Ela é magra, delicada, reluzente. Ele urso, carinhoso. Entre eles amor. Amizade. Tesão. Uma vida inteira juntos. Construindo do nada toda uma história, um legado. Não sei se me assusto ou me atraio. Hoje ela brilhava, rindo. Fiz que ela risse. Ele também riu. No holofote sabendo quem me observa, êxtase. Termino meu show e não me calo. Falo pelos cotovelos. Eles e seu carro tecnológico. A vontade é de ficar, mas eles tem uma vida pra voltar. Eu também tenho. Ando subindo em palcos mais aplaudidos. Mais gente tem me visto. Parece tenho fãs. Quem venha me ver. É uma nova sensação. Mais uma dentro de tantas novas. Dois. E eu. Acordo todos os dias e me engasgo na quantidade de tarefas, não consigo mover. E então eles me suspendem um pouco de tudo. Respiro, despreocupada. É como entrar e ser acolhido em uma fortaleza. Potente. Nem sei porque escrevo nessa língua que eles nem vão entender. Mas é que só o Português tem o que de poesia que é preciso pra falar deles. Sabe amor com sabor de fruta mordida? Não entenderiam, mas é o que são. E eu me permito.
terça-feira, 17 de junho de 2025
sexta-feira, 13 de junho de 2025
para Ana
Escrevo pra que eu possa me lembrar de mim. Antes que eu me perca. Para que se eu voltar a ser bicho, eu volte a ser gente. Andei, e vi. Vivi. Errei. Sobrevivi.
Disse não por mim. Disse não pra ter mais de mim. Ter meu tempo de volta. Lá atrás larguei sonhos. Agora neles me agarro, pra que eu me mantenha curiosa. Morri, renasci. Vivi quatro vidas. A quinta é minha favorita.
Disse sim por curiosidade. Por que será que tanto insiste. É preciso saber. Olhar. Sentir. Tocar. E de repente perdida nos meus pensamentos dentro dos seus olhos. Sorri, chorei. Ri sem parar. Fiz rir.
Olho pra trás e finalmente vejo o que outros veem. O caminho que percorri, as escolhas que fiz. Se diferente fosse aqui não estaria. E é aqui que quero estar. Dando tudo de mim por mim. Por ninguém mais. Aprendi a nadar, já disse.
Danço e falo e rio e a vida passa assim, leve. Falo do meu coração o que vejo. Não consigo calar. As vezes falo demais. As palavras são tantas e passam tão rápido que parece que preciso as por pra fora. Não é ideal. Mas não sou ideal. Sou um pouco de tudo.
Admiro minha companhia. Meu reflexo no espelho. Não sei como tanta dor me trouxe aqui. Tanta escolha. Planos enormes, disse meu tio também que coragem tenho. Me enxergo do meu tamanho. Contemplo ao som de maria+ana, you've been good to me and I've been good to you.
Tantos amores. Tanto amar. Transbordo. Amo por intermédio. Protejo. Não sei não amar. Faz parte do meu experimentar. Do meu viver. Amo tantas, admiro. Acolho. Aprendi a ter comunidade. A pertencer de novo. Meu mundo é esse. Minhas casas são muitas.
Escrevo pra te dizer que fique, que nunca mais queira ir. Que lembre dessa noite, dos amores, dos caminhos e do tamanho. Ocupe o tamanho que tem no mundo.
domingo, 8 de junho de 2025
memórias póstumas de uma tentativa
Viver como vivo as vezes mata. Eu cansei de morrer. Ninguém me faz pegar fogo como Bê. Ninguém me faz chorar como Bê. Hora escrevo do nosso amor, hora escrevo da minha dor. Não mais. Desde a última primavera morri, ressuscitei, morri de novo, ressuscitei de novo. Já perdi as contas de quantas vezes. Essa semana morri por Bê pela última vez.
Não digo que não morrerei nunca mais por outras razões. A vida é imprevisível demais pra que se tenha certeza da não-morte. Mas o tempo veio passando e as minhas mortes foram diminuindo. Meus lutos foram diminuindo. Fui reconstruindo minha vida, meu caminho, meu chão. Ontem contei pra minha mãe: tenho planos de médio prazo pela primeira vez. Não quero morrer mais. Quero estar viva e quero caminhar. Quero viver os sonhos que me convenci serem impossíveis a tantos anos atrás. Quero ouvir meu nome mais vezes. Quero lê-lo mais vezes.
Parece que o ciclo se fechou. Closure, eles chamam. Eu não podia desistir de Bê sem tentar. Tentei. Não deu. Não dá. Não deixei meu pente de madeira pra me acomodar em um de plástico que tanto me despenteia, descabela. Não. Meus cabelos são belos demais pra não receberem cafuné. Meus cabelos são belos demais pra viverem presos.
Eu me dou. Corpo, alma, cabeça, palavras, atos, planos. Não quero mais quem não me queira por inteiro. Não quero quem tente me convencer de que transparência e entrega são assustadores ou limitantes. Não. A verdadeira liberdade está em não precisar medir passos, palavras e beijos. A liberdade é se dar pro outro e receber o outro em troca. Não por que se depende dele, mas por que se ama. Incondicionalmente. Verdadeiramente.
Eu busco a paz desde que de casa sai, aos dezessete. Nunca soube quais os termos dessa paz. Tentei encontra-la me fazendo menor. Não ocupando muito espaço. Não falando. Deixando de lado os sonhos que pareciam incomodar ou desafiar demais. Dizendo sim pra tudo e todos. Não me trouxe paz. Trouxe um falso senso de conforto que toda vez que era quebrado virava morte. Não mais.
Sinto que agora sei qual é a paz que busco, e já a encontrei. Estou me despedindo de bê há um tempo. Já desde o meu ano novo certas coisas se tornaram inaceitáveis. Se os 33 foram de milagre, os 34 são de trabalho pra fazer acontecer. Trabalhei em Bê, tentei. Tentei tudo que pude e não posso mais por que paz não há. Se posso dar paz ao meu coração é o que darei. Afinal, meus sonhos são grandes demais, meu nome é grande demais pra qualquer outra opção.
Tenho planos de médio prazo. Sei o que quero de mim, do mundo, da minha futura mulher. Ou homem. Sei quem sou e qual o mundo que me sustenta. Qual me suga. Qual me cura. Estou pondo os cintos de segurança pra passar pela última tempestade que Bê terá. Do outro lado, um sol vai renascer sobre o que nos conecta e enfim haverá paz.
Tudo o que dei foi de coração. Sei que bê nunca vai me esquecer. Que nunca vai deixar de ser grata, mesmo que não saiba expressar. E basta. Espero que Bê finalmente aprenda a amar quem a ama. Que pegue o que dei e faça o bem nesse mundo. Que lembre de mim quando o lado escuro das coisas chamar e não vá. Espero que Bê seja feliz. Eu serei feliz, pois já sou. Mais uma vez morri, mais uma vez vivo.
quinta-feira, 5 de junho de 2025
Sufocante
Estou aqui escrevendo para marcar o dia em que você me perdeu. Estou escrevendo para te dizer que hoje, já não posso mais aceitar. Estou escrevendo pra lembrar que sou mulher demais para você. Fique com seu tesão, fique com sua insegurança, só não fique comigo. O parto que foi você ir me assistir no palco.
Estou escrevendo pra dizer tudo aquilo que já disse pra mim mesma. O drama não sou eu, é você. É você achar que o mundo gira ao seu redor. Lá vem você novamente dizer que eu te sufoco apenas por eu querer estar com pessoas que você está. Quem as conheceu fui eu. Quem construiu fui eu. Quem te deu fui eu. Queria eu que fosse sobre isso, mas a verdade é que enquanto você me fazia pensar que o problema era a minha ação, você assistia todo um grupo mentir pra mim, calada. Desleal.
É cansativo crescer, evoluir, mudar, e você parada no tempo. Fiz tudo o que você me pediu. Te dei amor, cuidado, carinho, suporte, todos os dias. Mudei meus planos por você. Dei meu tempo pro seu bem. Não mais. Não tenho tempo, não tenho paciência, não tenho sequer lágrimas mais pra chorar. Não tem salvação se só uma de nós quer fazer diferente. Minha liberdade não foi fácil de conquistar. Não estou disposta a joga-la fora para caber no mínimo espaço que você me disponibilizou pra estar na sua vida. Não cheguei até aqui pra me diminuir por você. Pra ser usada apenas quando necessária. Incluída apenas quando confortável. Meu papel não é, nem nunca será, te deixar confortável.
Se o que você queria era uma saída, cá está. Meu coração não te quer mais por que não quer mais chorar. Meu corpo respondeu em alto e bom som: chega. As vezes eu preciso sentir na pele pra me escutar. Pois escutei e digo que você não me merece. Chega de mentiras e meias verdades. Sua sorte é que mesmo ouvindo que por seis meses você me aguentou só pelo papel eu não vou ser cruel e te tirar o que de coração te dei.
Encerro por aqui te dizendo novamente: você se esforçou e conseguiu. Parabéns, você me perdeu. Se estava sufocada, pode respirar a vontade. Se estava ocupada demais pra falar um oi, vá se ocupar ainda mais. Se tudo que eu digo, faço e sonho te assusta, fique sem mim. Se sou difícil, fique na facilidade de viver sozinha. As mãos ao redor do pescoço são as suas próprias, no seu. O jogo acabou. Bem vinda a minha estante.