus porquês com a mais pura verdade que tem no peito e na cabeça. Mas a vida é dessas que empurram a gente pra voar e de repente cortam nossa asa. Trancados em casa, isolados, fechados. Tantos, tantos porquês. Parei de perguntar. Não havia como perguntar porque tanta morte, por que não se comportam. A resposta era impossível. E vem a vida de novo. Mais uma vez um porquê escapou: por que não agora? E as portas se abriram de novo. Como duas crianças que descobrem o mundo ele e eu botamos a cara no sol. Eu, logo voltei aos meus inúmeros por ques. Ele, ainda incerto, teve medo de perguntar. Mas a hora não tarda. E agora juntos eu pergunto, por que eu tenho que me separar dele? Por que a gente tem que seguir uma cartilha que inventaram pra gente? Por que ele não pode me amar com todo o amor que eu tenho pra dar? Por que? Pois respondo. Não tenho que separar, porque eu o amo. Não temos que seguir cartilhas, porque não são nossas. Essas cartilhas nada mais são do que controle pra gente que tem medo de perguntar, e nós não precisamos disso. Ele pode me me amar, porque eu me amo. Se ele quiser, vou continuar perguntando junto. Vou perguntar pra mim. Vou perguntar pras outras. Pra ele. E não aceito nada menos do que a verdade da hora. Peço apenas que ele, também, pergunte por que. Pra mim, pra ele mesmo. Se ele não me quiser afinal com todos os porquês, a questão então se torna outra. Ainda assim vou perguntar: por que? 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Randall Toronto

I laughed. I laughed at jokes that weren't meant for tropical fish like me. I laughed at jokes that I always thought I would never understand. I do. I get them more than I ever did with Rio. I walk these streets with a smile. I finally get all the the weirdly named intersections. Neighborhoods that are more like little towns on their own. At Ossington I smile, thinking about a rainy day when I was in love. At Union I no longer feel lost, it's my stage. At Islington I feel my blood flowing as I wonder whether he'll be waiting for me. College, nostalgia. Harbourfront, a longing for what never happened. Then there's the entire line one northbound, which I have just discovered. I go all the way up just to go down on her. Beaches, know them all. Nothing more relaxing than a Sunday at Hanlan's listening to Sun is Shinning and the weather is sweet. I've been naked in this city. Free from clothes, free from worry, free from fear. Free. I've always said that the choice between safety and freedom is a dumb one. You're not really safe if you are not free. You're not really free if you're not safe. I guess I am both. Safe and free. My safety is an oise(aux) on line two. My freedom, line one. I get to change lines not through the dark and messy corridors of Spadina, but through the ups and downs of St. George. It's almost like a cleanup. That much (n)oise. Sometimes I notice new places. They bring new people. I always preferred the Queen but boy did I love meeting King. Not because of King's posh bars of course, but because of all the queens I found there. Oh, how it amazes me. I walk down from Dundas to Shaw and I understand that I'm alone, yet perfectly accompanied by the birds, by the trees, by the people I haven't yet met. I'm writing in this odd language just to say how much I love you, Randall. I love taking that huge ferry to your Island and admiring my starfish while she cries over a swan. I love walking High (at the) Park holding his hands thinking of getting some Rocky Road. I love when he drives me away from randall, just so we can feel a little bit lost. I love sharing a cigarette on Bloor after dancing to the sounds of the Queen B. I love kissing the prettiest girl near the trains, knowing we'll only be a couple of kms apart. Holding her hands on the street and thinking fuck, we're free. I know she doesn't believe me, but sometimes freedom is compromise. I love myself here, Randall. I love that I found community, that I found support, that I found português, that I found a shoe that finally fits. I love that I don't hate the people I see, and that they don't care about me either. I love not dressing up. I love not asking him to dress up. It took me two hours to get home today and I did not care. Stuck in traffic and I did not care. I don't know if it's Randall's effect, or if it's the stage, if it's all the pretty girls, if it's me. I don't care. What I do know is that the cold never bothered me. The distance makes everything seem small. The fears that once controlled me, can't get to me at all. Yes, I know I'm borrowing those phrases. Be patient, I'm bye-lingual. En fait, trilingue. Mais je ne peux pas parler français chez randall. Pas Montréal! Il faux que je me sens où je suis. And using this goddamned language makes me feel even more yours, randall. I know, I know, you're colonial. Dish with One Spoon is what we hope for but so far only rich white people are eating. Like the tropics, you too are no Shangri-la. Actually, you do have a Shangri-la that I might be able to afford someday. Take the pretty girl for a night there. Or maybe he'll take me. For now, I'm good with taking the terrible transit commission system to and from. A starfish taught me to appreciate even the smelliest of TTC's cars. To always carry a book. To buy new headphones. I told her I'd live you, Randall. I told her I'd fight to feel the way I felt at Ossington, at Kensington, at the Island. I've been feeling, everywhere. And for now, I don't care that many of randall's townsfolk don't think I belong. I can't hear them, my headphones are blasting Brasil. I do belong, fixed English and all. Deal with it. This tropical fish ain't going anywhere, Randall. Just like you, I might have a thing for the tower. And I too shall become one.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

santíssima trindade

Meu coração é um sujeito muito inconstante e imprevisível. Quem o fez parece que quis me pregar uma peça. Hoje comi algo que fez meu coração disparar. Não é a primeira vez. O médico disse que era pressão, logo eu que tenho a pressão sempre baixa. Não acredito que seja. Deve ser só mais um desses mistérios sobre o meu corpo que nunca vou saber a resposta. Já ontem, ele serenou e fechei os olhos em cima do celular. É que ela me surpreendeu. Logo ela que me traz os 169 BPMs, ontem trouxe a calma que sinto quando sentadas no sofá entrelaçadas estudamos cada poro uma da outra. Quando nosso olhar se mantém sereno. Não que haja algo de surpreendente em ouvir músicas que nos conectam com o que há lá fora, mas por mim. Andei afastada das músicas que me arrancam tímidas lágrimas. Que fazem disparar e pacificar meu coração ao mesmo tempo - assim, que nem ela. Andei afastada de gritar a plenos pulmões que nunca estive sozinha. Afastada pois confusa. Andei falando de como rejeitei a salvação porque me disseram que ela não incluía os meus. E de repente eu também me incluo nesse grupo, enfim sem titubear, enfim sem "mas". Não pensei, de fato, que essa resposta do meu coração ainda estaria ali quando a música tocasse. Estava. E pude dizer a ela que não se preocupe em pensar demais, por que ela é presente. Pude dizer que ela é calma na tempestade ao mesmo tempo que me provoca raios e trovões. Ontem pude dizer pela primeira vez a minha própria santíssima trindade: ancestrais, água, Ele. E novamente surpresa, agora com minha própria capacidade de explicar, sem ter que me defender. Eu cresci vendo meus amores chorarem por não serem bem vindos. Me reprimi achando que eu precisava ser. Ainda assim, não coube. Mas a música, essa sempre coube. Essa sempre acolheu, sempre me chamou, sempre me amou. Talvez então minha santíssima trindade seja ancestrais, água e música. E os loucos são aqueles que me dizem que a salvação não é pra mim, pra gente como eu. Que se danem os loucos. Fico com ela, com a música, com o coração a mil e a zero, salva.

terça-feira, 30 de abril de 2024

pente

 Eu te falei que você era real demais pra isso aqui. Agora que você se foi e eu nem sei o que virá, você aparece por aqui. Sabe, é que você levou o nosso pente. Você levou pois eu disse que você precisaria mais que eu diminuir a estática e quebrar menos. Logo eu, sempre tão quebradiça. Consertei. Nem sei bem como é que vim parar aqui quando olho nossas fotos do verão de 22. Talvez o inverno tenha sido longo demais, e a primavera não chegou pra nós dois ao mesmo tempo. Você é coral, eu te disse. Onde vivo, minha casa, meu porto seguro. Seguro talvez não mais. E se deixou de ser, fui eu quem te afastou. Peço que me entenda. Não te afastei porque não te amo. Não te afastei por causa delas. Afastei porque precisei que você deixasse de ser tão real. Por que preciso viver o surreal. Surreal é o pente de plástico que tive que usar. Mal penteia. Quebra. Deixa elétrico. Não liguei. Ainda assim minha mãe me salvou e trouxe outro de madeira. Claro, não é a mesma coisa. Funciona, mas não é gostoso de passar, nem de segurar. É que você é assim, posso até achar parecido, mas nunca vão ser você. Você que tem um grip perfeito, que escorre os dedos nos meus cabelos, que não me quebra, não me machuca. Não digo que nunca machucou. Sua incapacidade de aceitar algumas flores que eu te dava me doía, sim. Sua incapacidade de me dar algumas flores que eu precisava me doía também, sim. Mas a primavera veio tão forte que entendi que as flores entre nós trocadas são belas, e que posso trocar flores com outras. Entendi que não devo querer que o buquê inteiro venha de você, ou seja pra você. Afinal, isso vai contra minha própria natureza, peixe mas também abelha. Nessa primavera quero gritar: odeio azeitonas! Quero te dar as minhas, mas quero também alguém que igualmente as odeie. Pra odiar junto. Já você, não quero odiar nada. Quero te levar pra uma cabine no mato, pra dançar a noite toda ao som das estrelas que aqui a gente quase não vê. Quero a sorte desse amor tranquilo. Quero pegar tua mão e sair por essas ruas, bêbados. Um remédio antimonotonia. Quero passar meus dedos entre os teus cachos e dizer pra que você os contenha, por que a noite vou ser tua. Quero que você me leve pra janela, mas que dessa vez chegue mais perto. Quero mais devagar, quero mais profundo, quero gritar. Quero te encontrar num domingo de manhã, 70s Mix e café com leite. Dividir o brunch. Tirar tua foto, sorrir pra você. Quero fazer planos. Planos com você pra gente descobrir o mundo. Mas também planos que você não esteja, e eu não me sinta novamente a vilã da nossa história. Não quero dizer não por qualquer outro motivo que não minha própria vontade de dizer não. Quero te proteger por mim, não por você. Quero que você voe, quero te ver voar. Você é grande demais pra caber na Torre que te puseram. Você é vivo demais pra viver dormindo. Você é belo demais, pra encurvar teus ombros. Você é bom demais pra ser bonzinho. Quando a gente se toca, quero deixar a estática rolar. Chega de desculpas, chega de cuidados, chega de medos. Você é fogo também, eu descobri. Quero que arda. Que me queime. Que na batida dos seus tambores elétricos me faça sussurrar no seu ouvido. Que no Jazz Standards você me enxergue de verdade. Que olhe pra mim na sua frente, não pra mim no espelho. Estou com saudade de ver você louco por mim. Estou com saudade de encharcar nossa noite sem nenhuma preocupação. Danem-se os lençois, o colchão. Quero desaguar na tua boca e te afogar. Me render e te render. Chega de interromper esses raioszinhos entre o nosso lençol e cobertor. Que venha você, surrealmente real e com toda a estática do mundo. Meu coral, nosso pente de madeira vai nos proteger.

domingo, 28 de abril de 2024

água

As vezes acho que planejaram em algum lugar desse universo pra que eu nascesse em março. Pra que eu nascesse com as águas que renascem todo ano. Seja chuva, seja neve, seja gelo, seja a mistura com a terra que faz uma bagunça danada. Essa primavera veio muito mais molhada do que todas as outras. Como se anunciando uma tsunami. Engraçado, disseram-me que esse ano eu chegava à idade de Cristo. Ele que andava transformando água em vinho, como se vinho fosse melhor que água. Ele que andava multiplicando os peixes, como se o mundo aguentasse as lágrimas de tanto peixe. Não que eu tenha qualquer coisa que remeta a Ele. Pelo contrário. Sou um festival de pecado e já rejeitei a salvação porque me disseram que ela não incluía os meus. Ainda assim, 33. E nessa primavera foi mesmo milagre que me fez viver. Viver como eu não vivia há década. Viver como quem vive pela primeira vez. É que os astros resolveram me banhar nessa primavera. De lágrima, de prazer, de suor. Me pego pensando se não é tudo apenas uma piada de mau gosto que meus antepassados resolveram contar. Eles que atravessaram mar, por escolha ou por força, agora rindo dessa que conversa com as águas. Me pego pensando se na próxima esquina eu tropeço e caio. Mas até agora, passos firmes. Uma firmeza tão estranha que me espanto. Acuso que foi ela ou ele que deram os passos. Não. Foi mesmo minha cabeça estranha, meu duplipensar, minha cara no palco. Seca. Fui eu, eu e todas as versões de mim que já vivi. Sabendo que todas essas decisões são duras como pedra, hoje a água veio dar força. Veio lembrar quem é que manda. Veio dizer que sem ela não há prazer, não há lágrima, não há esforço. Veio dizer que só ela apaga um fogo que queima e consome. Que só ela me transforma de verdade. Que é ela quem sabe do meu coração quando escorre nas minhas bochechas. Hoje não estive sozinha. Escutei o grito das águas mais fortes, escutei o chamado das águas mais profundas. Senti. E sentindo soube que não são memórias. É novo. As ondas vieram, me lavaram e levaram consigo tudo o que me afogava. Restou uma estrela do mar pra eu levar pra sempre. Restou grande parte do meu ecossistema, sem poluição. Restou o coral onde vivo, de quem me alimento e onde me encontro. Mas está em perigo. Não por fogo, fogo não arde dentro do mar. Nem mesmo por mim, peixinho que ali vive. Apenas por um desequilíbrio. Quero crer que o desequilibrado equilibrado estará quando a próxima lua cheia vier, e a maré encher. Quero crer que as águas vão continuar transparentes. Que a secura do meu rosto vai continuar apenas pra que o choro tenha sentido. Eu que já chorei por tantas bobagens. Água desperdiçada. Vida desperdiçada. Não mais. Aprendi a nadar. 

sábado, 27 de abril de 2024

inundação

Olho nos seus olhos. Você diz que nossos corpos se misturam, ficam indistinguiveis. Concordo. Num movimento que acompanha meu coração - tão acelerado - a gente se conecta. Você diz mexe aqui, abaixa ali, mas eu fico feliz em ser guiada. É que é novo, não são memórias. As memórias já não me servem. Guardei, finalmente, os registros do carro embaçado, do meu sutiã lilás. Não preciso mais deles. Tenho você. Não te tenho, aliás. Não quero ter ninguém. Ninguém é meu. Não quero ser de ninguém. Aliás, quero por alguns minutos enquanto você sussurra no meu ouvido uma palavra que me descreve, e diz que sou sua. As vezes acho que é algum tipo de magia, um feitiço mesmo que faz a gente ficar assim. 169 BPMs. E você, tão eu. Sou menor e maior, mas fico pequena no seu ombro. Nos seus cabelos castanhos minha mão fica. Toco sua bochecha, seu queixo, seus olhos, tão brilhantes. Não sei como alguém pode me olhar assim. Nessas horas também nossos corpos se misturam. Parece que você me conhece há décadas, mas são só semanas. Você pergunta o que é que eu estou pensando. Não digo. Se na tua cama eu me perco nos teus olhos eu me acho, mas eu não posso te dizer isso. Intensidade emocionada, e Original Brasil no fundo. Você diz que combina. Ressignifico. Gosto de ver o seu sorriso, sua boca pequena um sorrisão que nem sei como cabe. Você dança pra mim como quem sente, vive, provoca. E você de costas pra mim, um mundo novo na minha frente. Vou desbravar. Você tem grit. Eu também. Um de cada vez, dois no máximo, e minha boca. Você, louca. Eu disse que iria chegar lá. Pedi paciência. Você me deu. Você organiza o caos com uma leveza que me dá vontade de falar e eu falo besteiras. É que eu sou da água, sou peixe. Vivi sempre na beira da água, e deságuo na tua cama. Um dia vamos pra algum lugar, sabe, onde eu não tenha que cuidar das minhas marés. Preciso deixar as ondas virem, e se eu te afogar peço perdão. Peço que não desista por enquanto, se puder. Mas se te doer, que me deixe ir. Sou água, e não pedra. Não vim aqui pra te machucar. Vim pra te conhecer. Pra te molhar. Porque eu também sei ser onda. Beijar teus lábios feitos pra falar francês. Pra descobrir que orelhas não servem só para te ouvir. Pra te segurar pelo rosto, com cuidado, te tocando devagar como quem tem a vida toda pra isso. Suas tatuagens um mundo pra descobrir. Seu cabelo um mar, seu (nosso) desejo uma ordem. Vim pra você, por mim.