quarta-feira, 31 de julho de 2024

yonge street

Eu sempre digo que casas são pessoas. Devo adicionar que as vezes casas são apenas casas. Paredes e chão planta e pessoa. Mas as vezes é onde tudo passa tudo sente tudo acontece. Saímos dessas casas e nelas deixamos uma parte de nós. Uma versão de nós que não vai mais existir. Você não vai mais naquela padaria. Não frequenta aquele café. Já não lembra mais o número do ônibus. Já não dorme mais com ele. Casas são também fragmentos de nós. 

Quero construir uma nova casa. Não porque essa não seja boa, mas não é minha. É talvez de outra pessoa que não eu. Eu achei que era. Me confundi. Acordei. Não volto mais pra essa que não é minha. Não digo que não haja luto. Há. Das noites de televisão e doces, dos dias e dias de trabalho, de poucas porém ilustres visitas. Ainda assim, é hora de partir. 

Dessa casa me despeço e com ela dou adeus a uma versão de mim que não existe mais. Agradeço ao verde da janela, ao lago lá no fundo, as máquinas que facilitam a vida. Agradeço ao que cresci aqui e as memórias de uma vida. Aqui é onde eu estava quando me senti com os pés no chão pronta pra voar. Agradeço. Alívio também. 

Alívio de saber que cheguei até aqui. Que essa casa já não me pertence. Que essa que fui já não sou mais. Essa casa fica comigo então, mas eu nela não fico. Vou pro centro. Vou pra vida outra. Sair da torre. Pra perto do chão. E de lá vou voar, vou atrás de uma nova casa seja ela ou outra. Vou encher de vida de gente de mim. 

Vou pra casa de madeira casa de rua casa de quase século. Casa que tem história e que ainda vai ver mais. Casa quente que faz sair e aproveitar o verão. Sem máscara. Que vai ter um novo café uma loja um restaurante. Vizinhos. Gente outra. Casa que me cabe. Casa que é minha. Casa. 


sábado, 27 de julho de 2024

seasons

I see water and the tower. It still impresses me. It's all new. Like water I flow, like the tower I stand tall. Like water I find paths where a track doesn't go, like the tower I keep my balance.

Last summer I was down, broken, scattered, shattered. Came fall I went the opposite way and grew. Put my leafs back where they belong. I started laughing and singing and with my imperfect body I found the space I was called to occupy.

Came winter I didn't see all the snow I was hoping for. I searched for summer but it wasn't there yet. I think the skies were just holding the snowflakes for early spring. Yet I was no longer a bear and I couldn't hibernate. I was already awake and I couldn't shake the feeling that this year would be different. I waited. 

Came March my new year started and with it a whole new world. She came and the snow fell. You see, I made this pact with the universe that she should have all the good things. She did. As the snowflakes fell so did the tears in my eyes. I washed it all up. Washed up my fears, washed up my rules, washed up my certainties. 

Came spring I was shook. Came Easter I found saving. Not a mystical saving for the afterlife, a saving of my own path above earth. Spring melted any leftover ice I still had with a passion so hot that I got burned. Yet I had no fear anymore. Burns heal. Spring came and I was free. Learned to blossom through my own watering. My own tendering. My own caring. 

Came summer again and I am me. Not broken. Mended. Shining. Bubbly. Sunny. Hot. I don't burn though. Too tender, too soft, too watery to burn. I now live, no more waiting. I see the water move and with it my story goes. I'll enjoy the warmth this time so that in the fall I can prepare for winter. I will swim and feel and cry and sing and dance. I will use my body like it was meant to be used. To occupy spaces. To be loud. To bring warmth to others. To be a tower shining bright and steady. To be water flowing in between the lines of life. It is new. 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

world

To name things is to name our humanity. 

A name is not a label. Labels belong to objects. We are no such things. 

We are others. 

Naming a relationship creates rules. 

Naming a breakup, it changes a bond. 

Naming a sensation makes it a feeling. 

Naming the act of naming as humanizing or dehumanizing shakes the world.

It makes you more careful about the names you choose. 

More careful about naming yourself, too.

Names are often seen as matching people.

Summers are sweet and shinny. 

Johns are just plain old Johns. 

Bills are nice, and so are Anas. 

Folks analyze names through numbers.

Astrologers check compatibilities. 

A couple where it's two versions of the same name is seen as a sign from the universe.

A match. 

Not me.

All the women I have loved, all the men, they all had very distinct names from mine. Unusual even. 

Maria is the exception. 

Parents choose names expecting babies.

When a name is decided upon, there's a projection on that little person. 

Are names a catalogue of people?

All of the Danis are this. 

All Mari, like that.

Duosyllabic names, I've heard many of them. 

If such catalogue exists, I sometimes wish we could have an alert system for those that have terrible personality traits. 

Stay away from Roses! They'll hurt you.

Don't elect a Donald, he's a clown. 

Don't believe the new Moses!

What an amazing thing it would be.

Yet it wouldn't. 

One must get to know others. 

One must name them.

It seems my list still stands. 

I've named what I needed. 

Naming me, naming her, naming the world. 

It's fresh. 

domingo, 7 de julho de 2024

dois rios

Eu disse que te deixaria ir. Não deixei. Não vou deixar. Sigo dançando contigo, ainda que eu pegue mil aviões e não chegue até você. Sou água sou rio sou mar mas em ti ainda não desaguei. Quem dera nossas digitais fossem mesmo portais. Não te sinto nas pontas dos dedos, mas, a cada passo que dou, te toco. 

Te toco quando leio Krenak e ele lembra das confluências. Quando diz que somos movência. Te toco quando ouço "quem sabe o que o amanhã traz" e quero nisso acreditar. Quando ouço que "estou cansada de ficar sozinha" e lembro de você me dizendo que adora essa música, enquanto se balançava em frente a minha varanda. Te toco quando canto que "tô contando o tempo e ele me pirraça", mas eu nem sei quando te vejo. Te toco quando piso na areia e sinto a água salgada curar todas as minhas feridas, a areia escapando entre meus dedos. Te toco quando mil vezes falo teu nome, sem perceber, sem pensar. Te toco porque você está comigo, mesmo sem estar. 

Já não sei mais o que fazer pra te ver. Poderia pegar o avião certo. Mas me encontro atravessada de dúvidas sobre o amanhã, tal como você. Me encontro sem pressa. Sinto que a pressa não existe entre nós, por mais que a vontade seja de correr pros seus braços. O reencontro nos persegue, você diz. Pois que ele nos alcance. Enquanto isso, fazemos planos. E quantos planos já fizemos.

Você encontrou no mar sua calma. Quero entender que esse mar também faz você sentir meu toque. O mar onde moro, o mar onde nasci, o mar que sempre esteve comigo. Acho curioso. Tanto quanto quando você desata a falar, me encontro curiosa. Curiosa pra te ouvir, te conhecer, te abraçar. Curiosa pra dançar com você uma noite inteira e todas as noites que vierem.

Quando te abraçei naquele dia ensolarado, você com ela, eu com ele, parece que o mundo mudou por um segundo. Não te contei, mas meu peito, quase desnudo no teu, fez mágica. Um breve terremoto. Uma tsunami. O resto em silêncio e eu não queria te soltar. Acho que você também não. Voltei a te abraçar nas terras geladas, mas esses abraços com tantas roupas trouxeram conforto. Não digo que meu mundo não mudou naqueles dias frios, mas mudou com tuas palavras e perguntas. Mudou com teu olhar. Mudou com o jeito que você sentava no braço do sofá devorando um pote de granola. 

Acho que você fez eu me amar mais um pouquinho. As listas, nossos acordos, teu pedido de desculpas depois de uma longa noite, tudo fez sentido, fez sentir. E sentindo eu não pude mais voltar. Imagino então estar contigo num desses carros velhos dirigindo pela beira do mar. Anseio pelas horas de conversa que nunca vemos passar, sem uma tela no meio.

Anseio ver tuas lágrimas de novo, não as de cansaço, as de conexão sobrenatural. Não quero que você volte a sentir aquele cansaço, mas, se sentir, anseio poder novamente te acolher. Anseio ouvir sobre girafas, sobre mulheres que amam mulheres, sobre números, sobre movimento, sobre luta. Anseio te contar sobre o meu dia, sem ter que digitar. Anseio te preparar um café e te entregar devagarzinho, enquanto você olha o mundo lá fora. Anseio te navegar e te mostrar o que você nem deve imaginar. Anseio descansar meus pensamentos na tua força. Anseio te ver dançar, sem metáfora. 

Ainda que você diga que eu falo a tua língua, me pergunto se não serão apenas falsos cognatos. Se eu mais uma vez estou vendo apenas o que quero (mas o que havemos de ver, se não o que queremos?). Achei que eu não aguentaria te perder sem te ter, mas aguentei. Busquei outras musas, mas não consegui te mudar em mim. Seja quem vem, você permanece. Pois aqui me ponho novamente. Pronta pra te perder de novo, sem nunca ter te tido. E tudo isso de ter e perder nem faz sentido. Só você é tua, só eu sou minha. Ainda assim, quero que sejamos nossas. 

Nesse risco estou pronta pra nunca ter a oportunidade de te levar um café com abraço. Prefiro crer que terei. Prefiro crer que você vai gostar do meu café. Crer que nossos rios vão se encontrar. Prefiro crer que é tudo apenas uma questão de tempo. De alinhamento das estrelas, do mar. Proponho, então: vem. 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

bem vinda

Tem certas coisas que mudam. Mudam a gente por dentro, mudam por fora, mudam nosso entorno. Mudam não porque viramos outras pessoas, mas porque de repente reconhecemos aquilo que sempre esteve ali. A gente só não viu. Não quis ver. Não conseguiu. 

Enquanto o avião sobrevoava o Rio vi as luzinhas se aproximando e quinze anos atrás viraram ontem. Meus olhos encheram de lágrima. Não de medo. Não de tristeza. Não de solidão. De Novo. Do Novo. Tantas prosas tive falando desse tal Novo, da Transição. E agora o que é Novo é na verdade o Velho, e a Transição é a Permanência. Com o tranco das rodas tocando no chão tranco dá também meu coração, lembrando não de memórias, mas de mim. Pretérito futuro. Presente. 

O Rio não mudou. Não é outro. Permanece caos, permanece duro, permanece. O olhar é que é outro. Os amores persistem. Cada cigarro no bosque, um cigarro no bar. Parece que pagamos o pecado de todos esses anos perdidos. Os abraços e os minutos, não mais controlados, regulados, amedrontados. Ser quem se é, e não ser estranho aos que sempre nos enxergaram. Sensação estranha traz esse Novo. É o Velho recontado, recitado. Feito poema de uma vida inteira. 

No abraço de sangue, acalento. No abraço de escolha, escuta. No abraço que sempre trouxe alegria, orgulho. Orgulho. Tamanha palavra que nunca usei. Não soube. Não tinha. Agora vivo, colorida, um sol brilhando no peito. Não fui duas. Fui uma que se escondeu. Fui uma que se anestesiou. Fui uma que dormiu. Sono leve. Acordei. Sonho.

Como cheguei, parti, como tantas vezes fiz. Mas essas mãos que pegam minha mala já não anseiam tanto porque não fogem. Não tem pressa. Se eu pudesse, ficaria mais nos braços dela. Ouviria mais poesia. Se pudesse, fumaria mais cigarros com ele. Beberia mais um mate com elas. Não posso. Permanece a impermanência. Agora sem desconforto. Nesse não-poder mora também a liberdade. 

Sobrevoando então a Fortaleza de quem ontem me despedi vem aquele aperto. Agora sim, medo. Coragem também, mas medo. Não quero que apaguem meu orgulho. Entendo então que o orgulho é só meu. Não apaga porque só eu tenho água pra apagar meu sol. O mundo nas minhas costas, leve. Não é fardo. É descoberta. Então encaro, enfrento, falo. Dou nomes. Lembro. Surpresa, vejo que não roubaram meu eu. Surpresa, resisto. Surpresa, persisto.

Chega então a comunidade. Comunidade de uma vida toda, de comum idade, de estrada partilhada. E de novo, o Novo é o Velho. Aquele bloco de concreto que com tanto afico construí agora me sustenta. Reconhece-me. Dentre esses, o orgulho demorou a chegar. Ainda assim orgulhamo-nos um do outro enquanto o nosso próprio não vinha. Demos as mãos e o colo. A escuta e o riso. Quanta história, e muito mais futuro. É casa, família construída. Agora plena de orgulho. 

De repente o coração acelera. Aquele tão inesperado momento, tão inimaginado encontro, doze anos depois. Somos as mesma, mas outras. Inteiramente novo, mesmo que aínda saibamos nossos nomes. Queria compartilhar esse momento com minha estrela, que me lembra de navegar nesse mar da vida. Ela que tanto ouviu dessas memórias. Mas já não vivo mais nesse passado. São só histórias. Contar histórias e, aqui também, achar comunidade. Partilhar do vinho e desatar a falar. Como se não houvesse tempo entre a gente, como se a gente se conhecesse. Absorvo a alegria dessas mulheres, me banho nesse amor, nesses sorrisos. Casa-senti-mento. 

Com os lábios roxos de rir eu então descanso. Descanso com a certeza de que fiz tudo que estava ao meu alcance. Com a certeza do que enfim está para além do que posso. Do que quero. Acolho ao Velho re-citado, agora Novo. Não são memórias. Não há mais espinhos. Não há mais dor. Não há medo. Não preciso do trabalho ou das paredes pra ter um chão pra pisar, piso firme em um chão de minha própria construção. 

Haja Eu. História, fôlego, força e sangue. Lavo o rosto e me conheço no espelho. Meia cabeça nua. Digo oi. E abro os braços pra abraçar a mim mesma, envolta pelo mundo.