domingo, 8 de junho de 2025

memórias póstumas de uma tentativa

Viver como vivo as vezes mata. Eu cansei de morrer. Ninguém me faz pegar fogo como Bê. Ninguém me faz chorar como Bê. Hora escrevo do nosso amor, hora escrevo da minha dor. Não mais. Desde a última primavera morri, ressuscitei, morri de novo, ressuscitei de novo. Já perdi as contas de quantas vezes. Essa semana morri por Bê pela última vez.

Não digo que não morrerei nunca mais por outras razões. A vida é imprevisível demais pra que se tenha certeza da não-morte. Mas o tempo veio passando e as minhas mortes foram diminuindo. Meus lutos foram diminuindo. Fui reconstruindo minha vida, meu caminho, meu chão. Ontem contei pra minha mãe: tenho planos de médio prazo pela primeira vez. Não quero morrer mais. Quero estar viva e quero caminhar. Quero viver os sonhos que me convenci serem impossíveis a tantos anos atrás. Quero ouvir meu nome mais vezes. Quero lê-lo mais vezes. 

Parece que o ciclo se fechou. Closure, eles chamam. Eu não podia desistir de Bê sem tentar. Tentei. Não deu. Não dá. Não deixei meu pente de madeira pra me acomodar em um de plástico que tanto me despenteia, descabela. Não. Meus cabelos são belos demais pra não receberem cafuné. Meus cabelos são belos demais pra viverem presos. 

Eu me dou. Corpo, alma, cabeça, palavras, atos, planos. Não quero mais quem não me queira por inteiro. Não quero quem tente me convencer de que transparência e entrega são assustadores ou limitantes. Não. A verdadeira liberdade está em não precisar medir passos, palavras e beijos. A liberdade é se dar pro outro e receber o outro em troca. Não por que se depende dele, mas por que se ama. Incondicionalmente. Verdadeiramente. 

Eu busco a paz desde que de casa sai, aos dezessete. Nunca soube quais os termos dessa paz. Tentei encontra-la me fazendo menor. Não ocupando muito espaço. Não falando. Deixando de lado os sonhos que pareciam incomodar ou desafiar demais. Dizendo sim pra tudo e todos. Não me trouxe paz. Trouxe um falso senso de conforto que toda vez que era quebrado virava morte. Não mais.

Sinto que agora sei qual é a paz que busco, e já a encontrei. Estou me despedindo de bê há um tempo. Já desde o meu ano novo certas coisas se tornaram inaceitáveis. Se os 33 foram de milagre, os 34 são de trabalho pra fazer acontecer. Trabalhei em Bê, tentei. Tentei tudo que pude e não posso mais por que paz não há. Se posso dar paz ao meu coração é o que darei. Afinal, meus sonhos são grandes demais, meu nome é grande demais pra qualquer outra opção.

Tenho planos de médio prazo. Sei o que quero de mim, do mundo, da minha futura mulher. Ou homem. Sei quem sou e qual o mundo que me sustenta. Qual me suga. Qual me cura. Estou pondo os cintos de segurança pra passar pela última tempestade que Bê terá. Do outro lado, um sol vai renascer sobre o que nos conecta e enfim haverá paz. 

Tudo o que dei foi de coração. Sei que bê nunca vai me esquecer. Que nunca vai deixar de ser grata, mesmo que não saiba expressar. E basta. Espero que Bê finalmente aprenda a amar quem a ama. Que pegue o que dei e faça o bem nesse mundo. Que lembre de mim quando o lado escuro das coisas chamar e não vá. Espero que Bê seja feliz. Eu serei feliz, pois já sou. Mais uma vez morri, mais uma vez vivo.