Sinto que nasci fora do eixo temporal ao qual pertenço. Meu corpo de mulher é dos anos 50. Minha dança dos 80. Sonho e luto como quem marcha em 68, fumo e amo como quem experimenta os anos 70.
Penso que sou eu, mas não sei bem quem sou. Acho que meu pai teve como filha em parte sua mãe. Maria Helena, eu. Vivia ela no teatro, na plateia, assistindo. Eu então subo no palco. Teatro de costumes, comédias tipicamente cariocas, e eu que fui-me embora. Tenho sua cor, seu corpo, sua coragem. Cartas e mais cartas de amor e a felicidade de ver a casa cheia.
Mas sou também Ana. Ana-camaleão-Luiza, o segundo nome define a marca. Minha mãe diz que não sei quem sou porque fui muitas, desde pequena. Pintava o rosto e fazia papel de bandido. Chorava e sentia todo o amor de uma Julieta. Arrancava o peito de dentro de mim só para sentir o que era viver sem coração. De cara lavada punha meus óculos e ouvia atenta ao professor. E então subia no salto e professora virava. Já fui muitas, muitas mais ainda serei.
Não é o que querem. Querem-me de uma cor só. Querem que eu escolha. Querem que eu me defina, me encontre, me encaixe. Não. Quem vaga não está perdido. Quem busca nunca encontra. Nunca tive um só sonho, nunca amei uma só pessoa, nunca tive um só humor. Prefiro a multiplicidade e a falta de mapa. Prefiro a vida livre, com espaço pra mudar e mutar. Ser várias sendo um só. A única unidade que me define é o amor, infinito, universal.
Amor, mas já não me interessa agradar. Camaleão sim, concordante, não. Sou mais mulher que muito macho, mais macho que muita mulher. Sou dualidade, meio, switch. Não cedo, não quebro, não entorto. Digo sim e digo não, por mim, por nós, pela vida, por prazer. Nem adianta tentar me dizer maldosa, sou cruel com a necessidade do meu próprio sentir. Radical. Tive que ser. O mundo não anda para peixinhos desacreditados. Nem tubarão, nem estrela do mar. Nado como quem continua sempre a nadar, procurando sem saber o que procura só pela sede de procurar.
Vivo a vida por acaso. Não quer dizer que não haja um motivo ou um porque. Vivo pro mundo, pra juntar gente, pra fazer rir e chorar. Vivo andando depois de muito tempo parada. Vivo voando depois de década sem asa. Eu mesma cortei, eu mesma recriei. Há dias em que fico imóvel, durmo, dias que dói. O que, nem eu bem sei. Parece que é só a dor do mundo que vez ou outra se aloja no meu peito e me joga na cama.
Ainda assim, levanto. Ando. Canto. Danço. Amo. Transante e transeunte. Continuo, cam(b)aleando pelo caminho. As vezes atordoada, as vezes equilibrada, dias em dúvida, dias em certeza. Vida transbordando de curiosidade pra saber quem virá. Fragmentos de outras e ainda assim plenamente eu. Fora do meu tempo e ainda assim plenamente dentro dele. O tempo fica e passa, eu não permaneço.