terça-feira, 25 de junho de 2024

Amor Quiosque

Te quis porque professora é. Sabe, é que eu tenho uma queda por ser aluna. Mas hoje logo vi que não haveria educação bancária. Só pedagogia da libertação. É que já sou outra. Foram-se poucos dias da última vez que recebi lição na carteira da sala de aula, mas parece que o mundo girou 365 vezes. Parece que passei de ano. Parece que recobrei os sentidos e entendi que óculos seriam mais adequados. Que não há motivo pra não querer enxergar direito. E te enxerguei. 

Como quem quer, disse sim. Sim pra qualquer coisa. Sim pra tudo. Sei que estou em uma fase de aprender a dizer não, mas de que adianta negar o que quero. Te quis e fui, navegando na sua tinta pra tentar te conhecer melhor. Afinal, não foram mais do que profissões e nomes trocados. E de repente você me lê. Não sei se o que escrevo tem mesmo algum valor, mas parece que nas palavras te despertei algo. Logo você, publicada, lendo essas aulas e banheiros. 

Doralice é doce feito caramelo com chocolate. Suas paredes tem algo de familiar, do tempo que eu visitava minha tia avó rebelde na Barata. E o Rio lá fora. As janelas ao nosso redor, tanto potencial. Tantas histórias. Você diz que não vê, mas as áreas de serviço tem literaturas de Carolina. Um dia você escreverá sobre elas ou sobre a sombra, mais uma. Essa sozinha, sem Marias e entrelaços. 

Um cigarro, dois, quatro. Manoel de Barros e você apegada nos românticos. Alencarina, carioca. E eis que encontro mais uma boca pequena. Talvez não é que seja pequena, a minha é que é gigante de vontade de devorar o mundo. Com você não seria diferente. Seus olhos pretos e profundos contam uma história que só quem também ensina conhece. Só quem também lê o mundo em noites mal dormidas. É que pra gente fechar os olhos é luxo. Corva, corvina, branca de neve. 

Mate-me então, e mais cigarros. Não vou te matar de curiosidade. Digo sim, só sim. Sem disfarces, sem desculpas, nem precisava dizer que era pela visita inesperada. Eu iria mesmo assim. Então ao som do fim de semana em uma terça feira você me leva pra navegar nas minhas águas. Tanta água, e você aquário. Eu disse que era pedagogia da libertação. Co-construção, sem ordens, sem hierarquia. Cabelos curtos que escorrem entre os dedos. Sua pele daquelas que há uns meses ouvi dizer serem incomparáveis. Caminho devagar pelo seu rosto, pelo seu pescoço. Toque. Linguagem. 

Como se não bastasse tanta história, em poucos minutos você me diz que nem pareço aluna. Meu braço tremendo mas continuo confiante te escrevendo. Você me chama pra te assistir e eu aqui, com você. Sua boca de repente enorme, e eu que fiz ela crescer assim. Seu brinco uma jóia iluminando seu ofegar. Meu corpo tremendo e poder te abraçar. Ressignifico aquela música de olhar pro nada aos doze anos, olho agora pra você, vinte e um anos depois. Abril, no Brasil, mas já é Junho e eu escolhi me queimar.

Queria ficar nesse quarto. Ficar te beijando os ombros, as costas, a tinta. Mas tive que ir. Ya no me quedo más. Recentemente ouvi dizer que havia em mim uma capacidade de amor universal. Espero que você hoje possa ter sentido um pouco desse amor. Bendito quiosque.