sábado, 27 de abril de 2024

inundação

Olho nos seus olhos. Você diz que nossos corpos se misturam, ficam indistinguiveis. Concordo. Num movimento que acompanha meu coração - tão acelerado - a gente se conecta. Você diz mexe aqui, abaixa ali, mas eu fico feliz em ser guiada. É que é novo, não são memórias. As memórias já não me servem. Guardei, finalmente, os registros do carro embaçado, do meu sutiã lilás. Não preciso mais deles. Tenho você. Não te tenho, aliás. Não quero ter ninguém. Ninguém é meu. Não quero ser de ninguém. Aliás, quero por alguns minutos enquanto você sussurra no meu ouvido uma palavra que me descreve, e diz que sou sua. As vezes acho que é algum tipo de magia, um feitiço mesmo que faz a gente ficar assim. 169 BPMs. E você, tão eu. Sou menor e maior, mas fico pequena no seu ombro. Nos seus cabelos castanhos minha mão fica. Toco sua bochecha, seu queixo, seus olhos, tão brilhantes. Não sei como alguém pode me olhar assim. Nessas horas também nossos corpos se misturam. Parece que você me conhece há décadas, mas são só semanas. Você pergunta o que é que eu estou pensando. Não digo. Se na tua cama eu me perco nos teus olhos eu me acho, mas eu não posso te dizer isso. Intensidade emocionada, e Original Brasil no fundo. Você diz que combina. Ressignifico. Gosto de ver o seu sorriso, sua boca pequena um sorrisão que nem sei como cabe. Você dança pra mim como quem sente, vive, provoca. E você de costas pra mim, um mundo novo na minha frente. Vou desbravar. Você tem grit. Eu também. Um de cada vez, dois no máximo, e minha boca. Você, louca. Eu disse que iria chegar lá. Pedi paciência. Você me deu. Você organiza o caos com uma leveza que me dá vontade de falar e eu falo besteiras. É que eu sou da água, sou peixe. Vivi sempre na beira da água, e deságuo na tua cama. Um dia vamos pra algum lugar, sabe, onde eu não tenha que cuidar das minhas marés. Preciso deixar as ondas virem, e se eu te afogar peço perdão. Peço que não desista por enquanto, se puder. Mas se te doer, que me deixe ir. Sou água, e não pedra. Não vim aqui pra te machucar. Vim pra te conhecer. Pra te molhar. Porque eu também sei ser onda. Beijar teus lábios feitos pra falar francês. Pra descobrir que orelhas não servem só para te ouvir. Pra te segurar pelo rosto, com cuidado, te tocando devagar como quem tem a vida toda pra isso. Suas tatuagens um mundo pra descobrir. Seu cabelo um mar, seu (nosso) desejo uma ordem. Vim pra você, por mim.