quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Transparência.
Em todo lugar estou à janela. Próximo à ela me sento, me deito, me olho, olho-te. Espio à espera de um milagre, ou à espera do fim do mundo. Espero uma chegada, mas não digo adeus aos que partem. Janela, fria, envidraçada, separa o aqui e o lá, separa ontens e hojes. Quando sem muita alegria dela me aproximo busco naqueles que lá fora andam alguma vontade para também andar. Quando de alegria me encho, nela busco conselhos sobre o que me espera. Olho a rua, vejo os daqui, lembro dos de lá. Ao lado dela choro, e rio as memórias do que ficou. Não deixo de esperar. Nessa, próxima da qual agora escrevo pouco estive, e muito vi. Vi um rio passar, e meus olhos se encheram de surpresa, também de medo. Vi pessoas gritarem, como aqui gritam excessivamente. Vi brigarem, vi a mim mesma. Vejo-me enquanto escrevo, com o olhar na tela, o coração na janela. Lá embaixo crianças correm, e lembro-me de quando estive sem alegria e não quis ve-las. Lembro-me de quando eu era assim, sem dias de alegria e de não alegria. Olho e penso na hora, que já se apressa e me manda embora. Em outra janela tive o mundo mais exposto, o meu, o deles. Em outra janela, olhei as paredes concretadas e feias, olhei um velho fumante, olhei o vizinho barulhento. Em outra janela, chorei. Nas janelas do dia me regozijo vendo o que escolhi, na janela que se move vejo a beleza que arromba a retina. Nela, pouco, muito pouco choro, por que ao lado dela estou ao lado de quem não me deixa chorar. Nas janelas que se movem suspiro, de cansaço, de saudade, de rotina. Nas grandes, enormes janelas, abertas ou fechadas vejo meus sonhos, e a vida a vida. Cortinas, essas me irritam quando há o sol. Hoje branco, nem se vê o pouco de lua e sua estrela fiel. Amanhã quem sabe, em um dia mais amarelo, nem perto da janela chegarei, dela me despedirei e agradecerei a vitrine dos belos momentos. Agora me vejo, enquanto sombra, enquanto eu, enquanto espero. Espero, e olho lá fora na esperança de um alguém. Ainda aguardo o dia em que pelo portão entrarão os que deixei para trás, pela porta entrem os que amei, e ao meu lado fiquem aqueles de quem mais sinto falta. Junto a mim, no reflexo da janela haverá minha não mais falta, mas completude. Espero, olhando, paciente.
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