Certo dia me disseram que eu deveria escrever mais sobre mim. Ser minha própria musa. Escrevo sobre tantas, tantos. Falo de estrela do mar, falo de bê, falo de amores passageiros e amores passados. Falo tanto e esqueço que amor eterno não há senão aquele que nos atravessa enquanto seres flutuantes em um universo de energia.
Ontem subi no palco e a casa cheia. O barulho das risadas abafando a batida acelerada do meu coração. Artistas da arte mesmo, daqueles que você para pra escutar quando falam. Daqueles que quero dividir o palco e quem sabe talvez a tela. Na plateia amigas, amigos, fãs até. Não sei bem se fã do meu corpo ou do meu talento. Pouco importa. Estava lá e trouxe três mais. Arranjei os pensamentos, desliguei a cabeça e fui. Fui princesa, fui idosa, fui inocente, fui atropelada, fui louca. Fui tudo que pude em um espaço de doze minutos. Fui eu e fui todas.
O que sempre me atraiu no palco foi ser outras. Antes, porém, queria ser outra por que não sabia ser eu. Não queria ser eu. Hoje, em uma nova primavera depois do degelo do ano passado, sou outros porque sou eu. Sei bem quem sou. Tenho rótulos e os arranco, pertenço e despertenço, tenho nome, sobrenome, história e futuro. Sou eu e ninguém mais pode ser. Falem o que quiserem de mim, não é sobre mim. Ajam como quiserem comigo, não é sobre mim. Não vou agradar. Não vou absorver o que não me pertence. Não estou aqui por vocês. É estando aqui por mim que estarei plenamente por todos.
Capacidade de amor universal, magia, luz. One of the good ones, me disse o moço no meio da rua. Não vou me esconder. Não vou esconder o tamanho do meu peito que bate aberto pro mundo e sangra quando vê quem ama chorar. Não vou diminuir o tamanho da minha paixão por vocês, por mim, pelo palco, pelo texto, pela arte, pelo mundo. Não vou ficar quieta na discordância. Não vou com o flow. Não. Palavra suficiente.
Do palco fui para o espelho e, com a mesma paixão que beijei Bê, me olhei. Me vi. Inteira, nua, minha. Não mudaria nada. Não seria outra. Brinco então com as minhas máscaras não na busca de me encontrar mas na certeza de me perder por alguns segundos. Perco-me porque hoje sei onde estou guardada. É seguro. Estou segura. Construi uma nova morada. Há para quem voltar. Volto para mim mesma.