quarta-feira, 5 de novembro de 2014

álcool e ausência

Explosões de felicidade. Serão elas possíveis? Seriam as explosões apenas aquelas de alegria, ou seriam instantes do que se diz felicidade? Felicidade, brevemente creio, é a soma de todas as alegrias menos todas as tristezas. Tristeza, porém, não é apenas o antagonismo da alegria. Não. Ela pode ser ausência e brigar com a felicidade. Tristeza pode ser dor, pode ser alguém, pode ser morte, amor. Ausência, a mais feia, não pode ser nada. Tristeza por que não há explosões de alegria. Felicidade, essa precisa ser o todo e a feia ausência não pode fazer dela parte. As lágrimas breves, as dores de um fim, essas secam com as pequenas alegrias. A ausência, essa não. Ela é presente por não estar lá. É ausência por ser falta, falta de felicidade. Querem que sejamos felizes, mas muitos somos ausentes. Nas longas madrugadas dos dias úteis as três espécies se diferenciam. Poucas explosões de alegria acontecem em uma terça feira, não há bares cheios, pessoas na rua, risadas. Há, no máximo, explosões físicas de alegrias para quem encontra ou tem alguem. A tristeza, como nas noites dificeis logo após as rupturas, se manifesta e chora, porém toma um comprimido, ganha um abraço, dorme. A ausência, essa permanece, feia. Ela se sobressai. A ausência habita os comôdos pouco iluminados, as televisões inuteis, os vícios, a fome. A ausência não chora, não é consolada, ela é fria e fica. Deita-se com você, mas fica acordada. O medo, por exemplo, parece-me virtude. Se ele vem, é por que sente-se algo. A saudade, essa é dom, é boa, não pode fazer mal, não enquanto não virar falta. Deixa-se então a saudade entrar e, com ela, as memórias e os sonhos. Manifesto certo frio, crio uma pequena ausência. Não me deixo, porém, nela entrar. Já lá estive e digo: não. Tive as tais explosões e elas buscarei, de qualquer forma. A questão não é ser só, nem mesmo sentir-se só, é sugar qualquer motivo de riso. É forçar-se a rir de si mesmo, forçar-se a falar sozinho, a cantar e até mesmo chorar, e gritar, e espernear. Assim expulsa-se a ausência. Sem ausência expomo-nos ao mundo, às tristezas e à alegria, e é disso que precisamos. Não posso mais me permitir a ausência. Estou presente e hei de sempre estar. Chorarei, mas também vou rir. Preciso rir, e por isso me deixo chorar. Como já diversas vezes disse, se essa que chora sou eu é por que a que se ausentava era eu, mas já não é. Se essa que grita sou eu, é por que já fui calada. Falo.

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