quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Visita.

Disse que viria,
esperei.









Veio,
e foi.


Passou e tudo o que havia antes,
  
 estragou.

sábado, 1 de setembro de 2012

mess we're in.



 Do outro lado da rua. Olho pra você, você para o olhar. Espero. Vem. Não sei seu nome, nem quero perguntar. Em silêncio, caminhamos. Já não te olho mais, não preciso. Com um passo apertado, falta fôlego, sobra confiança. Entendo pra onde vamos, mas não sei onde. Sigo. Os carros passam na velocidade que andamos, o barulho da rua é o que nos comunica, não há porque falar. Não estamos em um daqueles silêncios de um tempo parado por estar ao lado de um alguém, é barulho insuportável fora, que precisa entrar. As luzes preveem o que vem, as informações deixam tonta. Engolimos a cidade para então cuspi-la como quisermos, com a velocidade que ela nos ensinou. E vejo um lugar feio, nojento. Não importa, sabemos que será sujo. E voltamos ao olhar, não tem mais volta. Quero usar as palavras que quero, mas prefiro ficar calada do que te assustar. Toque, cabelos, longos. Louros, compridos, seus. Olhos surpreendem de perto, não imaginava. Mãos leves, doces, minhas. Cabelos, cabelos, rosto e boca. Perto, muito perto e quente, ofegante. Suave, mas forte. Paredes e chão, peito e costas, mãos e bocas. Tão frágil por que me faz forte. Não esperava o controle, controlo. Você se deixa e eu te seguro. O suspiro que sai da sua boca também é doce, seu gosto é de arco-íris, cheiro de lilás, pele de suor. Brincamos, e rimos, e choramos. A cidade pela boca, a janela embaçada, o barulho lá fora agora calou. Suas mãos, tão minhas, minhas, tão suas. Parte de mim e todo, seu todo que eu preencho. Uma só. Dentro e fora, por dentro e por fora, rasgamos. Rolamos, caímos, levantamos, nos jogamos. Sentimos, e sentimos o suor. Toco, sua pele, seu rosto, seu doce, seu cabelo, sua cor. Não cansamos de brincar. Pequena, cabe na minha pele, cabe na mão, na minha boca só quer ser grande. O cigarro acendeu, o sorriso dela. O cansaço que dá sede. Vem, fica nos meus braços. Prometo que te pego se você cair. Não te deixo, não me deixa. Mas a cidade foi acordada, e o sol sobre os prédios. O trânsito de vidas que não espera. Estivemos ali. E saímos. Obrigada, não mude, até mais. Adeus?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Pequena em um Pequeno Sonho.

Mais uma vez que você veio sem eu te chamar. Eu estava atrasada, correndo para ir de novo embora. Já não era mais hora de ficar. Sentei, porém, e por ali conversei. Com tênis antigos eu te esperava sem saber. E você veio. Apareceu na porta, com alguém, mas logo deixou esse alguém para ficar comigo. Nem sei por que você veio pra mim e não ficou com ela. Ela era mais bonita, mais magra, mais diferente, tatuada e interessante. Eu continuava a mesma, sem expressão, sem graça, normal. Mas ainda assim você me quis por alguns instantes. Depois acho que até se perdeu na minha conversa e esqueceu que eu não era nada demais. Saímos dali, estava muito escuro, cheio, barulhento. Queríamos paz e luz pra nos vermos e nos entendermos. Procuramos lugares, procuramos chão, procuramos. Um lago surgiu de repente e nós que há horas já estávamos cansadas de falar buscamos um pedaço de grama pra sentar. As palavras não morreram, não morriam nunca. Agora eu te via de perto e te buscava. O tempo acelerara e eu não sabia mais como parar. Não sei o que aconteceu. E não sei no que deu. Esqueci talvez, preferi colocar no fundo da memória e embaçar as imagens. Não queria saber de nada que me surpreendesse, se é que algo me surpreende. Não escolhi o que sonhei, não se escolhe sonho. Mas sonhei, e foi bom te ver. Estou agora longe, e essa noite estive com você. Espero te encontrar de novo onde eu possa escolher as palavras, e espero que eu não acorde. Espero que em breve eu te veja de novo, e que não seja só sonho.

terça-feira, 3 de abril de 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Plural.

Um, dois, três, quatro. Não sei o que fazer com tão poucos, que tirei de muitos mais. Indo ou vindo, são quatro que ficam. Dizem que um é o que tem que ser, o segundo tem justificativa, mas o terceiro já é demais. Um quarto, só pode ser doença. Que há de errado com você? Nada, tenho certeza. São diferentes, entendam. Querem ser fantasma, querem ser faísca, querem ser perturbações perigosas. Mas há quem queira ser pra sempre, quem queira ser tudo. Fui com todos e muitos mais, fico com poucos, dentro de uma caixa. Quando preciso de suor escolho um, para brincar puxo outro, quando tento de novo entender, devagar olho e com medo logo me afasto. Cada um com uma função, um com o pleno. Inventaram essa tal de mono alguma coisa e eu não quis acreditar que era possível. Nem quis cumprir. Hoje, com muita dor e controle, acredito, e cumpro. Na vida real. Nos pensamentos todos são, todos se misturam e eu não me importo. Dentro da imaginação cada noite é de um, e cada um é uma noite. Também sou muitos, com muitas cores e máscaras, por que para cada um sou o que querem que eu seja. Visto-me para cada ocasião, escolho o tom das palavras e o ponto de partida. O de chegada, porém, sempre requer muita atenção. Afinal todos têm seus únicos, eu não sou o único. Não sei bem o que para eles sou, se têm outros ou sou só eu. Penso e finjo que sou o centro das atenções. Tudo girando ao meu redor, isso é o que imagino. Não sinto culpa com o segundo, nem com o terceiro, muito menos com o quarto. Sinto-me inocente por deixar nas palavras o que poderia escapar pela boca. O primeiro deve saber o que faço, ele também deve ter seus muitos. Espero que tenha. Penso que a sabedoria e o fiel é manter tudo isso em uma meia dúzia de páginas. Errado é o que deixa escapar. Não que eu não queira um dia perder o controle, mas me controlo para não querer. Ah, vai, não me digam que nunca quiseram, não mintam! Já até me contaram histórias, mas hoje também sabem se controlar. Penso, porém, que um agora é que acorda pra esse mundo de confusões e números. Cuidado, se se deixarem levar podem nunca mais voltar. Prestem todos atenção no que vos digo! Pelo que (in)felizmente fiz digo que nem comecem, deixem escrito. Fiz, por que não imaginei, nem escrevi. Estava, eu, lá. Em um papelzinho com todas as palavras sujas, em músicas com segredos e em palavras com passado é como se faz essas coisas. Guardem. Deixem sempre, porém, espaço para pensar e sentir o pensamento. Essa tal de mono dentro de toda uma gama me deixa confuso. Confuso, porém, decidido. Decidi com o primeiro que seremos de outros, mas juntos. E que o pensamento, cada um com os seus. Espero que também pensem em mim e que saibam se comportar. Não percam nunca o primeiro, pois os outros nunca o serão. Eu vivo então comigo, com você, com eles e com elas.

terça-feira, 20 de março de 2012

Dois em Um.


É, é a vida. Pro inferno com essa história de vida. Vai, fica calado e olha o tempo passar, espera teu destino te molhar, aguarda que há de chegar. Fica aí, sentado, frustrado, alheio, recolhendo garrafas, papéis. Daqui a uns anos eu venho te contar que vivi enquanto você esteve confortável. Corre atrás dela, seja ela mais uma, seja ela teu amanhã. O tempo vai passar, não volta, e você vai se arrepender  de não ter tentado mais uma vez. Eu dizia, vem comigo que eu te levo pro mundo. Tenho certeza que você, diferente de mim, nem precisava ir tão longe. Bastava ir, e não voltar. Ainda é tão óbvia essa tua sede de partir, mais óbvia é tua falta de coragem. Falou, fala, diz que vai, e fica, e chora. Diz que a vida é uma merda, finge que gosta dela, e que não teve o que quis, mas vai fazendo o que vier. E você ainda não mudou. Já te disse pra viver, não sei, nem nunca saberei se me ouviu. Quem sabe um dia nos encontraremos em um lugar ensolarado, em um supermercado ou em um bar escuro. Quem sabe um dia tomaremos um café, no frio, ou em um calor insuportável, em uma dessas cadeiras na calçada. Se pelo mundo você sair, esteja certo que me orgulharei de você. Seja no meio de prateleiras avulsas ou na água de um mar distante saberei quem você é de verdade, aliás, quem teve coragem de ser. Não pense que eu falo de mim, não, minha vida hoje é confusa e já fiz outro levantar do sofá e vir comigo pra onde der. Eu falo do que eu seus olhos querem ver, do que seu corpo quer sentir.
Até imagino histórias de um futuro, histórias sem fim, um bocado de palavras que não conspiram para um final, nem feliz, nem trágico. Em um futuro já não mais tão distante, em uma primavera ou em um outono, estarei em uma calçada, escrevendo pensamentos em um caderninho novo, o atual e o passado já estarão no fundo da gaveta. Você depois de um longo dia solitário de letras ou de mar estará por lá, caminhando com sua vida na mão, cansado, vivido, quase antigo. Estarei te observando apenas, tentando descobrir quem é você no meio da lembrança de todos aqueles homens. Mas lembrarei de você. E você me olhará. A saudade que nem sei se existe dará vontade de te abraçar, mas a falta de intimidade que você fez questão de cultivar não me permitirá te abraçar como um velho amigo. Constrangido, você vai sorrir pra mim, vai fazer algum comentário sarcástico e dizer que eu não mudei. Eu espero já não mais me incomodar com seus comentários. Perguntarei o que faz lá. Você respira fundo e diz que vive, que está vivendo. E isso me surpreende. Até que enfim! Cada vez que penso nessa história o final varia, talvez uma longa conversa cheia de surpresas, talvez um frio adeus cheio de medo de ousar, talvez o que sempre imaginei querer e hoje tenho medo de ceder. Mas se esse encontro tivesse fim não haveria graça, então invento. Não sei quem seremos, invento. Sou sempre outro, amanhã invento. Você já não me parece tão mutável, é um tanto quanto fixo, previsível, mas me esforço pra te reinventar. Às vezes vem a frustração de não ter acontecido ou me sinto culpado por ter acontecido. Ainda assim, tento viver esquecendo o que já passou e o que eu ainda quero que passe. Torço que dê sempre errado, que dê certo. Então, te dou o direito de inventar o final da história. Eu termino por aqui, ontem a noite me pareceu tão longa, mas hoje tenho muito o que fazer e isso aqui já não me interessa. E logo vai chegar a hora de dizer que eu já sabia.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ansiedade e, ainda assim, conforto. Pressa, ainda assim, conforto. Saudade, ainda, conforto. Novo, conforto.














Vida, muita vida.





Amanhã, desconfortável.

terça-feira, 6 de março de 2012

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No escuro e no frio uma criança passou correndo. Depois veio uma mulher perguntando se eu tinha visto uma jeune fille passar. Pensei se ela estava fugindo, do que eu não sei. Pensei se nesse lugar há alguma razão pra fugir. Pode até ser que haja alguma emoção atrás dessas caras de perfeição, de simpatia e educação eterna, mas não me parece necessária qualquer fuga. Desse lado está tudo organizado, tudo certo, sem riscos, sem aventura, sem raiva. Mas do outro lado da cidade tem gente que teve razões para fugir, razões sentidas no corpo, na alma, na casa. Que se organiza para desorganizar o que os faz gritar, que a cada segundo passa por riscos mortais, que se aventuram no mar pra tentar chegar a uma terra onde acham que serão ouvidos. E tem raiva, tem muita raiva. Tem gente que não pertence à perfeição, que faz protesto contra o sofrimento de muitos em um continente distante. Em frente ao protesto, porém, tem crianças sentadas discutindo com palavras de adultos, sem desejos, só papagaios. Tem discussão, tem ofensas, tem ilusões. Em um salão muito bonito, debaixo de um teto colorido, tem tristeza, tem luta, tem pouca esperança, quase nenhuma fé. Entre paredes se abandona a condição humana, se age como peões em um jogo de xadrez. Trocam-se acusações e esquece-se que todas as acusações são verdadeiras, e que dizem respeito à vida dos outros. Esquece-se dos outros. Deve ser loucura viver nesse mundo à parte, falar em nome de uma entidade inexistente, defender o que nem se sabe se é correto. Aliás, não há correto, não há evolução, porém, há gente, há gente que sofre. Há alguém que grita pelo pai que é torturado em uma prisão por ter lutado pela liberdade, a filha do rei sussurra resposta de desprezo a esse alguém. É, a filha do rei. A mesma filha do rei que senta na frente de um computador e toca música pros outros dançarem. Questiono se é realmente a mesma pessoa, ou se quando ela coloca o crachá vira um robô. Questiono se quando passam do detector de metais baixa um santo, ou melhor, um demônio, que só pensa no interesse da entidade superior inexistente. Fala o dono do mundo, fala a igreja, fala alguém em nome de meio metro quadrado de gente no meio do oceano. Falam, falam, falam, são loucos. Só escutam o que possa ofender sua crença no soberano, para então falar de novo. São loucos por que se levantam com um nome na mão pedindo a palavra, um nome que na verdade não quer dizer nada. É quase uma pré-escola “professor, professor, quero falar, quero falar!”, a diferença é que ninguém tem nada a ensinar e pouco aprenderam. Talvez nunca tenham feito o dever de casa, e, na hora da prova, rasgaram-na, ofenderam o professor e, como crianças malcriadas, disseram que ninguém manda neles. Um dos alunos, esse um pouco mais razoável, afirmou que aquela sala é uma mistura de jardim de infância com manicômio. Pois que seja, mas que não se brinque com o corpo e cabeça dos outros! O mundo não é feito de bonecos, não são pecinhas coloridas no tabuleiro de jogo. São idéias, são sentenças, são sentimentos, são corpos com vida e dor. E é engraçado que se fala de liberdade ali dentro. A criança mais forte da escola, que pode bater em todos se quiser, fala que todos podem se expressar livremente. Mas como se expressar sem falar? Sem ter a voz respeitada? E se a criança feinha e pequena do canto da sala abrir a boca pra falar do dono do pedaço com certeza a resposta será dolorosa. E a dor não é do terno debaixo do lindo teto, a dor é dos esfarrapados debaixo do céu sem chuva, que pisam no chão da realidade, que choram com a fome que mata. A dor não usa crachá, não usa plaquinha, não tem cadeira, não tem conforto. A expressão dela não recebe microfone, não é traduzida, e nem compreendida, por que não se tenta compreender. A liberdade verdadeira não pode estar em um papel com a assinatura de uma soberania invisível, a liberdade não pode ser confirmada de acordo com normas objetivas e universais. A cada um cabe uma visão de mundo, a cada um cabe uma religião ou a ausência dela, a cada um cabe uma roupa, uma pintura, uma língua, um ritual. Essas crianças gostam de subir no palanque do professor e dizer o que é a verdade, o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim. Já nos mais avançados anos de escola da humanidade ainda se repete a velha história do evoluído e do selvagem, com o nome de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Mede-se tudo em termos de riqueza. Riqueza de quem? O que é riqueza? Felicidade pode ser só um botão, ou pode mesmo ser um iate, mas cada um conhece a sua. Cansa olhar a mesma brincadeira também no pátio, os grupinhos que se unem contra outros, mas que às vezes até tem o desejo de estudar. O grupo dos grandes sempre se une para criticar os pequenos, para tirar moedinhas do bolso e dá-las como se isso fosse tudo. Ninguém quer ser visto como malvado, ninguém quer que a coordenadora chame atenção pelo mau comportamento, mas ainda assim não sabem se comportar e sempre apontam a bagunça ao amiguinho. Cansa.

Vim sem saber bem o que viria, vim sabendo que ia ser feio. Mas é mais feio do que imaginava, não é sequer glamuroso, é fedorento, é triste, é exaustivo e arranca do coração a esperança no mundo. Arranca a esperança nas roupas sociais, mas dá espaço para a angústia e a fé de que a realidade lá fora tem força. Surge o sentimento de raiva, mas uma raiva que vem para mudar. Não se conforma, se chora, se descontrola. Vontade de gritar, e de rir. O que de bom sai é a fé em quem luta de verdade, a fé naqueles que continuam morrendo, mas que morrem tentando. A liberdade, não se sabe o que é, mas o que sei é que vale a pena buscá-la. Eu fico imóvel, perambulo tonto achando que deliro. Perco-me em tanta loucura. Nessa cidade o tempo para, o que vive no mundo não entra aqui. As pessoas, calma e tranquilidade. Os alunos, jogam xadrez sem uma poeira no terno. Vivo então em um domo de vidro, inatingível, espectador de todas as tristezas e glórias.Tento não esquecer que o mundo real existe.

sábado, 21 de janeiro de 2012




Parce que je suis à Paris.
Boulevard de Montmatre, Camille Pissaro