Quantas mortes vivemos em vida. Não só mortes de carne e osso. Nascemos e assim vivemos a morte da simbiose com quem nos carreg. Caminhamos, comemos e morre assim nossa total dependência. Morre uma versão de nós. Crescemos e cada versão de nós se vai, seja com o tempo, seja com o trajeto.
Vida é pra ser sentida. De tanto sentir, morremos dentro dela. Morremos de cansaço, de tédio, de dor. Morremos de amor. E a dor é tão grande, tão onipresente que a gente precisa sentir na pele. Parece que o que está fora não ser o que está dentro faz doer mais ainda. É uma outra morte.
Perder alguém, separar, perder o rumo, questionar quem se é, essas também são mortes em vida. Coração partido, amizade acabada, expectativa desprovida de realidade. Cada um vive uma imensidão de despedidas. Não volta. As mortes em vida são tão inescapáveis quanto a própria vida e a própria morte.
Quando nos perdemos e reencontramos o luto é de nós mesmos. Nos dias em que é possível suportar o luto de mim mesma, sobrevivo. Vivo. Rio. Bebo. Falo. Humana sou. Nos dias em que não, o luto é a própria morte. Me desespero. Me perco. Grito. Humana ainda sou.
Tantos de nós nos entorpecemos pra aguentar o luto. Tantos de nós buscamos o prazer. Ainda outros choram, outros calam, outros dormem. Eu de tudo tenho feito. Certa hora passa, dizem. A morte se vai. Renasce-se. O luto se encerra. Esse luto. Logo na próxima esquina outro virá, e continuaremos vivendo.
Tempo de sentir é em cima da terra. É vida.