sábado, 27 de dezembro de 2025

sem estrutura

 Como pode ter gente

Que vive sem mar.

Vive sem ver o tudo,

Sem ver o mundo 

Só até o fim do olhar.

Como pode viver sem sentir 

Não sei,

Vivi. 

Ver bastava, me dilacerava.

Como pode tanto querer 

E pouco dar. 

Fugi do mar, me fui a nadar

Muito perdi,

Agora posso boiar. 

Ganho também as ondas 

Que vez em quando mudam

Molham e me fazem chorar.

Como posso finalmente viver

Só pela curiosidade 

De ver além-mar.

Água salgada que desce a bochecha,

Que me faz respirar.

Mereço meu choro.

Mereço meu sopro

Porque me amo

Tanto quanto há mar.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

invisível

 A verdade está no brilho dos seus olhos

na luz que sai da sua retina

quando você me olha.

A verdade é um sorvete depois de um baseado

um pão bem degustado

água gelada em onda de calor.

A verdade é nova como quem ressuscita 

pois já antes houve

mas tampouco era a mesma.

A verdade é carregar peso de baixo d'água 

Parece difícil.

Não é. 

A verdade anda escondida em história 

viva em memória 

carregando nós duas.

A verdade é o que te faz ficar e vir

já que no fundo 

sabe que não precisa. 

A verdade talvez você nem saiba 

mas eu te perdoo 

por não querer saber. 

A verdade é plena e viva, é nossa sempre

mesmo que invisível,

existente.




sexta-feira, 14 de novembro de 2025

colo

 O corpo é uma coisa engraçada que sente, que controla. Andei tensa, enrijecida. Tentei um abraço que pouco resolveu. Tentei o prazer. Relaxei finalmente no seu colo amigo. Dessas amizades transcendentes. É preciosa demais, eu concordo. Como podemos nos sentir seguras assim em outros postos, não sei. Há que preservar. Os colos andam poucos e incertos. Demos sorte. 93% e compatibilidade estelar máxima. Eu ouvindo suas dores, você as minhas. Não troco por nada. A liberdade de dizer o que penso e de ouvir verdade. Raro. É preciso cuidado. Ainda assim guardo esse abraço-enlaçe com carinho. Quero te ver crescer, conquistar o que você merece. Sem precisar de atalhos ou favores de quem quer te controlar, não amar. É preciso que você também tenha cuidado. Consigo. É preciosa demais. Nas minhas mãos não deixo quebrar. Brigo com todas pra que você seja feliz. Lealdade, coisa que você tanto me ofereceu. Amores amigos são tão maiores que todos que vivi. Não há dúvida. Quando vivo romance, duvido. Não há certezas, e por isso talvez eu precise de tantos. Amigas como você, apenas certezas. Certeza de que esse abraço será sempre porto seguro. Ando assim, me derretendo por conexões outras. O universo tem sido bom comigo. Trazendo em amor toda a dor que passou. Dividir é preciso. Hoje durmo nos seus braços na memória e no sonho e finalmente descanso. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

diário

 Muito já senti saudade. Muito já tive que esquecer. É curioso que esquecer seja um ato do cognitivo quando estamos esquecendo um sentimento, e a memória, essa continua lá. Sinto como uma adolescente escrevendo no seu diário letras de uma música de pop rock brasileiro ao lado do seu nome.  Busco nas suas músicas respostas, pistas. Busco nos seus vídeos sentido. Você fica tão desconcertada ao meu lado, sem jeito. É charme mas não pode ser, afinal pra que seduzir quem não se quer. Talvez te dê prazer, mas não acho que seja seu caso. Seu caso é medo, pânico. Não há o que resolva. Não há corridas no aeroporto que te tragam até mim. Não há qualquer florescer interno que te faça assumir o que sente. Guardo então as memórias e esqueço o sentimento. Como um pedaço faltando no meu coração e uma faca nas minhas costas ao mesmo tempo. Ainda não sarei. Não sei se algum dia irei. Sei que tento. Busco as borboletas e o desejo e os 160BPMs mas não acho. Há quem me devore mas ninguém como você que devora meu corpo e minha alma quando olha nos meus olhos. Você sabe a potência que se instaura quando nosso olhar fixa uma na outra. Tenho que te esquecer, porque de meu bem você não vai me chamar. Porque chamou, não sei. Ou melhor, já disse que sei: você me ama. Pena não me quer. Nessas horas penso que entendo poemas dilacerantes. Entendo efervescências violentas de paixão. Entendo porque agora mesmo abriria meu peito e acalmava meu coração. Arrancava ele do peito e te dava nas mãos. Já te dei, e você disse não. Ficarei então em silêncio, chorarei e cantarei por você, por nós. Dói, mas passa. E se não passar, passo na sua casa. 

domingo, 5 de outubro de 2025

cidadania

 Eu ando a viver aqui fora,

Ando a viver assim, vivendo.

Vivo fora querendo estar dentro,

Sonho com as ondas do mar. 


Estive dentro querendo sair

Estou fora mais do que dentro.

Navego pessoas tentando

Busco amor novo crescendo.


Vivo olhando pra trás 

Vivo olhando pra dentro

Da minha boca inglês só sai

Porque preciso estar sabendo.


Não sei o bem que me faz 

Na minha casa te por pra dentro

Meu coração aperta pouco respiro

Sua presença é todo momento.


Vivo fora e dentro

Vivo por mim e Vivo por nós 

Aprendo a amar sozinha

A viver tal como o vento. 

domingo, 28 de setembro de 2025

take me to church

 O sol toca minha pele, ilumina, queima. Dentro de mim fogo, fogo como nunca antes experimentei .  Vontade, desejo, ódio, amor. Vontade de viver, de caminhar pelos caminhos ainda não feitos. Desejo de alcançar aquilo que não foi alcançado, que é meu. Ódio de quem me suga, quem me usa e mente, incapaz de pedir perdão. Amor por quem me nutre, quem me desafia a ser eu todos os dias, porque qualquer outra não seria por eles amada. Dizem que olhar pro verde por vários minutos gera dopamina. Sem dúvidas arder assim também. Todos esses hormônios revoltados, rebeldes que mal permitem respirar. Deixem-me ir, vou alimentar vocês. Se é isso que a configuração astral deseja, assim seja. Um calor, em pleno setembro, beirando outubro. Sinto que estou envolta nesse calor astral. Subo minha voz como o mundo tem subido a sua. Titânio. Sentir é força. É conectar sua alma a alma do mundo. Fraca é aquela que se enterra em negação da própria natureza. Ser titânio e ainda assim, arder. Subo no palco e a luz que me cega é a mesma que me guia e nutre. Pode atirar, vai. Vou espernear e gritar. E então vou te desprezar. Contenho multitudes e não posso parar. As vezes queria ainda mais. Ir nesse barco arder junto em defesa da vida. Mas entendo que meu lugar é aqui. Vou então gritar. Não me verão calar. Não me verão esfriar. Essa luz vai continuar crescendo a cada outro que encontrarei. Seja quem em mim atire, seja quem a mim abrace. Nós somos assim. Nós que vibramos com as ondas do mar, que carregamos as missões dos nossos antepassados. Nós que erguemos a voz sem dúvida da justiça dela. Nós que esperamos pra ver porque confiamos na humanidade. Nós que quando então vemos, explodimos. Tem sido uma longa jornada. Uma difícil jornada. Libertei a mim mesma para então poder me juntar a tarefa da libertação.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

musas

 Ainda lembro você 

Se balançando devagar

Dizendo: adoro essa música 

Tomando um café 

Olhando lá fora.


Era primavera e ela

Foi minha primeira.

Dizendo: suficiente não sou 

Já não falo daquela,

Falo dessa, que aqui não está.


Era verão e eu a vi

Pela primeira vez.

Dizendo: ela é minha mulher

Agora digo dessa,

Que minha não é. 


Houve obra de arte

Houve peixe e aquário 

Passaram tão rápido 

Pouco deixaram

Pouco vivi. 


Encontrei passarinha

Que não voa sozinha

Morando tão longe 

Ficando difícil 

voar pra lhe ver.


Ando procurando 

Não estou achando 

Onde está você?

sábado, 30 de agosto de 2025

Pilula da verdade

 Vejo uma confusão de barulhos, vozes, risos. Mesmo quando estou sozinha ela não vem. E aquela que achei mágico o encontro, também não. É engraçado o quanto me engano. Não sei se é ingenuidade, se é loucura, se é dificuldade. Sei que sempre entendo errado e dou com a cara na parede. A noite está fria, o pão de beijo acabou e o silêncio continua. Silêncio, em meio a tanto barulho. Tenho vontade de ir embora. Não vou. Não posso permitir mais que esses encontros controlem meu caminho. Não posso entrar em uma espiral de sonhos imbecis e amores inexistentes. Queria que me amassem ou ao menos fingissem consistentemente. Não amam. Fingem dia sim, dia não. Não sei o que sentem. A cada vez que se cruzam nasce uma trincheira e eu no meio. Não escolhi isso. Ela nisso me colocou. A escolha não havia: perde-la ou aceitar. Aceitei. Ela também. Não era o ideal, não era o que ninguém queria. Ainda assim, esquecem que eu, e somente eu, dei tudo que tinha. Queria o mínimo. Ser tratada feito gente. Gente como sou. Como fui com ambas. Queria vontade, sinceridade e não escolhas extremas. Odeio fazer escolhas. Ainda assim sou forçada a fazê-las a cada esquina a cada respiro. Não é possível que assim seja. Tratam-me como se objeto fosse. Pegam o que querem e me descartam. Seja ela, seja a outra, seja ainda uma terceira. Tratam-me mal. Sequer me tratam. E eu vivendo no meio disso tudo com o peito aberto e o coração cheio. Poucas vezes desejei mal a alguém. Pois agora desejo de volta apenas aquilo que me dão. E o que me dão é péssimo. Como se eu robô fosse. Que se vão, então. Pra longe de mim, muito longe. Adeus a ela, adeus a todas vocês. Ou aprendam a me tratar feito gente que tanto deu, ou vão-se embora igual fez a terceira. Quando perceberem que me fui, não estarei mais aqui para retornar. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Troubles

 Tem duas de mim ainda muito presentes, uma fantasma, uma vivendo. Já tive muitas outras mas na distância do tempo se guardaram, se esvairam. Essa outra não. Fantasma porém viva. Um conjunto de memórias e sentimentos atrelados a uma vida que já não é mais minha. You could have had it all. É o que sempre penso. Talvez essa fantasma ainda consiga fazer o coração palpitar, a cabeça descansar. Mas eu que vivo já não sei o que fazer. Estranho. Não sei quem é você por que não sou mais quem fui. Você também é outro. Uma casca diferente, uma vontade outra, uma liberdade além. Era o que eu queria. Sei hoje que a responsabilidade era minha de me dar. Mas essa que é fantasma não sabia. Tentei de tudo pra que você ficasse. Te dei todas as pistas e todas as verdades. Você não quis. Seu outro eu ainda não havia nascido. Se tivesse talvez ficasse, não sei. O que não poderia era ser eu sendo a fantasma. Você me diz querer que eu fosse fantasma com muito do que você hoje vê. Sem tantas mulheres, talvez. Não seria possível. Pra que eu fosse eu era preciso que eu fosse inteira, era preciso que eu nascesse. Mas isso, você já não queria. É uma impossibilidade, então. Pena. Pra mim, fantasma ou eu, sempre é possível quando se ama alguém. Não é posse. Não é dependência. É escolha de amar em liberdade. A cada dia escolher amar. Como escolhi por tantos anos. Eu já te amava assim, com uma quase liberdade que não podia ser. Você poderia ser livre, se quisesse. Poderia acreditar que estar com alguém por escolha cotidiana é maior que estar por promessas de para sempre. Não quis. Agora já não sabe bem o que quer mas pensa saber o que não quer. Eu assisto e calo minha fantasma. Um abraço e tudo vai, tudo vem. Estranho. 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

birdie girl

 The universe keeps listening to me. Like it knows what I need. On a Monday I felt all the stars. Her eyes like tinny black marbels, filled with sorrow and yet, a glow. The pain she carries doesn't weight her down. It makes her float. In a world of superficial conversations and individualism, her touch connects me to the universe. It's like she dances through thin air. She sweeped into my life with a short "yes, please". No time to waste. No texts. Just a certainty that we had to meet. Neither of us knew if we would follow through. Yet here we are sharing words sitting on the grass. Here we are learning each other's world. Each other's pain. So many crossings. I listen and our fingers intertwine when she tells me she's been there. It's like our fingers belong like that. As if we're old friends, she comes to stay. To wake up by myside. I dreamed of making coffee for a beautiful woman someday. Kissing her neck and hugging her from behind. Suddenly it's her, a birdie girl but with a different letter, standing on my kitchen, laying on my bed. I know she's in pain. Or worse, in numbness. But I know I made her remember what's it like to feel. To experience. To connect. And I know that I just gave her some ground, the standing and walking was all her work. Strenght. From the words stuck on her throat comes her story and her sweet, sweet voice. Just like a singing bird I finally hear her in the distance. Timid, yet hers. Timid, yet alive. Timid, yet filling up the room with melody. Timid, yet Robyn. I said I would never rush things, but with her we aren't rushing. We're swimming in an open ocean, carefully holding on to eachother to face the waves. We drift apart, yet we remain connected. I wish I could see her face everyday. I wish I could hear her singing everyday. I wish I could take away all the pain and watch her float through the streets, as she does, yet painlessly. I am me and she is an entire universe. Awakening, she says. I say let's lay down and sleep, her head on my chest, her soft voice on my mind. Not even scared, because she sets me free. We set each other free. Finally somewhere I can breath. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

TTC

The train stops. Someone told me they loved taking the subway. Told me to bring a book and earphones. I started doing it but now no more books, it's too fast of a commute. Oh, well. There's an unusual glow between these strangers. Their eyes all cross paths. An old man reads with much eye effort. A girl plays on her phone indifferently. Is this how it ends, with all these strangers? Not that I'm thinking something would happen but wouldn't it be peculiar? I imagine the lights flickering. Maybe it's zombies, maybe it's aliens, maybe it's the Americans. A tall beautiful woman rests her curly haired head on the plexiglass. The bike man looks at me. He's got one of those large, heavy bikes. Looks stable. Is the stability his or the bikes? A large bearded man sleeps and wakes up, sleeps and wakes up. We are surrounded by concrete and Billy Joel sings about Vienna in my ears. So many phones. It's most definitely not zombies. Weird times we live in. Constantly worrying about our collective end yet wanting it to be destroyed so bad. Keep the people, down with the system! Wait, the bike man is looking at ne again. He looks curious. Maybe because I'm silently singing and dancing. What else am I supposed to do if this is the end, or even if this is the beginning or the middle. We shall move. Unlike this train. No announcement. Just silence. It's oddly silent. Maybe it's the time. Maybe it's just my deep desire for novelty. It is a curse, wanting it. Not quite sure what. But seeking, always seeking. Like the family with their baby looking at stations on the map. They seem happy and new. I've been there. Now I'm just an old torontonian admiring  the concrete and the trees. Not here. Here I just see walls and we are not moving. So many people. What's their story, where are they going where am I. I am going home. Here and there. And more. Grew up traveling and moved away and away again, both young. Now I'm at the last place I ran to. No more running. Especially because this train isn't moving! Everyone just looks tired. The student rests on his backpack. The bike men looks at me again. I am tired. Ah, there it goes. We move again. I get up. I breath. 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Valsa para Maria

 A vida é arte

Sem pintar não respiro.

Desenho as cores 

do arco íris e penso

que não sei pintar.

Desenho maluco,

vontade danada,

De forma alguma

impossível de imaginar.

O que se imagina se é 

Se pinta e se banha

Se leva e se vai 

Amor é liberdade 

Dançar com quem se dança mais.

Ver os passos da bailarina 

Nasceu estrela,

Maria que brilha,

Que faz brilhar. 

No caminho magia

Sem ela sem vida

Tudo caminha

Pra tudo mudar.

Lavar a alma Maria

Pra um novo sonho

ela nadar.

Voa Maria, 

que eu te espero,

Um dia e outro

Você vai retornar.

Pra mim e pra eles

Pra elas e todas

Maria é do mundo,

E sempre será. 

sábado, 2 de agosto de 2025

wine and weed

The last time I saw these waters 

I wanted to die.

Now I look at the waves

I hear their cry

I ressonate

Yet I hope 

To live one more day

And another

And another

More.

The universe plays a long game 

I don't understand.

Yet I hope 

To fulfill it's wishes

And that its wishes are

What i crave.

The music flows through me

I see her

And she

Yet I hope

I will stop wanting 

All who don't want

Me.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

one of those motivational things

You must take the inward turn.

Not for isolation,

For love.

Love of yourself, 

of the girl you once were. 

You must honor your dreams

Not let the days pass by, high.

For the sake of life,

For the sake of living.

You must walk on the street and capture

The flowers

The houses

The heat.

You've felt what love is.

But now you get to meet

Unconditional self love.


quinta-feira, 17 de julho de 2025

Encruzilhadas

 Encontros são milagres. Em cada vida que vivemos experimentamos cruzamentos que mudam nossa trajetoria irreversivelmente. Há poucos anos cruzei com Maria, que me levou a cruzar com Be, que me levou a cruzar comigo mesma. 

Gosto de pensar que aqueles que me encontram ficam com boas novas. Com bons sentimentos, boas sensações. Nem sempre consigo. Ano passado cruzei com uma cacheada que não deve ter coisas boas de mim. Principalmente por que a vida de repente me levou a cruzar com Anny, que era sua. Diferente dos cachos com Anny, eu escolhi deixar coisa boa na mão de Be. Queria que Anny tivesse me encontrado naquele dia. Quem sabe então a coisa boa com ela estaria.

Meu encontro com Be me mudou. Se Maria me acordou e me pôs a sentir e sonhar, Be me fez olhar pra mim mesma com os olhos dela. Não os olhos com óculos escuros que me pintavam feia, má, cruel, desleal. Os olhos nus de Be, seus olhos reais, que me enxergavam. Pena Be não soube que estava claro demais para usar óculos escuros. Eu sei, contradição. Mas é que olhar direto para o sol queima, com ou sem óculos. Sempre fui sol. Cega pela luz do sol, ela viu o que ali não estava, e então interferiu nos meus encontros.

O universo não gosta de quem busca controlar encontros. Não gosta de ser desafiado em sua capacidade de fazer conhecer. E então uma bela hora ele joga tudo pro alto, retira os bloqueios, limpa os caminhos. E assim acabou Be sozinha, e o encontro que ela tanto temia foi bem mais milagre do que se não tivesse sido proibido. 

A menina da casa precisava me encontrar. Eu precisava da menina da casa. Nosso encontro em comum com Be era bem mais em comum do que qualquer ser humano gostaria que fosse. A menina da casa então ficou. Abriu os braços e as portas e eu fui. E de repente me vejo rindo e sorrindo pra além dos limites de quem se achou grande demais e pensou poder controlar o destino. A menina da casa é troca e cuidado, então respiro uma nova amizade.

Não desejo a Be a solidão. Desejo encontros como o nosso, que transformam a vida. Mas que no próximo Be não brinque com o caminho. Não destrate quem não anda sozinha. Não olhe pro sol achando que vai apenas se alimentar de seu calor e energia sem se cegar. Que caminhe, Be, pela encruzilhada do destino. 

Eu sigo. Permaneço. Re-encontro Peixe, converso horas com Obra de Arte. Divido os dias com Maria, sou amada por Laís. Me permito ainda mais conhecer em um novo corredor, dentro de um elevador. Falo na rua, descubro semelhanças, exploro conexões. Construo pontes e desato nós.

Pouco importa o que fazem comigo, importa que eu siga maleável no destino e inabalável na fé. Fé de que a vida é feita de encontros e que cada um deles serve um porquê. Fé de que deixar o bem na vida de quem passso é deixar o bem pro universo. Fé nos meus passos e no meu Eu. Fé na magia. Fé no que me atravessa. Fé nas encruzilhadas da vida.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Poeminha para Anny

Eu bem procurava

Cabelos pequenos 

Olhos morenos

Sorriso cedendo.


Tal amiga queria

Calças compridas 

Corpo esculpido

Pés desatados.


Anda pelas ruas

Cachorro menino

Amigo querido 

Coração desvairado.


Pede um cafuné 

Sâo fios de seda

Sono pesado

Na cama nem penso.


Prova de tudo

Do fluxo da vida

Fluida ela é 

Menina e menino.


Cuidado carinho 

Amor gostosinho

Dá um abracinho

Uma amizade que só.


Teu sotaque é meu

Meu sorriso é teu,

Agradecida.

domingo, 6 de julho de 2025

ilusão

 Sonhei que nosso amor era de rufar tambor. Que sem querer a gente se re-apaixonava. Que a gente se amava. Sonhei com um amor na liberdade. Sem grandes acordos pois o óbvio consta. Não faria o que ela fez, estando naquele lugar. Onde estou, não sei o que fazer. Não me agrada todo esse poder. 

Sonhei que a gente se entrelaçava mais uma vez. Que a gente desaguava juntas. Sonhei com o que houve e o que achei que haveria. Nunca te quis só pra mim. Liberdade, disse você, disse eu. Confiança. Lealdade. Ao invés disso, mentiras e controles. Como se bonecas fossemos no seu jogo da vida. 

O que te dei não tem preço. E por isso mesmo o que cobrei foram palavras. Presença. Proteção. Ganhei silêncios, ausências, ataques. Pedi amizade, certeza, lealdade. Ganhei dor, dúvida e desconfiança. Olho pra trás e vejo o rastro de destruição. Não compreendo. O que você fez está além do meu entendimento. 

Sonhei com você correndo atrás dos sonhos, dando as mãos pra nós. Navegando relações com a facilidade que navega as mentiras. Sonhei, acordei. Você tem outra pessoa dentro de você que me acordou aos berros. Derrubando minha porta esbravejando. Confundindo liberdade de ação com liberdade de consequência. 

Se está doendo, que doa. Em mim arrancou um pedaço, manchou uma história, transformou sonho em pesadelo. Não sei nem como desatar esses nós. 

terça-feira, 1 de julho de 2025

versinho (2)

 Procuro um amor

Que não ache sufoco

Quando a gente quer estar junta.

Procuro um amor

Que seja amiga

Quando eu precisar de apoio.

Procuro um amor

Que queira muito 

Quando for o futuro

Ser feliz.

Procuro um amor

Mas não acho

Encontro pistas e pedaços

Amores muitos e secos

Procuro um amor

Molhado.

terça-feira, 17 de junho de 2025

nota sobre eles

Ela é magra, delicada, reluzente. Ele urso, carinhoso. Entre eles amor. Amizade. Tesão. Uma vida inteira juntos. Construindo do nada toda uma história, um legado. Não sei se me assusto ou me atraio. Hoje ela brilhava, rindo. Fiz que ela risse. Ele também riu. No holofote sabendo quem me observa, êxtase. Termino meu show e não me calo. Falo pelos cotovelos. Eles e seu carro tecnológico. A vontade é de ficar, mas eles tem uma vida pra voltar. Eu também tenho. Ando subindo em palcos mais aplaudidos. Mais gente tem me visto. Parece tenho fãs. Quem venha me ver. É uma nova sensação. Mais uma dentro de tantas novas. Dois. E eu. Acordo todos os dias e me engasgo na quantidade de tarefas, não consigo mover. E então eles me suspendem um pouco de tudo. Respiro, despreocupada. É como entrar e ser acolhido em uma fortaleza. Potente. Nem sei porque escrevo nessa língua que eles nem vão entender. Mas é que só o Português tem o que de poesia que é preciso pra falar deles. Sabe amor com sabor de fruta mordida? Não entenderiam, mas é o que são. E eu me permito. 


sexta-feira, 13 de junho de 2025

para Ana

 Escrevo pra que eu possa me lembrar de mim. Antes que eu me perca. Para que se eu voltar a ser bicho, eu volte a ser gente. Andei, e vi. Vivi. Errei. Sobrevivi. 

Disse não por mim. Disse não pra ter mais de mim. Ter meu tempo de volta. Lá atrás larguei sonhos. Agora neles me agarro, pra que eu me mantenha curiosa. Morri, renasci. Vivi quatro vidas. A quinta é minha favorita. 

Disse sim por curiosidade. Por que será que tanto insiste. É preciso saber. Olhar. Sentir. Tocar. E de repente perdida nos meus pensamentos dentro dos seus olhos. Sorri, chorei. Ri sem parar. Fiz rir. 

Olho pra trás e finalmente vejo o que outros veem. O caminho que percorri, as escolhas que fiz. Se diferente fosse aqui não estaria. E é aqui que quero estar. Dando tudo de mim por mim. Por ninguém mais. Aprendi a nadar, já disse. 

Danço e falo e rio e a vida passa assim, leve. Falo do meu coração o que vejo. Não consigo calar. As vezes falo demais. As palavras são tantas e passam tão rápido que parece que preciso as por pra fora. Não é ideal. Mas não sou ideal. Sou um pouco de tudo. 

Admiro minha companhia. Meu reflexo no espelho. Não sei como tanta dor me trouxe aqui. Tanta escolha. Planos enormes, disse meu tio também que coragem tenho. Me enxergo do meu tamanho. Contemplo ao som de maria+ana, you've been good to me and I've been good to you. 

Tantos amores. Tanto amar. Transbordo. Amo por intermédio. Protejo. Não sei não amar. Faz parte do meu experimentar. Do meu viver. Amo tantas, admiro. Acolho. Aprendi a ter comunidade. A pertencer de novo. Meu mundo é esse. Minhas casas são muitas.

Escrevo pra te dizer que fique, que nunca mais queira ir. Que lembre dessa noite, dos amores, dos caminhos e do tamanho. Ocupe o tamanho que tem no mundo. 

domingo, 8 de junho de 2025

memórias póstumas de uma tentativa

Viver como vivo as vezes mata. Eu cansei de morrer. Ninguém me faz pegar fogo como Bê. Ninguém me faz chorar como Bê. Hora escrevo do nosso amor, hora escrevo da minha dor. Não mais. Desde a última primavera morri, ressuscitei, morri de novo, ressuscitei de novo. Já perdi as contas de quantas vezes. Essa semana morri por Bê pela última vez.

Não digo que não morrerei nunca mais por outras razões. A vida é imprevisível demais pra que se tenha certeza da não-morte. Mas o tempo veio passando e as minhas mortes foram diminuindo. Meus lutos foram diminuindo. Fui reconstruindo minha vida, meu caminho, meu chão. Ontem contei pra minha mãe: tenho planos de médio prazo pela primeira vez. Não quero morrer mais. Quero estar viva e quero caminhar. Quero viver os sonhos que me convenci serem impossíveis a tantos anos atrás. Quero ouvir meu nome mais vezes. Quero lê-lo mais vezes. 

Parece que o ciclo se fechou. Closure, eles chamam. Eu não podia desistir de Bê sem tentar. Tentei. Não deu. Não dá. Não deixei meu pente de madeira pra me acomodar em um de plástico que tanto me despenteia, descabela. Não. Meus cabelos são belos demais pra não receberem cafuné. Meus cabelos são belos demais pra viverem presos. 

Eu me dou. Corpo, alma, cabeça, palavras, atos, planos. Não quero mais quem não me queira por inteiro. Não quero quem tente me convencer de que transparência e entrega são assustadores ou limitantes. Não. A verdadeira liberdade está em não precisar medir passos, palavras e beijos. A liberdade é se dar pro outro e receber o outro em troca. Não por que se depende dele, mas por que se ama. Incondicionalmente. Verdadeiramente. 

Eu busco a paz desde que de casa sai, aos dezessete. Nunca soube quais os termos dessa paz. Tentei encontra-la me fazendo menor. Não ocupando muito espaço. Não falando. Deixando de lado os sonhos que pareciam incomodar ou desafiar demais. Dizendo sim pra tudo e todos. Não me trouxe paz. Trouxe um falso senso de conforto que toda vez que era quebrado virava morte. Não mais.

Sinto que agora sei qual é a paz que busco, e já a encontrei. Estou me despedindo de bê há um tempo. Já desde o meu ano novo certas coisas se tornaram inaceitáveis. Se os 33 foram de milagre, os 34 são de trabalho pra fazer acontecer. Trabalhei em Bê, tentei. Tentei tudo que pude e não posso mais por que paz não há. Se posso dar paz ao meu coração é o que darei. Afinal, meus sonhos são grandes demais, meu nome é grande demais pra qualquer outra opção.

Tenho planos de médio prazo. Sei o que quero de mim, do mundo, da minha futura mulher. Ou homem. Sei quem sou e qual o mundo que me sustenta. Qual me suga. Qual me cura. Estou pondo os cintos de segurança pra passar pela última tempestade que Bê terá. Do outro lado, um sol vai renascer sobre o que nos conecta e enfim haverá paz. 

Tudo o que dei foi de coração. Sei que bê nunca vai me esquecer. Que nunca vai deixar de ser grata, mesmo que não saiba expressar. E basta. Espero que Bê finalmente aprenda a amar quem a ama. Que pegue o que dei e faça o bem nesse mundo. Que lembre de mim quando o lado escuro das coisas chamar e não vá. Espero que Bê seja feliz. Eu serei feliz, pois já sou. Mais uma vez morri, mais uma vez vivo.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Sufocante

 Estou aqui escrevendo para marcar o dia em que você me perdeu. Estou escrevendo para te dizer que hoje, já não posso mais aceitar. Estou escrevendo pra lembrar que sou mulher demais para você. Fique com seu tesão, fique com sua insegurança, só não fique comigo. O parto que foi você ir me assistir no palco.

Estou escrevendo pra dizer tudo aquilo que já disse pra mim mesma. O drama não sou eu, é você. É você achar que o mundo gira ao seu redor. Lá vem você novamente dizer que eu te sufoco apenas por eu querer estar com pessoas que você está. Quem as conheceu fui eu. Quem construiu fui eu. Quem te deu fui eu. Queria eu que fosse sobre isso, mas a verdade é que enquanto você me fazia pensar que o problema era a minha ação, você assistia todo um grupo mentir pra mim, calada. Desleal.

É cansativo crescer, evoluir, mudar, e você parada no tempo. Fiz tudo o que você me pediu. Te dei amor, cuidado, carinho, suporte, todos os dias. Mudei meus planos por você. Dei meu tempo pro seu bem. Não mais. Não tenho tempo, não tenho paciência, não tenho sequer lágrimas mais pra chorar. Não tem salvação se só uma de nós quer fazer diferente. Minha liberdade não foi fácil de conquistar. Não estou disposta a joga-la fora para caber no mínimo espaço que você me disponibilizou pra estar na sua vida. Não cheguei até aqui pra me diminuir por você. Pra ser usada apenas quando necessária. Incluída apenas quando confortável. Meu papel não é, nem nunca será, te deixar confortável. 

Se o que você queria era uma saída, cá está. Meu coração não te quer mais por que não quer mais chorar. Meu corpo respondeu em alto e bom som: chega. As vezes eu preciso sentir na pele pra me escutar. Pois escutei e digo que você não me merece. Chega de mentiras e meias verdades. Sua sorte é que mesmo ouvindo que por seis meses você me aguentou só pelo papel eu não vou ser cruel  e te tirar o que de coração te dei.

Encerro por aqui te dizendo novamente: você se esforçou e conseguiu. Parabéns, você me perdeu. Se estava sufocada, pode respirar a vontade. Se estava ocupada demais pra falar um oi, vá se ocupar ainda mais. Se tudo que eu digo, faço e sonho te assusta, fique sem mim. Se sou difícil, fique na facilidade de viver sozinha. As mãos ao redor do pescoço são as suas próprias, no seu. O jogo acabou. Bem vinda a minha estante. 

sábado, 31 de maio de 2025

Bsmt 254

 A música me involve e faz transcender. Me sinto em casa ao som do familiar. Ao som do novo, me sinto curiosa. O mundo lá fora é complexo demais. Meus pensamentos são complexos demais. Na batida do som eles aquietam, acalmam. 

Descobri que faço parte de um grupo de pessoas que em geral muito se incomoda com música alta. Nisso, diferente somos. Do lado da caixa de som as notas entram por todos os meus sentidos. Me inundam. Respiro. Respiro profundamente. Vivo. Nada importa. Tem quem ache estranho. Não vou explicar essa sensação que é só minha, sem me entorcepecer senão pelo som. Eles não entendem.

Ando ocupada, atrasada, cansada. Ando feliz. Ouço Reconvexo, saúdo a Oxum, dois e dois como quando a dança era pertencimento. Hoje não, hoje é minha. É minha e de ninguém mais. O tempo, a vida, os amores, meus. Eu. Pertenço ao meu próprio corpo. A minha própria alma.

O suor escorre, a perna cansa, continuo. É que não dancei suficiente nessa vida. Atrasei. Pois agora vivo, como posso, quando posso, porque posso. A vida ilumina a gente. As luzes também me atraem. Em mim, mais. Gosto de estar nos refletores. Por isso subo no palco, seja qual palco for. Aplaudam-me de pé.

Eu sei quem sou. Por isso quero ir. Quero dançar em outros idiomas. Meu tempo é precioso demais. Não posso ficar parada. O relógio não para, a música não para. Não vou deixar de seguir o ritmo. A quem que seja anuncio: dance comigo, ou me deixe livre pra dançar. 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

medo bobo

Maio e nós novamente.
Não me arrependo de te beijar.
Tenho medo de que quando o verão chegar
Você vá à praia com todos 
E esqueça de me levar.

Te quero livre,
Te quero solta,
Te quero real,
É claro que te quero. 

Primavera e nós com aliança.
Não me arrependo de assinar.
Tenho medo de quando julho vier
Você me esqueça novamente
Sem me dar a chance de dizer que está tudo bem.

Me quero viva,
Me quero voando,
Me quero eu.
Aprendi a me querer. 

Flores e eu quero que você entenda,
Eu sou grande demais pra caber nas suas caixas.
Tenho medo de você não me enxergar.
Você com outras não machuca.
Você me usando, sim.

Nos quero múltiplas,
Nos quero rindo,
Nos quero entrelaçadas na cama.
Nos quero como somos.

Tulipas e cerejeiras e um rio entre nós.
Não me arrependo do amor que ontem declaramos.
Tenho medo de tanto, de tudo
Mas o que floresceu ano passado é espécie rara.
Por ser rara eu chorei, esperei, insisti.

Preciso da noite de ontem e de hoje
Preciso de uma mensagem e de silêncio
Preciso te ver do palco e do sofá
Preciso de muito e de nada.

Quinze primaveras que amei,
Mas nunca amei assim.
Acho que finalmente entendi
Todo o medo que você carrega.
Felizmente, Valente. 

domingo, 25 de maio de 2025

casca.

Certo dia me disseram que eu deveria escrever mais sobre mim. Ser minha própria musa. Escrevo sobre tantas, tantos. Falo de estrela do mar, falo de bê, falo de amores passageiros e amores passados. Falo tanto e esqueço que amor eterno não há senão aquele que nos atravessa enquanto seres flutuantes em um universo de energia. 

Ontem subi no palco e a casa cheia. O barulho das risadas abafando a batida acelerada do meu coração. Artistas da arte mesmo, daqueles que você para pra escutar quando falam. Daqueles que quero dividir o palco e quem sabe talvez a tela. Na plateia amigas, amigos, fãs até. Não sei bem se fã do meu corpo ou do meu talento. Pouco importa. Estava lá e trouxe três mais. Arranjei os pensamentos, desliguei a cabeça e fui. Fui princesa, fui idosa, fui inocente, fui atropelada, fui louca. Fui tudo que pude em um espaço de doze minutos. Fui eu e fui todas. 

O que sempre me atraiu no palco foi ser outras. Antes, porém, queria ser outra por que não sabia ser eu. Não queria ser eu. Hoje, em uma nova primavera depois do degelo do ano passado, sou outros porque sou eu. Sei bem quem sou. Tenho rótulos e os arranco, pertenço e despertenço, tenho nome, sobrenome, história e futuro. Sou eu e ninguém mais pode ser. Falem o que quiserem de mim, não é sobre mim. Ajam como quiserem comigo, não é sobre mim. Não vou agradar. Não vou absorver o que não me pertence. Não estou aqui por vocês. É estando aqui por mim que estarei plenamente por todos. 

Capacidade de amor universal, magia, luz. One of the good ones, me disse o moço no meio da rua. Não vou me esconder. Não vou esconder o tamanho do meu peito que bate aberto pro mundo e sangra quando vê quem ama chorar. Não vou diminuir o tamanho da minha paixão por vocês, por mim, pelo palco, pelo texto, pela arte, pelo mundo. Não vou ficar quieta na discordância. Não vou com o flow. Não. Palavra suficiente. 

Do palco fui para o espelho e, com a mesma paixão que beijei Bê, me olhei. Me vi. Inteira, nua, minha. Não mudaria nada. Não seria outra. Brinco então com as minhas máscaras não na busca de me encontrar mas na certeza de me perder por alguns segundos. Perco-me porque hoje sei onde estou guardada. É seguro. Estou segura. Construi uma nova morada. Há para quem voltar. Volto para mim mesma. 

sábado, 17 de maio de 2025

Bê.

 Last night was one for the books. You know how powerful we are. You order me via Uber and I deliver my body and soul. I hope you enjoy your meal. We get home and there they are, the endless minutes looking into your eyes. You look into mine and you see all of me. We wait. We take our time. Rufus plays and if you want me, I'm yours. You touch me and every inch of my skin feels you. You go on top of me and we become one. I breath into your ears and wisper my heart and soul out. I know you hear me even if I don't say a word. We don't really know what we are doing yet we know exactly how to make each other feel good. We know how to hurt, we know how to heal. Some say we're crazy. We don't care. We live in a sacred bubble of love and sweat. I feel your lips pressing against mine and an ocean flows between us. It's not just me anymore. I make you flow in your waters. I like to hear you moan as if you were a gentle princess. I like to be your toy, your doll, your brat wife. I like it when you leave a mark. I like it when your head is between my legs and you feed off of me. I like it when our kisses are just embraces between our faces and tongues.  I like it when you let me play you too. I like it when I'm inside you and I too make you crazy. I'm free, yet I'm yours. I could spend all my hours dancing on your lap. I could wake up on your spoon and still be wet years from now. As long as you're happy, as long as I am, we set each other free. I  A year to bloom and the timer now rang. O pão de beijo está pronto. We did the work first and now we reap. Smiles, moans, waters and pleasure tears. Make me crazy, make me love you, make me free. 

sábado, 10 de maio de 2025

Orelha/Menina-Moleca

Meu tio Flávio era um sujeito

engraçado.

Bebia, fumava, fodia.

Ria. 

Depois de tanto morrer

vivia.

Meu pai e Flávio eram irmãos 

da rua.

Ana Nery, no Rocha, no Rio,

subúrbio, asfalto.

Riram, viram, muito amaram

afastaram.

Dei sorte da meia idade bater 

na porta.

Como se sobrinha fosse tio

me adotou.

Tio Flávio, Orelha, pra mim barba.

Calvo, moleque.

Brinco do Mickey, macacão jeans

cigarro, sorriso.

Deu o fim da festa cansou, saiu

à francesa.

Sempre gostou de uma, jabuticabeira.

Acho que Tio Flávio te mandou

pra mim. 

A alegria moleca da Ana Nery

em Toronto.

sábado, 19 de abril de 2025

artists

I never thought I would fall for you. I didn't see the days pass, I didn't notice. My mind wanders thinking of the backroom of the theatre we work at. Suddenly you are with me and things feel a little bit better. 

I was on my mind last night. Stuck. Anxious. I should enjoy the moment. There goes time. My brain works and works and it doesn't stop. Sometimes I can't stand still. It's tiresome. But I persist. You let me talk it through. You let me breath. You let me remedy it. You come with. I'm carrying my load, but so many others. 

I like your lips and how full they are. How you smile with the dimples but also with your lips. Your face changes. You look beautiful. You always do. I like how you take me and feel me as I too smile. I look beautiful. I always do. 

What made me resuscitate two Falls ago is what connects us. The stage. The art of make believe. Of stories. Of points of view. See, I have many. One is that when we are together life is a little less heavy. We have this little dance and I feel the lights coming on. You always give your maximum. I like it. I try to mimic it. I'm giving you all I can give for now. I hope it is enough. 

I haven't been writing much. Where are my muses, I wonder. Should I seek them for the sake of it? Should I live heartbreak yet again to feed this voice inside of me? It seems unpleasant, unfortunate that this voice can't be silenced. Yet it is her who makes me my whole me. No more denials, never again, I said. Feel it. The good and the bad.

Yet us. Our bodies enlaced breathing together as if walls to our own little world. That beat between you and me, those sweet kisses, and all denials are yeses and that voice quiets. I'm feeling it. You can't be a muse, so maybe I should be yours. And the voice shall quiet bending to my ownself as you feel me. Princess, I said. I'll play pretend as long as it turns you on. As long as I make you smile, I'll be me. But just because you make me feel so good. 


sexta-feira, 18 de abril de 2025

novela de uma quinta a noite

 Como uma aranha imersa em uma teia de amores e promessas você se enrola. Vejo nos seus olhos a tristeza. Está escuro e todas dançam, mas seu corpo carrega um peso de incerteza e indecisão, insegurança e dor. Ofereci tudo, você não quis. Você não soube me amar. Ela te ofereceu tudo, você também não quis. Agora você sem saber o que busca encontra apenas o caos.  Quem você agora quer não é só um novo brinquedo. Mesmo que você diga não se envolver, sente ciúmes. Dela, da outra. De mim? Não sei, e pouco importa. Eu rio. Não estou feliz pela sua tristeza, mas confesso que toda essa trama é realmente curiosa. Complexa, porém simples. Outra, você, ela, eu, tantas mais. Muito amor e pouquíssimo amor. Como um pêndulo você nos afaga e nos larga. Digo para mim mesma que não faz sentido você mal falar comigo. E então percebo que você se afundou nessa trama e não é sobre mim. Não é sobre nós. Você se trata mal, não se permite sentir por inteiro. Em meio a tanta gente, por que não dançar conosco? Em meio a mulheres perdidas, chatas, outras, por que não escolher nós duas? Acho que você precisa provar pra si mesma que não é amável. Que não é digna de nós duas. Viés de confirmação. Na multidão eu vejo seus olhos cansados. Foi você quem criou essa teia. Foi você quem desejou os fins que não encerram. Foi você que não soube ter paz. O drama não é meu, nunca foi. Segue em frente. Eu não vou olhar pra trás. Se um dia você desfizer a teia, não sei se estaremos mais aqui. Cuide. Eu penso no papel. Ao menos ela pode ser livre de te ver se enforcar na própria teia. Eu assisto e permaneço. 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

2+2

 Some days I wake up 

And I dream of our future.

I dream of our home,

Not quite my style outside

Very much mine inside.

I dream of our boy,

Our first born,

the little you.

I dream of him playing in the yard,

Throwing you a ball,

That you don't really know how to catch.

You want him to take up basketball, football.

Or at least hockey.

But his mind is stubborn, like yours,

And all he can see is baseball.

I dream of the honey colored curls 

Of our second born.

Our little me.

She's bright but because you are her mom

She's not afraid to show it,

She's not afraid to try.

I dream of us four, singing terribly in a car

Driving to the cottage.

Taking a plane, visiting home.

You work so much and I do dream 

Of how i will complain one day.

But I dream of me, too.

With my big office and my big name,

On the door, the screen or the stage

Leaving work because I need to cook.

I dream of dinner at home,

Even when you are mad at me.

I dream of us. Of me.

I dream and I fall asleep.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

aninha

Como posso ser adulto

E com uma palavra 

Vem a criança.

Como posso ser adulto

E com o medo de te ver ir

Vem a criança.

Como posso ser adulto

Se não fui direito criança?

Senta reto, se comporta, 

Mocinha

Mondronga.

Como posso ser adulto 

Se criança já adulto fui?

Como posso ser adulto

Funcionar, andar, não doer

Se nos meus sonhos 

De raiva me debato, com ciumes choro,

Contra meu pai grito?

Como posso ser adulto

Se cada passo que dou a sombra de uma dor

Tem o meu tamanho infantil?

Como posso ser adulto

Se adiante ando e a cada adeus

Volto.

Como posso ser adulto

Se a infância é o chão que a gente pisa a vida toda

e o meu chão está partido. 

quinta-feira, 3 de abril de 2025

6 novembro 2024

 Minha solidão é uma pedra que teimosa recusa a se mover. Minha solidão é uma onça que na noite abocanha minha pequena vida. Minha solidão é uma plateia de desconhecidos me aplaudindo. Elogios de quem não me conhece. Vazio.

Minha solidão dói feito domingo a noite. Dói quando eu te vejo e imagino nunca ser sua. Dói quando vejo outras e sei que ali também não há lugar pra mim. Minha solidão dói feito quarta-feira de cinzas, com você um Carnaval.

Hoje me deixei quebrar, partir. Você brincando com ela. Sem cuidado. Se foi e o que era nosso ficou pra outra cuidar. Minha solidão é não ser ouvida. É assinar um papel como se uma lista de presença fosse. Nunca nem essas assinei sem lá estar. 

Minha solidão é egoísmo. Meu egoísmo é meu colete salva vidas. Me prometi que não morreria de novo, e cada vez que te sinto, morro um pouco. Você sequer tem coragem de me dizer a verdade. Não há meio amor. Minha solidão é contra meios amores. Minha solidão é escudo. 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

caminhando

 Amo como quem anda por aí a toa, vivo como quem caminha sem destino. Andei reparando que sempre achei que morreria cedo, mas não morri. Preciso fazer planos, é preciso por ordem. Meu mundo é um tanto bagunçado. De tal maneira que funciona. Claro, alguns atrasos e sustos aqui e ali são inevitáveis. O relógio nunca foi meu amigo, prazos sempre me irritaram. Mas a verdade é que sem eles não faço. Ando meio cambaleando, vou achando meu equilíbrio dia sim dia não. Estou com ela e não estou. Estou aqui e não estou. Dou, não dou. O caminhar dos dias parece uma estrada difícil de andar algumas tardes. As vezes parece que voo numa noite estrelada. Descanso, movimento, vínculos, palco. Tem receita e não tem. Por que quando estou do outro lado é porque falhei em tomar pelo menos um dos remédios, ou nem foi suficiente. Não é sempre possível escolher. Ando por aqui como quem vive, de volta a vida que não tive. Escrevo mais do que nunca, leio menos do que lia. Escuto música 12 horas por dia. Preenche o vazio. Anima o espírito. Tento tatear no escuro mas é vão por que o universo faz o que quer. Tem, não tem. Pra onde eu vou nem sei. Mas vou dar o passo. Ando em frente com vontade com força. Parei de me machucar a toa. Larguei de querer que ela me escolha. Encerrei o sofrimento. As vezes dói, mas o que dói já não é mais ela. Tenho força pra levantar. Resiliência, dizem, mas pra mim é só sobre me acostumar. Ando com meus pensamentos e meus amores, ando cheia de mim, ando feliz. 

terça-feira, 25 de março de 2025

mother

 Cruel, maldosa, mentirosa

These are words she said about me.

Pele feia, orelha grande, mondronga

These are words she described me with.

Senta feito mocinha, sorri, para de chorar

These are words she commanded at me.

Unha na cintura, pulso apertado, beliscão

These are ways she treated me. 

Procurando espelho, fase, não precisava saber

These are things she said to me.

Amor, carinho, incentivo, cuidado. 

Como pode alguém ser tão 

multifacetado. 

These are also what she gave me.

These are things I wonder.

Ela é o que pode, fez o que pode, oferece o que tem

These are things I forgive. 




sexta-feira, 14 de março de 2025

forró

See you later, foi o que eu disse pra ele. Pra você diria mais tarde te beijo, te abraço e beijo seus pés. Pra você eu diria que ouvir que quem quer que seja te tem e eu não é como fumar dez cigarros seguidos. Tontura. 

Pra eles, pouco. Ah se não fossem os olhos mais bonitos dessa cidade. Se não fosse a covinha charmosa com o riso solto, largo, que marca seu lugar. Se não fossem seus cachos que correm soltos e brilhantes pelas suas costas. Ah, se não fosse o jeito que você olha pra mim na nossa bolha. O jeito que você ri comigo fora dela. 

Eu queria não te achar a mulher mais linda do mundo. Queria te achar difícil, mas só consigo te achar humana. Vou te dar um abraço de leve, mas o que quero é deitar nos seus braços todas as noites. Queria te ver de costas e só as vê-las, mas o que vejo é o mapa do seu mundo me chamando pra viajar. Queria que seus olhos fossem apenas olhos, mas são duas joias que eu quero fazer brilhar todos os dias. 

Dizem por aí que formamos um bom par. Acho que a torcida está do meu lado. E você sabe que eu sou uma que você vai querer dizer: é minha mulher. Como digo de você pro mundo. Digo que é admiração de pessoa como se eu não ficasse de joelhos cada vez que você sorri. É desesperador, as vezes. 

Viver a vida com você tem um que de emoção. Se emoção é arte, isso que estamos vivendo é uma obra prima. Uma Capela Sistina. Mal posso esperar pra próxima vez que eu vou te fazer rir e você vai me ver no palco, no holofote. Meio cinema, meio loucura. Me tira pra dançar e me deixa tonta. Isso que a gente vive.

Isso que não tem nome, que resiste a qualquer encaixe perfeito que inclui nada e tudo. Nada na verdade, tudo no papel. Mas também não é exatamente nada. É alguma coisa, isso. Não cabe em nenhuma caixinha. É que nenhuma de nós cabe. A gente se cabe.

Pode fazer o que quiser, até me machucar. Transborda no meu coração só amor. Roubei essas duas por que não é karma, é só o universo funcionando. Sei que não posso, não devo, que não é isso. Aceito. O que há sempre vai ser melhor do que te perder. Aos poucos acostumo e deixo de tanto te querer. Penso que as vezes são também ondas, e passarão. Ando sensível, não é boa hora pra te dizer tudo isso. Melhor calar. See you later. 

pente 3

 As vezes eu me pego pensando em você, em nós dois. Sou transportada para nossa casa, nosso quarto. Sou transportada pros nossos melhores momentos, e os piores não existiram. Parece que sofri sozinha e era apenas uma escolha. Que se eu escolhesse diferente, seria diferente. Que se eu fosse diferente, seria diferente. Não consigo entender. 

Por que você não pode ser quem você está sendo agora para mim? Por que eu não pude ser quem estou sendo para você? Por que não nos esforçamos mais um para o outro? Por que jogamos fora o tesouro que construímos? Por que eu tive tanto medo quando tudo que você me dava era coragem? Por que não levantei da cama, não me exercitei, não me amei como eu deveria? Por que você não me amou como sua igual? Como sua parceira, a ser defendida com unhas e dentes? 

A gente se deu tanto e tão pouco. Viramos um só e não deixamos espaço pra respirar. Não que você não tenha tentado. Eu nunca deixei. Você foi fiel, mas não foi sempre leal. Eu fui leal, mas nem sempre fui fiel. Eu sempre te daria o mundo e deixaria de viver por você, mas nunca foi isso que você me pediu. Por que você não me disse para parar? Por que você me deixou só ao invés de me dizer que eu precisava aprender a ser só? 

Eu sempre sinto que já tenho o amor da minha vida na minha vida. Não vou dizer que tenho certeza  que não é você. Mas também não posso dizer que tenho certeza que é. Eu sei, minhas incertezas sempre te arrasaram. Tudo que você queria eram respostas definitivas e promessas infinitas, mas eu não pude te dar. Não pude te dar por que mal sabia quem eu era. Como saber de tanto futuro? Como ter certeza? Precisei caminhar distinto. 

Não me arrependo do que escolhemos. Ainda assim, sinto sua falta nos momentos de silêncio. No seu lado da cama. Sinto falta da nossa vida calma, mas não quero voltar pra ela. Sinto falta, mas não consigo voltar atrás. Sou outra, você é outro. O que havia já não há. É absurdamente triste que tenhamos deixado morrer um amor assim. É isso que mais me dói. 

domingo, 9 de fevereiro de 2025

a shot of vodka and a espresso martini

I was minding my own business when you appeared. Crying my pains, overthinking my mistakes, replaying my failures. You came and dared to make me smile. You disturbed my downward spiral and took me up. I had to see what all the fuss my brain did was about.

We talked for hours. First thing and here we are talking about it all. Dreams, loves, the stages we've been. I imagined you at the Globe, and thought of when I was there, dreaming of doing what you do. You kissed me on the subway and my body went to dopamine rush. 

You saw me on stage tonight and it made me bolder. It made me want it more. It made me want to make you laugh. Made me want to make you want me. I know you did. Finally, someone who understands it.

You tease me, you disarm me. You make me question my decision to not want more of you. You make me want to take off my clothes and sing. I want you to take off my clothes and sing. It's a Pisces thing, we say. Magnetic. 

You have a certain sweetness to you that completely disappears when you want to. It is an enebriating change. Watching your eyes, your voice, your demeanor. And I'm just here playing me. You have tons of characters and I just want to play you all night long. 

Keep making me laugh, I beg of you. I'll keep you on your toes. I will wear all the sportsbras. I will dance and make you smile. Keep teasing me, I beg of you, and I'll give you several performances of me. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

work of art

 I didn't know what to expect. You are always so kind. So light hearted, yet fierce. What first got me were your eyes, the way they shine. Or maybe it was simply the way you are. The way you act, talk, laugh, smile. That little grin on your face when you want to keep your tough pose, but you are really just blushing. I'm fascinated with you, hearing your stories, your goals, your complaints. Your anger, a sweet, purposeful anger. The way you doubt yourself even though you know you will overcome whatever comes, because you're a survivor. Like me. Different, yet similar. I didn't think you would make your way into my mind and heart. Being apart and yet getting to know you more than ever. Sharing stories, pictures, projects. Picturing us fishing. Playing tennis. Riding your dad's boat. Sitting on a pier by the lake and the time standing still. Sleepovers and warming you, shielding you from the cold. Taking you out and saying you are mine. I was trying to keep you as just a friend. But then I see you and I remember kissing you. I want to kiss you again. So, so badly. The way we connect and I just want to hold you. If you say no, I will still be here. You are too precious for me to loose you even if it hurts a little. I'm used to good pain. Yet I want you. I wonder.

life space

 How many lives can I live

sitting at a bus stop,

waiting for the train?


How many lives can I see

boarding a plane,

crossing the street?


How many lives do I live

when I am choosing 

where I  want to be?


How many lives will I live

waiting for you to decide 

where you need me?


Oh the many lives I will live

as I wait 

to meet me.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

roxo

Sinto que nasci fora do eixo temporal ao qual pertenço. Meu corpo de mulher é dos anos 50. Minha dança dos 80. Sonho e luto como quem marcha em 68, fumo e amo como quem experimenta os anos 70. 

Penso que sou eu, mas não sei bem quem sou. Acho que meu pai teve como filha em parte sua mãe. Maria Helena, eu. Vivia ela no teatro, na plateia, assistindo. Eu então subo no palco. Teatro de costumes, comédias tipicamente cariocas, e eu que fui-me embora. Tenho sua cor, seu corpo, sua coragem. Cartas e mais cartas de amor e a felicidade de ver a casa cheia. 

Mas sou também Ana. Ana-camaleão-Luiza, o segundo nome define a marca. Minha mãe diz que não sei quem sou porque fui muitas, desde pequena. Pintava o rosto e fazia papel de bandido. Chorava e sentia todo o amor de uma Julieta. Arrancava o peito de dentro de mim só para sentir o que era viver sem coração. De cara lavada punha meus óculos e ouvia atenta ao professor. E então subia no salto e professora virava. Já fui muitas, muitas mais ainda serei.

Não é o que querem. Querem-me de uma cor só. Querem que eu escolha. Querem que eu me defina, me encontre, me encaixe. Não. Quem vaga não está perdido. Quem busca nunca encontra. Nunca tive um só sonho, nunca amei uma só pessoa, nunca tive um só humor. Prefiro a multiplicidade e a falta de mapa. Prefiro a vida livre, com espaço pra mudar e mutar. Ser várias sendo um só. A única unidade que me define é o amor, infinito, universal. 

Amor, mas já não me interessa agradar. Camaleão sim, concordante, não. Sou mais mulher que muito macho, mais macho que muita mulher. Sou dualidade, meio, switch. Não cedo, não quebro, não entorto. Digo sim e digo não, por mim, por nós, pela vida, por prazer. Nem adianta tentar me dizer maldosa, sou cruel com a necessidade do meu próprio sentir. Radical. Tive que ser. O mundo não anda para peixinhos desacreditados. Nem tubarão, nem estrela do mar. Nado como quem continua sempre a nadar, procurando sem saber o que procura só pela sede de procurar.

Vivo a vida por acaso. Não quer dizer que não haja um motivo ou um porque. Vivo pro mundo, pra juntar gente, pra fazer rir e chorar. Vivo andando depois de muito tempo parada. Vivo voando depois de década sem asa. Eu mesma cortei, eu mesma recriei. Há dias em que fico imóvel, durmo, dias que dói. O que, nem eu bem sei. Parece que é só a dor do mundo que vez ou outra se aloja no meu peito e me joga na cama. 

Ainda assim, levanto. Ando. Canto. Danço. Amo. Transante e transeunte. Continuo, cam(b)aleando pelo caminho. As vezes atordoada, as vezes equilibrada, dias em dúvida, dias em certeza. Vida transbordando de curiosidade pra saber quem virá. Fragmentos de outras e ainda assim plenamente eu. Fora do meu tempo e ainda assim plenamente dentro dele. O tempo fica e passa, eu não permaneço.