Tem certas coisas que mudam. Mudam a gente por dentro, mudam por fora, mudam nosso entorno. Mudam não porque viramos outras pessoas, mas porque de repente reconhecemos aquilo que sempre esteve ali. A gente só não viu. Não quis ver. Não conseguiu.
Enquanto o avião sobrevoava o Rio vi as luzinhas se aproximando e quinze anos atrás viraram ontem. Meus olhos encheram de lágrima. Não de medo. Não de tristeza. Não de solidão. De Novo. Do Novo. Tantas prosas tive falando desse tal Novo, da Transição. E agora o que é Novo é na verdade o Velho, e a Transição é a Permanência. Com o tranco das rodas tocando no chão tranco dá também meu coração, lembrando não de memórias, mas de mim. Pretérito futuro. Presente.
O Rio não mudou. Não é outro. Permanece caos, permanece duro, permanece. O olhar é que é outro. Os amores persistem. Cada cigarro no bosque, um cigarro no bar. Parece que pagamos o pecado de todos esses anos perdidos. Os abraços e os minutos, não mais controlados, regulados, amedrontados. Ser quem se é, e não ser estranho aos que sempre nos enxergaram. Sensação estranha traz esse Novo. É o Velho recontado, recitado. Feito poema de uma vida inteira.
No abraço de sangue, acalento. No abraço de escolha, escuta. No abraço que sempre trouxe alegria, orgulho. Orgulho. Tamanha palavra que nunca usei. Não soube. Não tinha. Agora vivo, colorida, um sol brilhando no peito. Não fui duas. Fui uma que se escondeu. Fui uma que se anestesiou. Fui uma que dormiu. Sono leve. Acordei. Sonho.
Como cheguei, parti, como tantas vezes fiz. Mas essas mãos que pegam minha mala já não anseiam tanto porque não fogem. Não tem pressa. Se eu pudesse, ficaria mais nos braços dela. Ouviria mais poesia. Se pudesse, fumaria mais cigarros com ele. Beberia mais um mate com elas. Não posso. Permanece a impermanência. Agora sem desconforto. Nesse não-poder mora também a liberdade.
Sobrevoando então a Fortaleza de quem ontem me despedi vem aquele aperto. Agora sim, medo. Coragem também, mas medo. Não quero que apaguem meu orgulho. Entendo então que o orgulho é só meu. Não apaga porque só eu tenho água pra apagar meu sol. O mundo nas minhas costas, leve. Não é fardo. É descoberta. Então encaro, enfrento, falo. Dou nomes. Lembro. Surpresa, vejo que não roubaram meu eu. Surpresa, resisto. Surpresa, persisto.
Chega então a comunidade. Comunidade de uma vida toda, de comum idade, de estrada partilhada. E de novo, o Novo é o Velho. Aquele bloco de concreto que com tanto afico construí agora me sustenta. Reconhece-me. Dentre esses, o orgulho demorou a chegar. Ainda assim orgulhamo-nos um do outro enquanto o nosso próprio não vinha. Demos as mãos e o colo. A escuta e o riso. Quanta história, e muito mais futuro. É casa, família construída. Agora plena de orgulho.
De repente o coração acelera. Aquele tão inesperado momento, tão inimaginado encontro, doze anos depois. Somos as mesma, mas outras. Inteiramente novo, mesmo que aínda saibamos nossos nomes. Queria compartilhar esse momento com minha estrela, que me lembra de navegar nesse mar da vida. Ela que tanto ouviu dessas memórias. Mas já não vivo mais nesse passado. São só histórias. Contar histórias e, aqui também, achar comunidade. Partilhar do vinho e desatar a falar. Como se não houvesse tempo entre a gente, como se a gente se conhecesse. Absorvo a alegria dessas mulheres, me banho nesse amor, nesses sorrisos. Casa-senti-mento.
Com os lábios roxos de rir eu então descanso. Descanso com a certeza de que fiz tudo que estava ao meu alcance. Com a certeza do que enfim está para além do que posso. Do que quero. Acolho ao Velho re-citado, agora Novo. Não são memórias. Não há mais espinhos. Não há mais dor. Não há medo. Não preciso do trabalho ou das paredes pra ter um chão pra pisar, piso firme em um chão de minha própria construção.
Haja Eu. História, fôlego, força e sangue. Lavo o rosto e me conheço no espelho. Meia cabeça nua. Digo oi. E abro os braços pra abraçar a mim mesma, envolta pelo mundo.