terça-feira, 6 de março de 2012

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No escuro e no frio uma criança passou correndo. Depois veio uma mulher perguntando se eu tinha visto uma jeune fille passar. Pensei se ela estava fugindo, do que eu não sei. Pensei se nesse lugar há alguma razão pra fugir. Pode até ser que haja alguma emoção atrás dessas caras de perfeição, de simpatia e educação eterna, mas não me parece necessária qualquer fuga. Desse lado está tudo organizado, tudo certo, sem riscos, sem aventura, sem raiva. Mas do outro lado da cidade tem gente que teve razões para fugir, razões sentidas no corpo, na alma, na casa. Que se organiza para desorganizar o que os faz gritar, que a cada segundo passa por riscos mortais, que se aventuram no mar pra tentar chegar a uma terra onde acham que serão ouvidos. E tem raiva, tem muita raiva. Tem gente que não pertence à perfeição, que faz protesto contra o sofrimento de muitos em um continente distante. Em frente ao protesto, porém, tem crianças sentadas discutindo com palavras de adultos, sem desejos, só papagaios. Tem discussão, tem ofensas, tem ilusões. Em um salão muito bonito, debaixo de um teto colorido, tem tristeza, tem luta, tem pouca esperança, quase nenhuma fé. Entre paredes se abandona a condição humana, se age como peões em um jogo de xadrez. Trocam-se acusações e esquece-se que todas as acusações são verdadeiras, e que dizem respeito à vida dos outros. Esquece-se dos outros. Deve ser loucura viver nesse mundo à parte, falar em nome de uma entidade inexistente, defender o que nem se sabe se é correto. Aliás, não há correto, não há evolução, porém, há gente, há gente que sofre. Há alguém que grita pelo pai que é torturado em uma prisão por ter lutado pela liberdade, a filha do rei sussurra resposta de desprezo a esse alguém. É, a filha do rei. A mesma filha do rei que senta na frente de um computador e toca música pros outros dançarem. Questiono se é realmente a mesma pessoa, ou se quando ela coloca o crachá vira um robô. Questiono se quando passam do detector de metais baixa um santo, ou melhor, um demônio, que só pensa no interesse da entidade superior inexistente. Fala o dono do mundo, fala a igreja, fala alguém em nome de meio metro quadrado de gente no meio do oceano. Falam, falam, falam, são loucos. Só escutam o que possa ofender sua crença no soberano, para então falar de novo. São loucos por que se levantam com um nome na mão pedindo a palavra, um nome que na verdade não quer dizer nada. É quase uma pré-escola “professor, professor, quero falar, quero falar!”, a diferença é que ninguém tem nada a ensinar e pouco aprenderam. Talvez nunca tenham feito o dever de casa, e, na hora da prova, rasgaram-na, ofenderam o professor e, como crianças malcriadas, disseram que ninguém manda neles. Um dos alunos, esse um pouco mais razoável, afirmou que aquela sala é uma mistura de jardim de infância com manicômio. Pois que seja, mas que não se brinque com o corpo e cabeça dos outros! O mundo não é feito de bonecos, não são pecinhas coloridas no tabuleiro de jogo. São idéias, são sentenças, são sentimentos, são corpos com vida e dor. E é engraçado que se fala de liberdade ali dentro. A criança mais forte da escola, que pode bater em todos se quiser, fala que todos podem se expressar livremente. Mas como se expressar sem falar? Sem ter a voz respeitada? E se a criança feinha e pequena do canto da sala abrir a boca pra falar do dono do pedaço com certeza a resposta será dolorosa. E a dor não é do terno debaixo do lindo teto, a dor é dos esfarrapados debaixo do céu sem chuva, que pisam no chão da realidade, que choram com a fome que mata. A dor não usa crachá, não usa plaquinha, não tem cadeira, não tem conforto. A expressão dela não recebe microfone, não é traduzida, e nem compreendida, por que não se tenta compreender. A liberdade verdadeira não pode estar em um papel com a assinatura de uma soberania invisível, a liberdade não pode ser confirmada de acordo com normas objetivas e universais. A cada um cabe uma visão de mundo, a cada um cabe uma religião ou a ausência dela, a cada um cabe uma roupa, uma pintura, uma língua, um ritual. Essas crianças gostam de subir no palanque do professor e dizer o que é a verdade, o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim. Já nos mais avançados anos de escola da humanidade ainda se repete a velha história do evoluído e do selvagem, com o nome de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Mede-se tudo em termos de riqueza. Riqueza de quem? O que é riqueza? Felicidade pode ser só um botão, ou pode mesmo ser um iate, mas cada um conhece a sua. Cansa olhar a mesma brincadeira também no pátio, os grupinhos que se unem contra outros, mas que às vezes até tem o desejo de estudar. O grupo dos grandes sempre se une para criticar os pequenos, para tirar moedinhas do bolso e dá-las como se isso fosse tudo. Ninguém quer ser visto como malvado, ninguém quer que a coordenadora chame atenção pelo mau comportamento, mas ainda assim não sabem se comportar e sempre apontam a bagunça ao amiguinho. Cansa.

Vim sem saber bem o que viria, vim sabendo que ia ser feio. Mas é mais feio do que imaginava, não é sequer glamuroso, é fedorento, é triste, é exaustivo e arranca do coração a esperança no mundo. Arranca a esperança nas roupas sociais, mas dá espaço para a angústia e a fé de que a realidade lá fora tem força. Surge o sentimento de raiva, mas uma raiva que vem para mudar. Não se conforma, se chora, se descontrola. Vontade de gritar, e de rir. O que de bom sai é a fé em quem luta de verdade, a fé naqueles que continuam morrendo, mas que morrem tentando. A liberdade, não se sabe o que é, mas o que sei é que vale a pena buscá-la. Eu fico imóvel, perambulo tonto achando que deliro. Perco-me em tanta loucura. Nessa cidade o tempo para, o que vive no mundo não entra aqui. As pessoas, calma e tranquilidade. Os alunos, jogam xadrez sem uma poeira no terno. Vivo então em um domo de vidro, inatingível, espectador de todas as tristezas e glórias.Tento não esquecer que o mundo real existe.