quarta-feira, 15 de maio de 2024

Erros de português

 Eu sou feita de porquês. Desde pequena tinha uma curiosidade gigante em entender porque as coisas eram dessa forma ou daquela. Mas enquanto criança, dificilmente alguma resposta era verdadeira. Ouvia que era a maldade dos homens. Que era assim que o mundo girava. Que não deveria nem perguntar, porque aquilo não era assunto pra mim. Perguntei por que minha irmã foi embora. Ouvi que porque ela nos abandonou.  Porque era rebelde. Porque egoísta. Só aos vinte e tantos soube de fato porquê, e só ela pôde me dizer. Perguntei porquê a amiga gritava comigo. Por que as pessoas se maltratavam. Por que eu nasci com uma doença incurável. Cada mentira-silêncio-resposta, dor. Certa hora cansei de perguntar. Só agi, como quem duvidava. E passei a duvidar de tudo: deles, do mundo, mas principalmente de mim. Tentando me proteger da não-resposta, eu mesma parei de perguntar. Quando assim fiz, parece que o mundo perdeu o encanto. Foi quando me encontrei sem graça, desinteressante. Foi quando me desencontrei. Pra que perguntar, se a resposta seria mais uma mentira? Ainda assim, num empurrão que a vida dá, um porquê se deixou escapar: porque não tentar diferente? Voltei pra carteira da sala de aula. A pergunta do professor uma brecha, uma quebra naquele rígido sistema que eu mesma havia criado. De repente me perguntavam por que, e eu ousava responder. Falhava. Me corrigia. Ainda não sabia dizer tudo aquilo que precisava. Ainda não era hora de responder. Então segui. Cercada de pessoas cheias de certezas, perguntei enfim por que preciso ficar nessa cidade. Por que preciso seguir esse caminho que não me pertence? E sem resposta peguei meus porquês e fui. Parti. Partimos. Ele do meu lado. Ele que sempre responde os meus porquês com a mais pura verdade que tem no peito e na cabeça. Mas a vida é dessas que empurram a gente pra voar e de repente cortam nossa asa. Trancados em casa, isolados, fechados. Tantos, tantos porquês. Parei de perguntar. Não havia como perguntar porque tanta morte, por que não se comportam. A resposta era impossível. E vem a vida de novo. Mais uma vez um porquê escapou: por que não agora? E as portas se abriram de novo. Como duas crianças que descobrem o mundo ele e eu botamos a cara no sol. Eu, logo voltei aos meus inúmeros por ques. Ele, ainda incerto, teve medo de perguntar. Mas a hora não tarda. E agora juntos eu pergunto, por que eu tenho que me separar dele? Por que a gente tem que seguir uma cartilha que inventaram pra gente? Por que ele não pode me amar com todo o amor que eu tenho pra dar? Por que? Pois respondo. Não tenho que separar, porque eu o amo. Não temos que seguir cartilhas, porque não são nossas. Essas cartilhas nada mais são do que controle pra gente que tem medo de perguntar, e nós não precisamos disso. Ele pode me me amar, porque eu me amo. Se ele quiser, vou continuar perguntando junto. Vou perguntar pra mim. Vou perguntar pras outras. Pra ele. E não aceito nada menos do que a verdade da hora. Peço apenas que ele, também, pergunte por que. Pra mim, pra ele mesmo. Se ele não me quiser afinal com todos os porquês, a questão então se torna outra. Ainda assim vou perguntar: por que?