Eu te falei que você era real demais pra isso aqui. Agora que você se foi e eu nem sei o que virá, você aparece por aqui. Sabe, é que você levou o nosso pente. Você levou pois eu disse que você precisaria mais que eu diminuir a estática e quebrar menos. Logo eu, sempre tão quebradiça. Consertei. Nem sei bem como é que vim parar aqui quando olho nossas fotos do verão de 22. Talvez o inverno tenha sido longo demais, e a primavera não chegou pra nós dois ao mesmo tempo. Você é coral, eu te disse. Onde vivo, minha casa, meu porto seguro. Seguro talvez não mais. E se deixou de ser, fui eu quem te afastou. Peço que me entenda. Não te afastei porque não te amo. Não te afastei por causa delas. Afastei porque precisei que você deixasse de ser tão real. Por que preciso viver o surreal. Surreal é o pente de plástico que tive que usar. Mal penteia. Quebra. Deixa elétrico. Não liguei. Ainda assim minha mãe me salvou e trouxe outro de madeira. Claro, não é a mesma coisa. Funciona, mas não é gostoso de passar, nem de segurar. É que você é assim, posso até achar parecido, mas nunca vão ser você. Você que tem um grip perfeito, que escorre os dedos nos meus cabelos, que não me quebra, não me machuca. Não digo que nunca machucou. Sua incapacidade de aceitar algumas flores que eu te dava me doía, sim. Sua incapacidade de me dar algumas flores que eu precisava me doía também, sim. Mas a primavera veio tão forte que entendi que as flores entre nós trocadas são belas, e que posso trocar flores com outras. Entendi que não devo querer que o buquê inteiro venha de você, ou seja pra você. Afinal, isso vai contra minha própria natureza, peixe mas também abelha. Nessa primavera quero gritar: odeio azeitonas! Quero te dar as minhas, mas quero também alguém que igualmente as odeie. Pra odiar junto. Já você, não quero odiar nada. Quero te levar pra uma cabine no mato, pra dançar a noite toda ao som das estrelas que aqui a gente quase não vê. Quero a sorte desse amor tranquilo. Quero pegar tua mão e sair por essas ruas, bêbados. Um remédio antimonotonia. Quero passar meus dedos entre os teus cachos e dizer pra que você os contenha, por que a noite vou ser tua. Quero que você me leve pra janela, mas que dessa vez chegue mais perto. Quero mais devagar, quero mais profundo, quero gritar. Quero te encontrar num domingo de manhã, 70s Mix e café com leite. Dividir o brunch. Tirar tua foto, sorrir pra você. Quero fazer planos. Planos com você pra gente descobrir o mundo. Mas também planos que você não esteja, e eu não me sinta novamente a vilã da nossa história. Não quero dizer não por qualquer outro motivo que não minha própria vontade de dizer não. Quero te proteger por mim, não por você. Quero que você voe, quero te ver voar. Você é grande demais pra caber na Torre que te puseram. Você é vivo demais pra viver dormindo. Você é belo demais, pra encurvar teus ombros. Você é bom demais pra ser bonzinho. Quando a gente se toca, quero deixar a estática rolar. Chega de desculpas, chega de cuidados, chega de medos. Você é fogo também, eu descobri. Quero que arda. Que me queime. Que na batida dos seus tambores elétricos me faça sussurrar no seu ouvido. Que no Jazz Standards você me enxergue de verdade. Que olhe pra mim na sua frente, não pra mim no espelho. Estou com saudade de ver você louco por mim. Estou com saudade de encharcar nossa noite sem nenhuma preocupação. Danem-se os lençois, o colchão. Quero desaguar na tua boca e te afogar. Me render e te render. Chega de interromper esses raioszinhos entre o nosso lençol e cobertor. Que venha você, surrealmente real e com toda a estática do mundo. Meu coral, nosso pente de madeira vai nos proteger.
terça-feira, 30 de abril de 2024
domingo, 28 de abril de 2024
água
As vezes acho que planejaram em algum lugar desse universo pra que eu nascesse em março. Pra que eu nascesse com as águas que renascem todo ano. Seja chuva, seja neve, seja gelo, seja a mistura com a terra que faz uma bagunça danada. Essa primavera veio muito mais molhada do que todas as outras. Como se anunciando uma tsunami. Engraçado, disseram-me que esse ano eu chegava à idade de Cristo. Ele que andava transformando água em vinho, como se vinho fosse melhor que água. Ele que andava multiplicando os peixes, como se o mundo aguentasse as lágrimas de tanto peixe. Não que eu tenha qualquer coisa que remeta a Ele. Pelo contrário. Sou um festival de pecado e já rejeitei a salvação porque me disseram que ela não incluía os meus. Ainda assim, 33. E nessa primavera foi mesmo milagre que me fez viver. Viver como eu não vivia há década. Viver como quem vive pela primeira vez. É que os astros resolveram me banhar nessa primavera. De lágrima, de prazer, de suor. Me pego pensando se não é tudo apenas uma piada de mau gosto que meus antepassados resolveram contar. Eles que atravessaram mar, por escolha ou por força, agora rindo dessa que conversa com as águas. Me pego pensando se na próxima esquina eu tropeço e caio. Mas até agora, passos firmes. Uma firmeza tão estranha que me espanto. Acuso que foi ela ou ele que deram os passos. Não. Foi mesmo minha cabeça estranha, meu duplipensar, minha cara no palco. Seca. Fui eu, eu e todas as versões de mim que já vivi. Sabendo que todas essas decisões são duras como pedra, hoje a água veio dar força. Veio lembrar quem é que manda. Veio dizer que sem ela não há prazer, não há lágrima, não há esforço. Veio dizer que só ela apaga um fogo que queima e consome. Que só ela me transforma de verdade. Que é ela quem sabe do meu coração quando escorre nas minhas bochechas. Hoje não estive sozinha. Escutei o grito das águas mais fortes, escutei o chamado das águas mais profundas. Senti. E sentindo soube que não são memórias. É novo. As ondas vieram, me lavaram e levaram consigo tudo o que me afogava. Restou uma estrela do mar pra eu levar pra sempre. Restou grande parte do meu ecossistema, sem poluição. Restou o coral onde vivo, de quem me alimento e onde me encontro. Mas está em perigo. Não por fogo, fogo não arde dentro do mar. Nem mesmo por mim, peixinho que ali vive. Apenas por um desequilíbrio. Quero crer que o desequilibrado equilibrado estará quando a próxima lua cheia vier, e a maré encher. Quero crer que as águas vão continuar transparentes. Que a secura do meu rosto vai continuar apenas pra que o choro tenha sentido. Eu que já chorei por tantas bobagens. Água desperdiçada. Vida desperdiçada. Não mais. Aprendi a nadar.
sábado, 27 de abril de 2024
inundação
Olho nos seus olhos. Você diz que nossos corpos se misturam, ficam indistinguiveis. Concordo. Num movimento que acompanha meu coração - tão acelerado - a gente se conecta. Você diz mexe aqui, abaixa ali, mas eu fico feliz em ser guiada. É que é novo, não são memórias. As memórias já não me servem. Guardei, finalmente, os registros do carro embaçado, do meu sutiã lilás. Não preciso mais deles. Tenho você. Não te tenho, aliás. Não quero ter ninguém. Ninguém é meu. Não quero ser de ninguém. Aliás, quero por alguns minutos enquanto você sussurra no meu ouvido uma palavra que me descreve, e diz que sou sua. As vezes acho que é algum tipo de magia, um feitiço mesmo que faz a gente ficar assim. 169 BPMs. E você, tão eu. Sou menor e maior, mas fico pequena no seu ombro. Nos seus cabelos castanhos minha mão fica. Toco sua bochecha, seu queixo, seus olhos, tão brilhantes. Não sei como alguém pode me olhar assim. Nessas horas também nossos corpos se misturam. Parece que você me conhece há décadas, mas são só semanas. Você pergunta o que é que eu estou pensando. Não digo. Se na tua cama eu me perco nos teus olhos eu me acho, mas eu não posso te dizer isso. Intensidade emocionada, e Original Brasil no fundo. Você diz que combina. Ressignifico. Gosto de ver o seu sorriso, sua boca pequena um sorrisão que nem sei como cabe. Você dança pra mim como quem sente, vive, provoca. E você de costas pra mim, um mundo novo na minha frente. Vou desbravar. Você tem grit. Eu também. Um de cada vez, dois no máximo, e minha boca. Você, louca. Eu disse que iria chegar lá. Pedi paciência. Você me deu. Você organiza o caos com uma leveza que me dá vontade de falar e eu falo besteiras. É que eu sou da água, sou peixe. Vivi sempre na beira da água, e deságuo na tua cama. Um dia vamos pra algum lugar, sabe, onde eu não tenha que cuidar das minhas marés. Preciso deixar as ondas virem, e se eu te afogar peço perdão. Peço que não desista por enquanto, se puder. Mas se te doer, que me deixe ir. Sou água, e não pedra. Não vim aqui pra te machucar. Vim pra te conhecer. Pra te molhar. Porque eu também sei ser onda. Beijar teus lábios feitos pra falar francês. Pra descobrir que orelhas não servem só para te ouvir. Pra te segurar pelo rosto, com cuidado, te tocando devagar como quem tem a vida toda pra isso. Suas tatuagens um mundo pra descobrir. Seu cabelo um mar, seu (nosso) desejo uma ordem. Vim pra você, por mim.
domingo, 21 de abril de 2024
pão-de-beijo
Com um pacote de pão-de-beijo e uma garrafa de vinho fui atrás do caos. Achei. Por alguns active minutes o coração bateu a 169. Sua boca também é pequena. Mas é pequena diferente, é de fazer bico. Mas tem também sorriso daqueles que dobram a bochecha. Seus olhos são verdes como o mar, me afundo, me afogam. Atrás de óculos. Mas os cabelos longos, escuros, que se enrolam entre meus dedos. Você me olhou como se aquela cozinha fosse um palco pra gente mostrar pro mundo que bateu. Como se em silêncio a gente estivesse gritando com o universo em agradecimento e ódio. É que não pode ser, você diz. Não dá. Diz não posso, você tem ele. Ainda assim me quis. Eu nem sei bem se querer encaixa no que eu senti. Eu desejei. Eu busquei. Eu fui. E a pequena boca continha o mundo. Meu pescoço, playground. Mãos entrelaçadas e a cabeça voando desligada. Os óculos que enfim embaçam. O riso sem jeito e os dois minutos, cinco minutos, o tempo todo e tempo nenhum. O forno quente do nosso lado e a vontade de estar em trajes mais tropicais. É que a gente se encontrou no frio, numa noite longa e cheia de acalento. A gente se encontrou você sorria, e o olhinho pequeno. Grande o suficiente pra me enxergar. Nosso blend não é tão bom assim, mas quem precisa de música quando eu só quero ouvir sua respiração. O blend vai melhorar, até por que já são 80%. O algoritmo é que não pegou o melhor de cada uma, talvez sabendo dos riscos de tamanho match. Sua respiração como ouvi ontem me disse que você também estava entre vigorous e peak. Talvez por isso você tenha medo. Não tenha, esquece o risco que move algoritmo. A gente é gente. Tem que viver. Sabe, é que eu fiz uma lista dizendo que eu não ia me permitir sentir menos do que o que senti há umas semanas. Não tem passo atrás. Não tem desvio nem volta. Você vai viver muitos active minutes. Sei que viveu. Ouvi seu olhar. Senti suas mãos. Ouvi seu ofegar. E o forno esquentando um pão-de-beijo.
quarta-feira, 10 de abril de 2024
Minha alma cheira a talco
Foi o palco. Hoje ela não estava lá. Não estava aqui. Vivi. Ela veio pra me lembrar do que vem junto com o palco, mas foi o palco que me trouxe ela. Sem palco, sem riso, sem choro, sem ela, sem elas. Sem ele até. Não digo também que estava morta. Só havia esquecido de quão plenamente viva eu consigo estar. E me contentei com muitos dias sem vida, alguns dias bons e pouquíssimos dias fora da curva. Ela é fora da curva, mas ele também é. Foi o palco. O palco que deu a coragem pra dizer o que eu precisava. Que lembrou a todos os envolvidos o quanto são fora da curva. Ensinou o quanto eles também não podem se contentar com a sobrevida. O quanto essas regras inventadas não nos servem de nada. O quanto ele também sabe tocar os meus botões. Sei lá, eu as vezes acho que gosto de sofrer também. Sentir tanta vida que de repente, é quase morte. Vale a pena. Não consigo suportar a falta de gosto, de tempero. Engraçado encontrar o palco logo aqui, que todos dizem ser sem tempero. Dizem porquê não conhecem as histórias das vidas daqui. Um teatro lotado, quente, claramente improvisado. Cheio de barulho, de música, de cena, de emoção. E de repente a luz na minha cara. O problema é a língua, eu sei. Falo o que acho que faz sentido. Foi o palco. Improvisando um inglês sabendo quem eu sou e de onde venho. Sentindo uma força estranha. Que é minha. Não é dela, nem dele, nem de ninguém. É minha e só minha. Subi no palco.
sábado, 6 de abril de 2024
Ossington
Caminho distraída lembrando da gente. Lembrando de mim e dos meus sorrisos. Procuro os biscoitos, quentes e frescos. Procuro as fachadas, lembro das opiniões, das perguntas, tantas. Te vejo, mas não é você. Me pego fotografando as coisas pequenas da vida. Você responde na mesma língua. Sinto como quem passa no corredor olhando dentro da casa do vizinho pra ver como ele vive. E a gente não fecha a porta. Deixa escancarada. A cabeça tão nas nuvens que não vejo os buracos no caminho. Quase caio. Mas meus pés andam tão firmes que recupero o equilíbrio. Que firmeza é essa que você me deu? Nem sei se de fato foi você. Se fui eu, se foi a rua. Se foi o palco. Nem sei bem o que você pensa disso tudo. Todo esse mistério. Racional, inexplicável. Digo que me basta ter achado esse cisne, e não preciso que ele chegue perto. Por enquanto. Não sei quanto tempo vou aguentar só com os sorrisos, tropeços, fotos e memórias. Queria mesmo era terminar aquela taça de vinho e no frio e na chuva te puxar pra junto de mim. Bagunçar meu batom, embaçar teu óculos. Tocar sua onda, surfar nela até chegar na tua nuca. Pegar uma corrente pro sul. Dominar tua noite. Quente e fresca. Os biscoitos. Nós.
terça-feira, 2 de abril de 2024
giraffes on my mind
Você veio como uma onda. De longe te achei pequena. Foi se aprochegando, senti a maresia tocar minhas bochechas, tão gostoso. De repente vi teu tamanho. Tua força derrubou tudo no teu caminho. Tua potência me afogou. Só conseguia te respirar. Fiquei sem ar. Uma, duas, três vezes. Encharcada, afogada em você, eu que sou peixe. Como veio, foi. Recuando. Sem deixar traço para além da areia revirada. E agora o que eu faço com o teu lençol, se você não me deixou mais nenhuma pista? E agora o que faço com as tuas camisas, esquecidas? Não são lembranças. Entendo que sendo onda, você não se importa tanto com o que vem molhar. É só teu movimento. Pra que então deixar uma estrela do mar? Deixa eu me afogar em você e vai. Vai chegar em outras praias, vai afogar outras, vai viver tua potência. Eu permaneço. Quem sabe te espero, mesmo que não seja sobre isso. Por enquanto me afogo nos teus lençóis, já que não posso me afogar em você.