Do outro lado da rua. Olho pra você, você para
o olhar. Espero. Vem. Não sei seu nome, nem quero perguntar. Em silêncio,
caminhamos. Já não te olho mais, não preciso. Com um passo apertado, falta
fôlego, sobra confiança. Entendo pra onde vamos, mas não sei onde. Sigo. Os
carros passam na velocidade que andamos, o barulho da rua é o que nos comunica,
não há porque falar. Não estamos em um daqueles silêncios de um tempo parado
por estar ao lado de um alguém, é barulho insuportável fora, que precisa entrar.
As luzes preveem o que vem, as informações deixam tonta. Engolimos a cidade para
então cuspi-la como quisermos, com a velocidade que ela nos ensinou. E vejo um lugar
feio, nojento. Não importa, sabemos que será sujo. E voltamos ao olhar, não tem
mais volta. Quero usar as palavras que quero, mas prefiro ficar calada do que
te assustar. Toque, cabelos, longos. Louros, compridos, seus. Olhos surpreendem
de perto, não imaginava. Mãos leves, doces, minhas. Cabelos, cabelos, rosto e
boca. Perto, muito perto e quente, ofegante. Suave, mas forte. Paredes e chão,
peito e costas, mãos e bocas. Tão frágil por que me faz forte. Não esperava o
controle, controlo. Você se deixa e eu te seguro. O suspiro que sai da sua boca
também é doce, seu gosto é de arco-íris, cheiro de lilás, pele de suor.
Brincamos, e rimos, e choramos. A cidade pela boca, a janela embaçada, o
barulho lá fora agora calou. Suas mãos, tão minhas, minhas, tão suas. Parte de
mim e todo, seu todo que eu preencho. Uma só. Dentro e fora, por dentro e por fora,
rasgamos. Rolamos, caímos, levantamos, nos jogamos. Sentimos, e sentimos o
suor. Toco, sua pele, seu rosto, seu doce, seu cabelo, sua cor. Não cansamos de
brincar. Pequena, cabe na minha pele, cabe na mão, na minha boca só quer ser
grande. O cigarro acendeu, o sorriso dela. O cansaço que dá sede. Vem, fica nos
meus braços. Prometo que te pego se você cair. Não te deixo, não me deixa. Mas
a cidade foi acordada, e o sol sobre os prédios. O trânsito de vidas que não
espera. Estivemos ali. E saímos. Obrigada, não mude, até mais. Adeus?