terça-feira, 30 de dezembro de 2014

placebo

Entrou no ar e foi. Aos poucos ia se afastando, e já não teve mais volta. Do alto viu o chão e quis fugir dele, quis voar. Voou e deixou tudo que era real. Foi em direção ao por do sol, em direção ao mar, às ilhas do outro lado do mundo. Não pode pensar duas vezes, só pulando de uma vez que se pode ir tão longe. Voando sentiu. Sentiu em cada pedaço de si o que a tanto ansiava sentir. Sentiu medo. E por sentir medo teve coragem de continuar. A cada segundo que passava um a menos seria necessário para transformar o medo em prazer. Prazer por saborear um gosto diferente, ainda que por um desejo velho, por estar longe, por ser Novo. Voando foi, sem saber se poderia voltar. Voando, feliz. Quando pisou na terra, o chão já era outro. Era um chão quente na pele, que dava vontade de sentir logo mais calor. Os rostos, os sons, a vista, tudo estranho, tudo novo, tudo bom. Em frente seguiu e bateu na porta. Sentiu tudo que há pra sentir na pele, gostou. E por gostar pediu proteção mais uma vez, sete anos depois, proteção contra o que queria.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

antes que eu esqueça

Nas paredes verdes tudo está abandonado. Vazio, todos saíram, não há quem preencha, não há risos. Havia vida nesse verde, havia correria e gritaria quando o sino tocava. Agora, nada. Aquele verde, a cor mais antiga, não habita nem mais as memórias de um sonho, a cada segundo que passa um segundo de verde se apaga. As outras cores, porém, permanecem. O rosa, esse reflete mudança, histórias de novidade, de dor e de liberdade. Ele não se apaga com o tempo, mas morre com lágrimas, e revive com sorrisos. Amarelas são as paredes fortes. São eternas pelo que suportaram, pelo que sentiram, pelo que criaram. Amarelas são presentes mesmo de longe, são recentes no tempo, e, mesmo quando não forem, serão. No corpo, no caminho, nas memórias, nas pessoas, no passar do dia e no viver da noite. E logo o amarelo que era tão feio... O azul. Uma mistura de situações estranhas e espalhadas. Lá no alto, nos corredores estranhos, por baixo do telhado e dentro de tunéis. Azul, lugar de cenários e palcos, de invenções e aventuras.
Além das cores, as escadas. Escadas diferentes, que somem, que escondem. Escadas que muito tem a dizer, que guardam histórias. A escada grande, nela houve realidade e superstição, brigas e descobertas.
Banheiros. Os banheiros que aqui mereceram tamanha atenção. Pegadas deixadas, inesperadas. Descobertas. Lágrimas e mais lágrimas. Conversas, verdades, mágoas. E é hora de voltar para as quatro paredes. Nelas, de todas as cores, escorrem mais risos e mais tristezas. Escorrem novidades, amores, segredos. Tantos segredos, e que nelas morrerão. Essas paredes de dentro, essas trazem paciência, raiva, pavor, ansiedade. Muita ansiedade. Elas escondem papéis, juízos, desejos. Muitos desejos. Escondem realização, alegria, futuro. Muito futuro. Nelas vive o que hoje existe.
Vim mais uma vez com memórias, mas é que essa noite te encontrei. Na escada falávamos de tudo, do que viramos, de onde estamos. Nos encontramos sem querer, e termos nos encontrado entre aquelas tantas paredes, cores e escadas foi o importante. Já não me vestia mais como todos, você já não carregava mais tantos papéis. Vivemos e fomos algo novo em um lugar velho. Você ainda foi doce e se interessou por aquele momento. E eu, eu era outro, mas era eu com você ainda assim. Não fui quem eu era, fui o que sou. É claro, serei sempre um pouco do que eu era. Espero que você também ainda seja um pouco do que era, mas que já não seja mais só isso. Ontem fomos o que somos, estávamos onde outrora já estivemos.
Abro os olhos e tento não esquecer.

álcool e ausência

Explosões de felicidade. Serão elas possíveis? Seriam as explosões apenas aquelas de alegria, ou seriam instantes do que se diz felicidade? Felicidade, brevemente creio, é a soma de todas as alegrias menos todas as tristezas. Tristeza, porém, não é apenas o antagonismo da alegria. Não. Ela pode ser ausência e brigar com a felicidade. Tristeza pode ser dor, pode ser alguém, pode ser morte, amor. Ausência, a mais feia, não pode ser nada. Tristeza por que não há explosões de alegria. Felicidade, essa precisa ser o todo e a feia ausência não pode fazer dela parte. As lágrimas breves, as dores de um fim, essas secam com as pequenas alegrias. A ausência, essa não. Ela é presente por não estar lá. É ausência por ser falta, falta de felicidade. Querem que sejamos felizes, mas muitos somos ausentes. Nas longas madrugadas dos dias úteis as três espécies se diferenciam. Poucas explosões de alegria acontecem em uma terça feira, não há bares cheios, pessoas na rua, risadas. Há, no máximo, explosões físicas de alegrias para quem encontra ou tem alguem. A tristeza, como nas noites dificeis logo após as rupturas, se manifesta e chora, porém toma um comprimido, ganha um abraço, dorme. A ausência, essa permanece, feia. Ela se sobressai. A ausência habita os comôdos pouco iluminados, as televisões inuteis, os vícios, a fome. A ausência não chora, não é consolada, ela é fria e fica. Deita-se com você, mas fica acordada. O medo, por exemplo, parece-me virtude. Se ele vem, é por que sente-se algo. A saudade, essa é dom, é boa, não pode fazer mal, não enquanto não virar falta. Deixa-se então a saudade entrar e, com ela, as memórias e os sonhos. Manifesto certo frio, crio uma pequena ausência. Não me deixo, porém, nela entrar. Já lá estive e digo: não. Tive as tais explosões e elas buscarei, de qualquer forma. A questão não é ser só, nem mesmo sentir-se só, é sugar qualquer motivo de riso. É forçar-se a rir de si mesmo, forçar-se a falar sozinho, a cantar e até mesmo chorar, e gritar, e espernear. Assim expulsa-se a ausência. Sem ausência expomo-nos ao mundo, às tristezas e à alegria, e é disso que precisamos. Não posso mais me permitir a ausência. Estou presente e hei de sempre estar. Chorarei, mas também vou rir. Preciso rir, e por isso me deixo chorar. Como já diversas vezes disse, se essa que chora sou eu é por que a que se ausentava era eu, mas já não é. Se essa que grita sou eu, é por que já fui calada. Falo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

guardanapos


Jeito de ver as coisas: aleatório. Leio aqui, escrevo lá, finjo que entendi e saio dizendo o que acho. Talvez eu nem ache o que digo que acho, as vezes mudo de ideia. Pelo sim e o não, tento não repetir. Tenho, porém, repetido. Gosto quando gostam de mim. Gosto, e gosto muito. Acho estranho quando me acham interessante, não sei exatamente por que eu seria interessante. Dizem-me que sou chata, acredito. Que sou interessante, sempre comunicado a terceiros ou demonstrado interesse, não acredito. Perto de tantas pessoas tão sabidas de si e do mundo, de filosofos da madrugada e conhecedores de Nietzsche. Perto dos senhores da verdade não me sinto desinteressante. Não. Verdade não tem senhor e são os que sabem disso que eu admiro. Não me sinto à altura dos que fazem filmes e tiram fotos, as de verdade, não as "comprei uma câmera chique e sou fotógrafo crítico". Dos que sabem de música, das partituras e dos instrumentos, não, não chego perto. Os poetas, esses então. Os de coração, não os de status. Poemas me deixam apavorada, sempre tenho medo de falar bobagem. Sinto-me por vezes idiota por não ler Dostoievsky, mas cá entre nós, é uma questão de paciência. Não tenho paciência. Já não finjo mais que tenho interesse em saber de tudo e das cores do mundo, e por isso fico intrigada quando alguns querem conversar comigo. Amo mesmo é quem eu sei que me ama com o pouco que eu sei e me diz que eu sou interessante como sou. Nem nele acredito. Algumas horas não enxergo bem o que eu tenho que o deixa interessado. Sou criança. Mas isso não é um problema. Adiante. Quero então saber, por que se interessa? De nada sei, sobre pouco tenho paciêcia de saber. Só quero viver meus poucos filósofos, meu mundo de fantasias britânicas, meu armário horroroso e meu sofá. Quero viver minha música que grita, que com ela por vezes surpreendo, minha música que dança e entoa bobagens, me dando alegria, minha música profunda básica, que tange a superfície de um oceano de cantorias poéticas e brasileiras. Não é que eu esteja, então, infeliz. Mas só queria entender o que pode haver de tão interessante para quererem conversar, sair para os tais cafés e pensar comigo. O que tenho para oferecer? Ofereço-me e permaneço confusa.