sábado, 25 de maio de 2024
Innerbloom.
segunda-feira, 20 de maio de 2024
And the Oscars go to...
Not me, no. Pelo menos não o de protagonista. Não é exatamente também o de "coadjuvante". Não sou "co" de ninguém. Sou supporting. Em português esse termo não traduz. É que eu vim pra essa vida pra isso. Quem tem o prazer ou desprazer de entrar na minha vida encontra em mim uma mão pra segurar. Tive sempre medo de ser narcisa, mas o que me tornei foi espelho. Não que eu reflita os outros, mas seguro um espelho gigante na frente deles e tudo fica à mostra. Quando te olho, você vai se ver incrível. Ou vai ver tudo aquilo que precisa mudar, pra ontem. Se você está na pior, vem até mim que eu prometo vou te lembrar de quão protagonista você é. Mesmo que no fundo eu sinta que não é bem por aí. Se está bicho, vou te lembrar da tua humanidade. Se duvidando de que seja suficiente, vou encher sua bola até você lembrar de que é suficiente e o problema são os outros. Se anda melancólica, vou te ouvir por horas a fundo e te olhar com tanta admiração que te vai te dar alegria. No improviso, não vou ser sempre engraçada. As piadas não serão minhas. Mas vou te dar a deixa perfeita. Vou organizar a cena inteira pra você brilhar. Se você esquecer sua fala, vou te dar cola. Como dei na escola. Sempre batendo palmas pra amiga que era primeiro lugar e enxugando as lágrimas dela quando ela tinha a ousadia de duvidar de si. Continuo fazendo. Mas nas boas relações, como a da amiga-primeiro-lugar, eu também me enxergo grande. Talvez por isso ele e eu funcionamos desse jeito curioso, ele segura o espelho pra mim e eu pra ele. Acredito, enfim que ele hoje vê o incrível, e também o que precisa mudar. Acredito, enfim, que eu também esteja enxergando. Preste atenção, não há nada de ressentimento no meu papel. Sei o meu lugar muito bem. Cheerleader. Mais um termo que não traduz. É isso que nasci pra ser e pra sempre serei. Vim pra dar afeto. Capacidade de amor universal. Quando viram que cresceram, que alcançaram, que estão bem, muitas vezes dizem adeus. Se vão. As vezes sem a cortesia de dizer tchau, as vezes fingindo ser difícil ir, mas na maioria das vezes só indo, avec le temps. Tout s'en va, tout s'évanouit. Eu permaneço, insistente, narrando histórias alheias. Nasci pra contar a história dos outros. Aqueles que pra mim não seguram espelho me permitem até brincar de ser eles fora do palco. Mas logo vejo que ser outra que não eu, não é pra mim. Só no palco. Lá a luz vem em mim como eu vou nos outros. Nasci pra shed light on. Como aquelas luzes em sala de detetives de filme, um foco de luz no seu rosto te iluminando até que você consiga se iluminar sozinho. E se a luz estourar, sou eu quem vai pular na frente pra te proteger, como fiz há duas décadas em um hotel assombrado num banheiro úmido. E você, você nem sequer me deu adeus. Se aquela que me ataca te atacar, eu vou também voar 3 mil quilômetros pra te defender, como fiz há cinco anos. Você que diz acreditar que estou no seu time, mas ainda não sabe demonstrar e prefere as vezes brigar. Se a internet resolver que você é péssima, vou eu responder a cada um o quanto você é magnífica. Pedra preciosa. Você que foi a primeira, que nunca segurou pra mim espelho mas que eu também não quis imitar. Não digo que não tive ilusões de grandeza. Tive. Astronauta, diplomata, ministra, Sérgio Vieira de Mello. Desisti. Me convenci de que eu não tinha what it takes e fui pra sala de aula. A sala de aula é bem maior afinal do que um cargo qualquer. Resolvi trabalhar pela multiplicidade, não pelo meu próprio pódio. Agora nem mais isso, troquei o gostinho de me ver nos futuros protagonistas pela liberdade. E vivo livre, enfim sem espelhos pra segurar até que chegue a próxima. Agora transformo calada - ou melhor, escrevendo mal e falando por aí - o papel que escrevi pra mim. E subo no palco pra ser outras. Por aqui, carrego o espelho no bolso pra quem mais aparecer. Afinal já refleti tantos vocês que não espero parar por aqui. Continuarei sendo suporte. Ilumininando. Sendo trampolim. Na vida, best supporting actress. No palco, eu.
sexta-feira, 17 de maio de 2024
Incomensurable longing.
Ossington is now just another stop on my way to forgetting.
Yet I remember.
The door has closed and I can no longer see inside your life.
Yet I still feel invited.
You sent me a postcard with a couple of words.
Yet all I wanted was a long, unending letter.
It's a new city. A new girl.
Yet, you.
I wonder about the size of your smile.
How much teeth can she see?
I allow myself to think you'll never smile like you did with me.
I barely know you.
Yet I know you so.
I see a movie that couldn't be more different from us.
Yet the same.
What a happy ending. I cry.
My heart is full of certainties and decisions.
Yet I question. Yet it hurts.
I saw your mom the other day.
Yet you weren't there.
I dreamed of you.
Yet I woke up.
I've convinced myself it is just a nightmare.
Yet I sleep
With your clothes
In your bed
On your seat on the sofa's arm
In your city, within your life.
Yet me. Yet mine. Yet to be lived.
Yet to believe.
Just send me a word or two.
Yet don't say anything more.
Leave me longing, leave me wishing.
Leave.
Yet don't, not just yet.
quarta-feira, 15 de maio de 2024
Erros de português
Eu sou feita de porquês. Desde pequena tinha uma curiosidade gigante em entender porque as coisas eram dessa forma ou daquela. Mas enquanto criança, dificilmente alguma resposta era verdadeira. Ouvia que era a maldade dos homens. Que era assim que o mundo girava. Que não deveria nem perguntar, porque aquilo não era assunto pra mim. Perguntei por que minha irmã foi embora. Ouvi que porque ela nos abandonou. Porque era rebelde. Porque egoísta. Só aos vinte e tantos soube de fato porquê, e só ela pôde me dizer. Perguntei porquê a amiga gritava comigo. Por que as pessoas se maltratavam. Por que eu nasci com uma doença incurável. Cada mentira-silêncio-resposta, dor. Certa hora cansei de perguntar. Só agi, como quem duvidava. E passei a duvidar de tudo: deles, do mundo, mas principalmente de mim. Tentando me proteger da não-resposta, eu mesma parei de perguntar. Quando assim fiz, parece que o mundo perdeu o encanto. Foi quando me encontrei sem graça, desinteressante. Foi quando me desencontrei. Pra que perguntar, se a resposta seria mais uma mentira? Ainda assim, num empurrão que a vida dá, um porquê se deixou escapar: porque não tentar diferente? Voltei pra carteira da sala de aula. A pergunta do professor uma brecha, uma quebra naquele rígido sistema que eu mesma havia criado. De repente me perguntavam por que, e eu ousava responder. Falhava. Me corrigia. Ainda não sabia dizer tudo aquilo que precisava. Ainda não era hora de responder. Então segui. Cercada de pessoas cheias de certezas, perguntei enfim por que preciso ficar nessa cidade. Por que preciso seguir esse caminho que não me pertence? E sem resposta peguei meus porquês e fui. Parti. Partimos. Ele do meu lado. Ele que sempre responde os meus porquês com a mais pura verdade que tem no peito e na cabeça. Mas a vida é dessas que empurram a gente pra voar e de repente cortam nossa asa. Trancados em casa, isolados, fechados. Tantos, tantos porquês. Parei de perguntar. Não havia como perguntar porque tanta morte, por que não se comportam. A resposta era impossível. E vem a vida de novo. Mais uma vez um porquê escapou: por que não agora? E as portas se abriram de novo. Como duas crianças que descobrem o mundo ele e eu botamos a cara no sol. Eu, logo voltei aos meus inúmeros por ques. Ele, ainda incerto, teve medo de perguntar. Mas a hora não tarda. E agora juntos eu pergunto, por que eu tenho que me separar dele? Por que a gente tem que seguir uma cartilha que inventaram pra gente? Por que ele não pode me amar com todo o amor que eu tenho pra dar? Por que? Pois respondo. Não tenho que separar, porque eu o amo. Não temos que seguir cartilhas, porque não são nossas. Essas cartilhas nada mais são do que controle pra gente que tem medo de perguntar, e nós não precisamos disso. Ele pode me me amar, porque eu me amo. Se ele quiser, vou continuar perguntando junto. Vou perguntar pra mim. Vou perguntar pras outras. Pra ele. E não aceito nada menos do que a verdade da hora. Peço apenas que ele, também, pergunte por que. Pra mim, pra ele mesmo. Se ele não me quiser afinal com todos os porquês, a questão então se torna outra. Ainda assim vou perguntar: por que?
sexta-feira, 3 de maio de 2024
Randall Toronto
I laughed. I laughed at jokes that weren't meant for tropical fish like me. I laughed at jokes that I always thought I would never understand. I do. I get them more than I ever did with Rio. I walk these streets with a smile. I finally get all the the weirdly named intersections. Neighborhoods that are more like little towns on their own. At Ossington I smile, thinking about a rainy day when I was in love. At Union I no longer feel lost, it's my stage. At Islington I feel my blood flowing as I wonder whether he'll be waiting for me. College, nostalgia. Harbourfront, a longing for what never happened. Then there's the entire line one northbound, which I have just discovered. I go all the way up just to go down on her. Beaches, know them all. Nothing more relaxing than a Sunday at Hanlan's listening to Sun is Shinning and the weather is sweet. I've been naked in this city. Free from clothes, free from worry, free from fear. Free. I've always said that the choice between safety and freedom is a dumb one. You're not really safe if you are not free. You're not really free if you're not safe. I guess I am both. Safe and free. My safety is an oise(aux) on line two. My freedom, line one. I get to change lines not through the dark and messy corridors of Spadina, but through the ups and downs of St. George. It's almost like a cleanup. That much (n)oise. Sometimes I notice new places. They bring new people. I always preferred the Queen but boy did I love meeting King. Not because of King's posh bars of course, but because of all the queens I found there. Oh, how it amazes me. I walk down from Dundas to Shaw and I understand that I'm alone, yet perfectly accompanied by the birds, by the trees, by the people I haven't yet met. I'm writing in this odd language just to say how much I love you, Randall. I love taking that huge ferry to your Island and admiring my starfish while she cries over a swan. I love walking High (at the) Park holding his hands thinking of getting some Rocky Road. I love when he drives me away from randall, just so we can feel a little bit lost. I love sharing a cigarette on Bloor after dancing to the sounds of the Queen B. I love kissing the prettiest girl near the trains, knowing we'll only be a couple of kms apart. Holding her hands on the street and thinking fuck, we're free. I know she doesn't believe me, but sometimes freedom is compromise. I love myself here, Randall. I love that I found community, that I found support, that I found português, that I found a shoe that finally fits. I love that I don't hate the people I see, and that they don't care about me either. I love not dressing up. I love not asking him to dress up. It took me two hours to get home today and I did not care. Stuck in traffic and I did not care. I don't know if it's Randall's effect, or if it's the stage, if it's all the pretty girls, if it's me. I don't care. What I do know is that the cold never bothered me. The distance makes everything seem small. The fears that once controlled me, can't get to me at all. Yes, I know I'm borrowing those phrases. Be patient, I'm bye-lingual. En fait, trilingue. Mais je ne peux pas parler français chez randall. Pas Montréal! Il faux que je me sens où je suis. And using this goddamned language makes me feel even more yours, randall. I know, I know, you're colonial. Dish with One Spoon is what we hope for but so far only rich white people are eating. Like the tropics, you too are no Shangri-la. Actually, you do have a Shangri-la that I might be able to afford someday. Take the pretty girl for a night there. Or maybe he'll take me. For now, I'm good with taking the terrible transit commission system to and from. A starfish taught me to appreciate even the smelliest of TTC's cars. To always carry a book. To buy new headphones. I told her I'd live you, Randall. I told her I'd fight to feel the way I felt at Ossington, at Kensington, at the Island. I've been feeling, everywhere. And for now, I don't care that many of randall's townsfolk don't think I belong. I can't hear them, my headphones are blasting Brasil. I do belong, fixed English and all. Deal with it. This tropical fish ain't going anywhere, Randall. Just like you, I might have a thing for the tower. And I too shall become one.
quarta-feira, 1 de maio de 2024
santíssima trindade
Meu coração é um sujeito muito inconstante e imprevisível. Quem o fez parece que quis me pregar uma peça. Hoje comi algo que fez meu coração disparar. Não é a primeira vez. O médico disse que era pressão, logo eu que tenho a pressão sempre baixa. Não acredito que seja. Deve ser só mais um desses mistérios sobre o meu corpo que nunca vou saber a resposta. Já ontem, ele serenou e fechei os olhos em cima do celular. É que ela me surpreendeu. Logo ela que me traz os 169 BPMs, ontem trouxe a calma que sinto quando sentadas no sofá entrelaçadas estudamos cada poro uma da outra. Quando nosso olhar se mantém sereno. Não que haja algo de surpreendente em ouvir músicas que nos conectam com o que há lá fora, mas por mim. Andei afastada das músicas que me arrancam tímidas lágrimas. Que fazem disparar e pacificar meu coração ao mesmo tempo - assim, que nem ela. Andei afastada de gritar a plenos pulmões que nunca estive sozinha. Afastada pois confusa. Andei falando de como rejeitei a salvação porque me disseram que ela não incluía os meus. E de repente eu também me incluo nesse grupo, enfim sem titubear, enfim sem "mas". Não pensei, de fato, que essa resposta do meu coração ainda estaria ali quando a música tocasse. Estava. E pude dizer a ela que não se preocupe em pensar demais, por que ela é presente. Pude dizer que ela é calma na tempestade ao mesmo tempo que me provoca raios e trovões. Ontem pude dizer pela primeira vez a minha própria santíssima trindade: ancestrais, água, Ele. E novamente surpresa, agora com minha própria capacidade de explicar, sem ter que me defender. Eu cresci vendo meus amores chorarem por não serem bem vindos. Me reprimi achando que eu precisava ser. Ainda assim, não coube. Mas a música, essa sempre coube. Essa sempre acolheu, sempre me chamou, sempre me amou. Talvez então minha santíssima trindade seja ancestrais, água e música. E os loucos são aqueles que me dizem que a salvação não é pra mim, pra gente como eu. Que se danem os loucos. Fico com ela, com a música, com o coração a mil e a zero, salva.