Bate na porta antes de entrar. Entra devagar e pede licença. Se eu quiser te deixo no frio e volto ao que fazia antes. Mas não entre sem bater, não me toque sem pedir, não se esquente sem que eu permita. Não te chamei aqui, não te deixei entrar. Por favor. Foi você quem saiu, foi você quem bateu a porta e nunca mais deixou um bilhete sequer. Você escolheu fugir, você quis se esconder. Agora volta e espera que eu te acolha em minhas memórias, que eu relembre tudo o que senti, que eu sinta aquele calor insuportável. Você não deixou de ser arrogante, não perdeu a pretensão. Acha que estamos todos dispostos a te aceitar, a rir dos comentários bobos, a alegrar-nos pensando no que você pensa. Quer que eu te aplauda de pé como sempre fiz. Não farei. Vejo sua obra mas não tenho vontade de entende-la. Não quero sequer nela me procurar. Não quero te ver, não quero te ouvir, quero gritar com você e te mandar embora daqui. Se foi, não tem por que voltar. E ainda me diz que nosso futuro é um tanto comum. Some e nunca mais volta por que em mim você provoca imaginação. Provoca mentiras, provoca agonia. Naquele passado quente e sem graça foi você quem me lembrou onde eu deveria estar. E ainda lembro o quanto duvidou de mim, o quanto não acreditou em mim. Lembro das apostas da minha falência. Pois não fali. Sobrevivi e vivo muito bem. Vivo sem sequer lembrar que pisei fora da linha. Pouco me recordo que você puxou meu pé que ainda estava na linha e, antes que eu pudesse pisar fora dela e finalmente relaxar você me jogou de volta no tal caminho certo. E me disse mentiras, e riu de mim. Nada disso me importa mais. Confesso que no começo até pensava nisso tudo, bolava as tais historinhas na minha cabeça. Procurava meios de te encontrar. Cresci.
Agora chega, se queres entrar novamente, bate na porta e pede licença. Quem sabe talvez tudo aquilo que fazia um mínimo de sentido antes volte a se encaixar.