Nas paredes verdes tudo está abandonado. Vazio, todos saíram, não há
quem preencha, não há risos. Havia vida nesse verde, havia correria e
gritaria quando o sino tocava. Agora, nada. Aquele verde, a cor mais
antiga, não habita nem mais as memórias de um sonho, a cada segundo que
passa um segundo de verde se apaga. As outras cores, porém, permanecem. O
rosa, esse reflete mudança, histórias de novidade, de dor e de
liberdade. Ele não se apaga com o tempo, mas morre com lágrimas, e
revive com sorrisos. Amarelas são as paredes fortes. São eternas pelo
que suportaram, pelo que sentiram, pelo que criaram. Amarelas são
presentes mesmo de longe, são recentes no tempo, e, mesmo quando não
forem, serão. No corpo, no caminho, nas memórias, nas pessoas, no passar
do dia e no viver da noite. E logo o amarelo que era tão feio... O
azul. Uma mistura de situações estranhas e espalhadas. Lá no alto, nos
corredores estranhos, por baixo do telhado e dentro de tunéis. Azul,
lugar de cenários e palcos, de invenções e aventuras.
Além das
cores, as escadas. Escadas diferentes, que somem, que escondem. Escadas
que muito tem a dizer, que guardam histórias. A escada grande, nela
houve realidade e superstição, brigas e descobertas.
Banheiros. Os
banheiros que aqui mereceram tamanha atenção. Pegadas deixadas,
inesperadas. Descobertas. Lágrimas e mais lágrimas. Conversas, verdades,
mágoas. E é hora de voltar para as quatro paredes. Nelas, de todas as
cores, escorrem mais risos e mais tristezas. Escorrem novidades, amores,
segredos. Tantos segredos, e que nelas morrerão. Essas paredes de
dentro, essas trazem paciência, raiva, pavor, ansiedade. Muita
ansiedade. Elas escondem papéis, juízos, desejos. Muitos desejos.
Escondem realização, alegria, futuro. Muito futuro. Nelas vive o que
hoje existe.
Vim mais uma vez com memórias, mas é que essa noite
te encontrei. Na escada falávamos de tudo, do que viramos, de onde
estamos. Nos encontramos sem querer, e termos nos encontrado entre
aquelas tantas paredes, cores e escadas foi o importante. Já não me
vestia mais como todos, você já não carregava mais tantos papéis.
Vivemos e fomos algo novo em um lugar velho. Você ainda foi doce e se
interessou por aquele momento. E eu, eu era outro, mas era eu com você
ainda assim. Não fui quem eu era, fui o que sou. É claro, serei sempre
um pouco do que eu era. Espero que você também ainda seja um pouco do
que era, mas que já não seja mais só isso. Ontem fomos o que somos,
estávamos onde outrora já estivemos.
Abro os olhos e tento não esquecer.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
álcool e ausência
Explosões de felicidade. Serão elas possíveis? Seriam as explosões
apenas aquelas de alegria, ou seriam instantes do que se diz felicidade?
Felicidade, brevemente creio, é a soma de todas as alegrias menos todas
as tristezas. Tristeza, porém, não é apenas o antagonismo da alegria.
Não. Ela pode ser ausência e brigar com a felicidade. Tristeza pode ser
dor, pode ser alguém, pode ser morte, amor. Ausência, a mais feia, não
pode ser nada. Tristeza por que não há explosões de alegria. Felicidade,
essa precisa ser o todo e a feia ausência não pode fazer dela parte. As
lágrimas breves, as dores de um fim, essas secam com as pequenas
alegrias. A ausência, essa não. Ela é presente por não estar lá. É
ausência por ser falta, falta de felicidade. Querem que sejamos felizes,
mas muitos somos ausentes. Nas longas madrugadas dos dias úteis as três
espécies se diferenciam. Poucas explosões de alegria acontecem em uma
terça feira, não há bares cheios, pessoas na rua, risadas. Há, no
máximo, explosões físicas de alegrias para quem encontra ou tem alguem. A
tristeza, como nas noites dificeis logo após as rupturas, se manifesta e
chora, porém toma um comprimido, ganha um abraço, dorme. A ausência,
essa permanece, feia. Ela se sobressai. A ausência habita os comôdos
pouco iluminados, as televisões inuteis, os vícios, a fome. A ausência
não chora, não é consolada, ela é fria e fica. Deita-se com você, mas
fica acordada. O medo, por exemplo, parece-me virtude. Se ele vem, é por
que sente-se algo. A saudade, essa é dom, é boa, não pode fazer mal,
não enquanto não virar falta. Deixa-se então a saudade entrar e, com
ela, as memórias e os sonhos. Manifesto certo frio, crio uma pequena
ausência. Não me deixo, porém, nela entrar. Já lá estive e digo: não.
Tive as tais explosões e elas buscarei, de qualquer forma. A questão não
é ser só, nem mesmo sentir-se só, é sugar qualquer motivo de riso. É
forçar-se a rir de si mesmo, forçar-se a falar sozinho, a cantar e até
mesmo chorar, e gritar, e espernear. Assim expulsa-se a ausência. Sem
ausência expomo-nos ao mundo, às tristezas e à alegria, e é disso que
precisamos. Não posso mais me permitir a ausência. Estou presente e hei
de sempre estar. Chorarei, mas também vou rir. Preciso rir, e por isso
me deixo chorar. Como já diversas vezes disse, se essa que chora sou eu é
por que a que se ausentava era eu, mas já não é. Se essa que grita sou
eu, é por que já fui calada. Falo.
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