quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Condição.

Não é grave, não é grave pra você que não vive. Não é grave pra você que não sabe. Não é grave pra você que não se culpa. Grave. É grave não saber o que fazer. É grave não saber se o que você faz gera muito mais do que uma pressãozinha alta, uma merda de diabete que não te deixa comer aquela torta. É grave não saber se o que você faz, e o que é que você faz, te faz cair, te fazer esquecer, te faz se perder. Não é grave por que não são muitas, por que não é nem mais de uma por dia. É grave. É grave por que não sei quando e por que pode se tornar grave. É grave por que não quero me machucar. É grave por que não posso controlar. Foda-se se o problema é querer controlar demais. Foda-se. Análise pra deixar esse controle de lado. Por que? Quem disse que não posso querer controlar. Não é grave. Não é grave por que não é uma deformação física, tocavel. É grave por que não é palpável. É grave por que não pode ser consertado. É grave por que não tem jeito, não tem solução, não tem cura. É grave, porra. E você que acha que não é grave nem sabe o que é de verdade. É que nem homem que diz que parir não dói. Como diabos o cara sabe? É grave, é grave por que bate mais forte o coração quando acha que vai dar merda. Não é grave por que não causa morte súbita. É grave por que se pode bater a cabeça e morrer, subitamente. É grave por que devora a gente a cada risco que tomamos. É grave por que será que essa dose a mais vai me derrubar. Não é grave por que o remédio pode controlar. É grave por que o remédio pode não controlar. É grave por que, caramba, será que eu tomei hoje mesmo. Não é grave por que só dura uns minutos apagada. É grave por que nesse minuto posso ser tocada, abusada. Não é grave por que não é muita memória que se perde. É grave pra caralho perder minutos de memória. É grave não lembrar direito do dia seguinte e só lembrar o que insistiram tanto que se acha que a memória é sua. Não é grave por que você não se machucou seriamente. É grave por que manchou a melhor memória da minha vida. É grave por que eu tenho que esquecer o que eu nem lembro. Não é grave por que você não é sozinha. É grave por que quem me vê virando os olhos de prazer é quem me vê virando os olhos de crise. É grave por que estou na rua, é grave por que estou no taxi, é grave por que estou sentada assistindo televisão. É grave por que eu sinto que é grave. E é só isso que importa. É grave pra caralho.

Paris

Por que sentir ciúmes. Puxar pelo cabelo, jogar no chão, xingar. Louca, desvairada. Você não me disse que viria. Eu te conto até quando vou pra esquina. Não precisava te contar. Não devo satisfações a você. Ela. De propósito. A culpa é sua que fez ela não me contar. Você é o problema. Odeio. Jogar longe, no meio dos carros. Sou mais forte. Para com isso. Até da crise a culpa é dela. Tudo é. Por que você não confia mais em mim? Lembra de quando éramos só nós duas. Nunca fomos mesmo três. Você é louca, para com isso. Não me olha assim como você olha pros outros. O que foi que eu fiz. Olha o que você está fazendo com ela, deixando ela triste. Não vai embora, volta. Foi. E ela atrás. Puxo os cabelos que não escorrem entre os dedos. Feios. Horrível. E ela tão linda. Por que não me disse que estava aqui. Foge de mim, foge de nós duas, sai bêbada, desconfigurada. O que fiz. Tira do meu dedo essa memória, apaguem as fotos, sai da frente. De repente gente, muita gente. Toda gente que conhecemos no mundo. Olha o que você fez. Olha o que vocês fizeram. Olha ela, coitada. Desespero, corro, ela grita. A culpa é minha. Mas por que você não me contou que viria. Não confia mais em mim. Perdi. E um, duas, todos, onde está ela. Procuro, procuro. Já nem ligo mais pra raiva que tinha da outra. Basta não perdê-la. Perdi. Está perdida. Fez bobagens, perdeu pessoas. Mas era só me contar que viria com ela. Vejo. Vai, conversa, ela vai entender. Por favor me escuta. Vem pra longe dos outros. Confia em mim. Confia. Senta ao meu lado, na mureta, de vestido preto e com os olhos borrados pelo que causei. Eu preciso te dizer uma coisa. Desperto. O que vem depois?