quarta-feira, 5 de novembro de 2014

antes que eu esqueça

Nas paredes verdes tudo está abandonado. Vazio, todos saíram, não há quem preencha, não há risos. Havia vida nesse verde, havia correria e gritaria quando o sino tocava. Agora, nada. Aquele verde, a cor mais antiga, não habita nem mais as memórias de um sonho, a cada segundo que passa um segundo de verde se apaga. As outras cores, porém, permanecem. O rosa, esse reflete mudança, histórias de novidade, de dor e de liberdade. Ele não se apaga com o tempo, mas morre com lágrimas, e revive com sorrisos. Amarelas são as paredes fortes. São eternas pelo que suportaram, pelo que sentiram, pelo que criaram. Amarelas são presentes mesmo de longe, são recentes no tempo, e, mesmo quando não forem, serão. No corpo, no caminho, nas memórias, nas pessoas, no passar do dia e no viver da noite. E logo o amarelo que era tão feio... O azul. Uma mistura de situações estranhas e espalhadas. Lá no alto, nos corredores estranhos, por baixo do telhado e dentro de tunéis. Azul, lugar de cenários e palcos, de invenções e aventuras.
Além das cores, as escadas. Escadas diferentes, que somem, que escondem. Escadas que muito tem a dizer, que guardam histórias. A escada grande, nela houve realidade e superstição, brigas e descobertas.
Banheiros. Os banheiros que aqui mereceram tamanha atenção. Pegadas deixadas, inesperadas. Descobertas. Lágrimas e mais lágrimas. Conversas, verdades, mágoas. E é hora de voltar para as quatro paredes. Nelas, de todas as cores, escorrem mais risos e mais tristezas. Escorrem novidades, amores, segredos. Tantos segredos, e que nelas morrerão. Essas paredes de dentro, essas trazem paciência, raiva, pavor, ansiedade. Muita ansiedade. Elas escondem papéis, juízos, desejos. Muitos desejos. Escondem realização, alegria, futuro. Muito futuro. Nelas vive o que hoje existe.
Vim mais uma vez com memórias, mas é que essa noite te encontrei. Na escada falávamos de tudo, do que viramos, de onde estamos. Nos encontramos sem querer, e termos nos encontrado entre aquelas tantas paredes, cores e escadas foi o importante. Já não me vestia mais como todos, você já não carregava mais tantos papéis. Vivemos e fomos algo novo em um lugar velho. Você ainda foi doce e se interessou por aquele momento. E eu, eu era outro, mas era eu com você ainda assim. Não fui quem eu era, fui o que sou. É claro, serei sempre um pouco do que eu era. Espero que você também ainda seja um pouco do que era, mas que já não seja mais só isso. Ontem fomos o que somos, estávamos onde outrora já estivemos.
Abro os olhos e tento não esquecer.

álcool e ausência

Explosões de felicidade. Serão elas possíveis? Seriam as explosões apenas aquelas de alegria, ou seriam instantes do que se diz felicidade? Felicidade, brevemente creio, é a soma de todas as alegrias menos todas as tristezas. Tristeza, porém, não é apenas o antagonismo da alegria. Não. Ela pode ser ausência e brigar com a felicidade. Tristeza pode ser dor, pode ser alguém, pode ser morte, amor. Ausência, a mais feia, não pode ser nada. Tristeza por que não há explosões de alegria. Felicidade, essa precisa ser o todo e a feia ausência não pode fazer dela parte. As lágrimas breves, as dores de um fim, essas secam com as pequenas alegrias. A ausência, essa não. Ela é presente por não estar lá. É ausência por ser falta, falta de felicidade. Querem que sejamos felizes, mas muitos somos ausentes. Nas longas madrugadas dos dias úteis as três espécies se diferenciam. Poucas explosões de alegria acontecem em uma terça feira, não há bares cheios, pessoas na rua, risadas. Há, no máximo, explosões físicas de alegrias para quem encontra ou tem alguem. A tristeza, como nas noites dificeis logo após as rupturas, se manifesta e chora, porém toma um comprimido, ganha um abraço, dorme. A ausência, essa permanece, feia. Ela se sobressai. A ausência habita os comôdos pouco iluminados, as televisões inuteis, os vícios, a fome. A ausência não chora, não é consolada, ela é fria e fica. Deita-se com você, mas fica acordada. O medo, por exemplo, parece-me virtude. Se ele vem, é por que sente-se algo. A saudade, essa é dom, é boa, não pode fazer mal, não enquanto não virar falta. Deixa-se então a saudade entrar e, com ela, as memórias e os sonhos. Manifesto certo frio, crio uma pequena ausência. Não me deixo, porém, nela entrar. Já lá estive e digo: não. Tive as tais explosões e elas buscarei, de qualquer forma. A questão não é ser só, nem mesmo sentir-se só, é sugar qualquer motivo de riso. É forçar-se a rir de si mesmo, forçar-se a falar sozinho, a cantar e até mesmo chorar, e gritar, e espernear. Assim expulsa-se a ausência. Sem ausência expomo-nos ao mundo, às tristezas e à alegria, e é disso que precisamos. Não posso mais me permitir a ausência. Estou presente e hei de sempre estar. Chorarei, mas também vou rir. Preciso rir, e por isso me deixo chorar. Como já diversas vezes disse, se essa que chora sou eu é por que a que se ausentava era eu, mas já não é. Se essa que grita sou eu, é por que já fui calada. Falo.