quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Libreville.

Disse bom dia e sorriu derretido. O derretido fica por minha conta. Cabelos lisos, não tão compridos quanto o esperado, bem loiros. Não tão bela no piscar dos olhos, mas dona de beleza estonteante no permanecer do olhar. Bom dia! sorriu e sentou, perto demais de mim. Fui forçada a baixar meus pensamentos. Sentada, de pernas cruzadas, com a bolsa ao seu lado garantindo que ninguém sente ali se pode sentar em outro lugar, procura algo. Bom dia! sorriu, sentou e procurou na agenda um nome, provavelmente uma Carolina, talvez uma Thais, dificilmente uma Maria Antonieta. Com unhas pintadas de uma cor congelada e séria, discou. Bom dia! sorriu, sentou, procurou, discou e falou em inglês com a provável Carolina. Mas articulava tanto, com tanta intimidade que pensei ser a Carolina uma Lucy. Falou dos meninos-imaturos-que-só-querem-dizer-pros-amigos e quanto ela queria que ele fosse homem-sabe-daqueles-que-nos-ama-mesmo. Falou do Gabão, e então me ocorreu que para tal assunto ela deveria ser minimamente interessante ou inteligente. A não ser que Gabão fosse a loja vizinha a Botswana onde ela vai com a Lucy para comprar saltos altos. Não sei. Bom dia! sorriu, sentou, procurou, discou, falou e desligou, guardando aquele imenso aparelho sobre o qual eu nada entendo em sua imensa bolsa ecológica. Encostou seus finíssimos cabelos no sujo banco, e é claro que meu desejo foi colocar ali aqueles enconstadores de cabeça pricewaterhousecoopers de avião. Admirou seu reflexo no vidro. Belo perfil. Notou meu olhar curioso (curioso?) em direção ao seu reflexo e virou para frente. Bom dia! sorriu, sentou, procurou, discou, falou, desligou, encostou, notou, virou. Sem que eu pudesse reagir levantou e andou e antes que eu pudesse recontar suas ações olhou para mim, sorriu e ei-lo: Bom dia! Ah, meu pobre coração disparou, ou talvez tenha sido o susto da freada brusca que projetou meu corpo para frente. Adeus, bela! Encontro-te no Gabão.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Liebesunterricht

"Aber, Mädchen, ich empfehle
Etwas Lockung im Gekreisch:
Fleischlich lieb ich mir die Seele
Und beseelt lieb ich das Fleisch.
"

Bertolt Brecht.

Schiele.

domingo, 1 de agosto de 2010

Acasos.

Alguem se aproxima. Anuncio que é Alguem. Assusto-me e emudeço, aguardo o inevitável encontro. Quis gritar, quis espernear, quis chamar atenção. Mas é claro que não tive coragem. Os olhares então, como esperado, se cruzam. Não sei se paro, Alguem também não sabe, fugir já é impossível. Vontades, todas as dores e alegrias, tudo o que já fora sepultado cresce. Minhas pernas tremem, o batimento acelera, e pior é a certeza de que Alguem também sentiu. Olhei para os olhos, olhei ao redor, e nesse redor achei aquilo que sempre me fez tentar não olhar nos olhos, a responsabilidade do erro. Dessa vez porém, a sensação era outra, não era de tentar segurar e querer, mas de insultar, gritar, expor. O grito que viria era de cólera, também de surpresa, em parte de alegria. Consegui me calar. Alguem olha para mim para ter certeza do que vê e quando cruza os olhos no redor que eu olhava percebe que não sabe o que fazer. Não sabe, ou não pode fazer o que quer fazer. Mais um vez, chegamos ao limite que já havia. Pergunto-me se seremos capazes de estabelecer novos limites em uma vida outra que não essa que vivemos. Duas letras é o que sai de nossas bocas, ou teriam sido três. Com as letras o sorriso torto, e para evitar qualquer palavra que demonstre qualquer verdade, corro. Não esperava, não previa, não quis prever. Acaso desagradável. Dessa vez era tão curto, tão pouco óbvio e justamente na vez em que nem sabia pra onde ia e fui sou posto de volta ao chão. Fatídico o dia em que resolvo repetir os os passos dos anos passados, estavam claros os riscos que eu corria. Fico inquieto, me pergunto a razão de Alguem ter que aparecer justo agora. Alguem envelheceu, Alguem entristeceu, Alguem perdeu a mágica. Penso no que Alguem faz ali naquele momento, visto que tanto prefere as madrugadas nos corredores mal iluminados dos hipermercados toscos. Alguem não é algo, é mais um, de tantos outros com seus redores naqueles corredores lotados em busca de cadernos. Alguem não passa de um, com seu redor, sua melancolia e suas dores. E eu aqui, que tanto criei, buscando saidas para seu tédio sem saber que o tédio é sua parte. Tão mais sei hoje que de muitos alguens é feita a vida, e que alguem nunca será Alguem, se não minha ilusão. Continuo minha caminhada imerso no passado que a cada acaso se torna presente. Sigo conformado com a inevitabilidade de tais encontros, aprendo que por mais que só procure aqueles que me interessam, estou condenado a esbarrar nos que mais me incomodam. Sem mais um Alguem reduzo o medo desses pequenos retornos e seus acasos.