quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Benefício da dúvida

Provavelmente aquele que não sabia se era homem ou mulher, se era grande ou pequeno, se ia ou não ia disse que era bom duvidar. Fazemos, esperamos, planejamos. Pensamos que somos estáveis, nos achamos fixos, gostamos da previsibilidade. A segurança, buscada por muitos, parece ser o caminho para a felicidade. O caminho é reto e a cada curva nos irritamos com a dificuldade que é ser torto. Pois torto foi aquilo que nos disseram os grandes nomes, seu destino é torto, à esquerda, gauche. Os mortais porém, sem drama nem sex appeal não querem os desvios, querem apenas o ar de quem pisa em falso para seduzir enquanto jovens. Queremos ser cool, e ser cool é ser torto. A fixidez e as certezas porém são incansavelmente buscadas, o salário no fim do mês, a aliança no dedo, a casa própria, o país. Ser torto é torto, não é cool ter incertezas, não depois de uma certa idade. Dizem que é hora de perceber e cair na real, parar de achar que a dúvida é uma dádiva, que deveríamos nos contentar com o que temos. Ilusão. Ilusão é achar que tudo é tão certo assim. Por que teto, por que raiz? E o ciúme, dizem que é doença, o que é para além da dúvida? Duvidar nos rende perguntas, perguntas levam a novas respotas, e ainda podemos mudar as coisas. Conformados, formados, casados, habitados, estatisticados, controlados.Queremos controle sobre nossas vidas, nosso dinheiro, nosso casal e esquecemos que não temos controle sobre nós mesmos. Em nossas veias injetam o controle, mas o que corre em nós ousa duvidar. Não deveríamos nos encaixar, quiçá pertencer. A dúvida é benefício, é dádiva, é dom. Não é dos pequenos, não é dos grandes. A dúvida é a realidade, por que a realidade é uma dúvida. Nem mulheres, nem homens, nem cidadãos, nem estrangeiros. Somos todos fluidos, figuras mutantes e efemeras perambulando por um mundo caótico em busca de respostas. Batemos a cabeça na porta da estabilidade a cada vez que não saimos da linha.
Duvidar é viver, na certeza e regularidade da a-probabilidade não há vida. E pensar que tudo isso vem da dúvida de escrever ou não, de ligar ou não, de chorar ou não. Não, não vou reclamar de não saber. Não quero saber. Quero duvidar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Non Refoulement.

Não é de verdade, não é real, não é real, não é real. Acorda. Memórias confusas que não me dizem nada sussurram movimentos e rostos. O escuro e o calor, os corpos, os sons, tudo vem a mim e me oprime. Falo de hoje, falo de amanhã, falo da vida, falo de teoria. Ouço, ouço muito perto, estranho. Eles falam, falam, gritam, sussurram e eu não entendo. Um diz um passado, o outro o mais que perfeito, o outro sabe do futuro. Eu não acompanho, nada disso é mais verdade, nem será. Tenho medo do que possam falar, guardam tantos segredos, mas o tempo passa rápido demais e todos se calam. O que eu quero é respirar nesse ar cheio de ofegantes mulheres e orgulhosos homens, não me é permitido, porém, o prazer de sentir meu peito. Lugar cheio, lugar quente, gente, muita gente. Um corpo conhecido, um rosto já visto, muitos nomes. O tempo parado nesse lugar, não sei se é ontem, se é hoje. Cospem memórias que não me pertencem, ou não sei se as apaguei. Fiz isso, fiz aquilo, sou esse, sou aquele. Será assim, vou te encontrar, vou te contactar, vamos conversar. Promessas que não virão, escolhas que não farão. Retiramo-nos desses pontos apertados e falsos há 2 anos, agora rimos de verdade, e olhamos, com razão. Há ainda aqueles que alegram o encontro, mas ainda esses são estranhos, pois são desencaixados. Com esses falo, me gabo, me mostro, e brinco. Esses porém parecem achar engraçado que me transformei, e sei o que ainda pensam de mim. Não quero saber dos que não quero, não quero ver quem não quero e meus olhos ardem, minhas pernas fraquejam, minha cabeça duvida. O que há? Então fica tudo claro e distinguo a batida forte que ecoa pelos ouvidos daquilo que meu corpo me diz. Na luz, na cama, no equilibrio, entendo que tudo pode ter sido só um sonho e que nada mudou. Aqueles que me cercaram, me apontaram, acusaram, não tem relevância, por que estou longe. Aquele que me surpreendeu, que falou muito perto, esse nem mais simpatia tenho. O outro, para quem expus minha mente, esse parece revelar o passado que resultou no presente, e agrada manter apenas essa lembrança.
Estou aqui por tudo que vivi, e já não quero mais saber do antes. No escuro todos são iguais, vultos de uma memória apagada e zonza. Do escuro só quero sair, sentir minha respiração e saber que não há nada com o que me preocupar. Sem os sons alheios, com a música conhecida, em minhas paredes, penso que estou em melhor agora e não há razões para voltar. Alívio, todas as vezes que retorno.

sábado, 4 de dezembro de 2010





Não sei se são memórias ou se é novo.


We are all refugees.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Transparência.

Em todo lugar estou à janela. Próximo à ela me sento, me deito, me olho, olho-te. Espio à espera de um milagre, ou à espera do fim do mundo. Espero uma chegada, mas não digo adeus aos que partem. Janela, fria, envidraçada, separa o aqui e o lá, separa ontens e hojes. Quando sem muita alegria dela me aproximo busco naqueles que lá fora andam alguma vontade para também andar. Quando de alegria me encho, nela busco conselhos sobre o que me espera. Olho a rua, vejo os daqui, lembro dos de lá. Ao lado dela choro, e rio as memórias do que ficou. Não deixo de esperar. Nessa, próxima da qual agora escrevo pouco estive, e muito vi. Vi um rio passar, e meus olhos se encheram de surpresa, também de medo. Vi pessoas gritarem, como aqui gritam excessivamente. Vi brigarem, vi a mim mesma. Vejo-me enquanto escrevo, com o olhar na tela, o coração na janela. Lá embaixo crianças correm, e lembro-me de quando estive sem alegria e não quis ve-las. Lembro-me de quando eu era assim, sem dias de alegria e de não alegria. Olho e penso na hora, que já se apressa e me manda embora. Em outra janela tive o mundo mais exposto, o meu, o deles. Em outra janela, olhei as paredes concretadas e feias, olhei um velho fumante, olhei o vizinho barulhento. Em outra janela, chorei. Nas janelas do dia me regozijo vendo o que escolhi, na janela que se move vejo a beleza que arromba a retina. Nela, pouco, muito pouco choro, por que ao lado dela estou ao lado de quem não me deixa chorar. Nas janelas que se movem suspiro, de cansaço, de saudade, de rotina. Nas grandes, enormes janelas, abertas ou fechadas vejo meus sonhos, e a vida a vida. Cortinas, essas me irritam quando há o sol. Hoje branco, nem se vê o pouco de lua e sua estrela fiel. Amanhã quem sabe, em um dia mais amarelo, nem perto da janela chegarei, dela me despedirei e agradecerei a vitrine dos belos momentos. Agora me vejo, enquanto sombra, enquanto eu, enquanto espero. Espero, e olho lá fora na esperança de um alguém. Ainda aguardo o dia em que pelo portão entrarão os que deixei para trás, pela porta entrem os que amei, e ao meu lado fiquem aqueles de quem mais sinto falta. Junto a mim, no reflexo da janela haverá minha não mais falta, mas completude. Espero, olhando, paciente.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Libreville.

Disse bom dia e sorriu derretido. O derretido fica por minha conta. Cabelos lisos, não tão compridos quanto o esperado, bem loiros. Não tão bela no piscar dos olhos, mas dona de beleza estonteante no permanecer do olhar. Bom dia! sorriu e sentou, perto demais de mim. Fui forçada a baixar meus pensamentos. Sentada, de pernas cruzadas, com a bolsa ao seu lado garantindo que ninguém sente ali se pode sentar em outro lugar, procura algo. Bom dia! sorriu, sentou e procurou na agenda um nome, provavelmente uma Carolina, talvez uma Thais, dificilmente uma Maria Antonieta. Com unhas pintadas de uma cor congelada e séria, discou. Bom dia! sorriu, sentou, procurou, discou e falou em inglês com a provável Carolina. Mas articulava tanto, com tanta intimidade que pensei ser a Carolina uma Lucy. Falou dos meninos-imaturos-que-só-querem-dizer-pros-amigos e quanto ela queria que ele fosse homem-sabe-daqueles-que-nos-ama-mesmo. Falou do Gabão, e então me ocorreu que para tal assunto ela deveria ser minimamente interessante ou inteligente. A não ser que Gabão fosse a loja vizinha a Botswana onde ela vai com a Lucy para comprar saltos altos. Não sei. Bom dia! sorriu, sentou, procurou, discou, falou e desligou, guardando aquele imenso aparelho sobre o qual eu nada entendo em sua imensa bolsa ecológica. Encostou seus finíssimos cabelos no sujo banco, e é claro que meu desejo foi colocar ali aqueles enconstadores de cabeça pricewaterhousecoopers de avião. Admirou seu reflexo no vidro. Belo perfil. Notou meu olhar curioso (curioso?) em direção ao seu reflexo e virou para frente. Bom dia! sorriu, sentou, procurou, discou, falou, desligou, encostou, notou, virou. Sem que eu pudesse reagir levantou e andou e antes que eu pudesse recontar suas ações olhou para mim, sorriu e ei-lo: Bom dia! Ah, meu pobre coração disparou, ou talvez tenha sido o susto da freada brusca que projetou meu corpo para frente. Adeus, bela! Encontro-te no Gabão.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Liebesunterricht

"Aber, Mädchen, ich empfehle
Etwas Lockung im Gekreisch:
Fleischlich lieb ich mir die Seele
Und beseelt lieb ich das Fleisch.
"

Bertolt Brecht.

Schiele.

domingo, 1 de agosto de 2010

Acasos.

Alguem se aproxima. Anuncio que é Alguem. Assusto-me e emudeço, aguardo o inevitável encontro. Quis gritar, quis espernear, quis chamar atenção. Mas é claro que não tive coragem. Os olhares então, como esperado, se cruzam. Não sei se paro, Alguem também não sabe, fugir já é impossível. Vontades, todas as dores e alegrias, tudo o que já fora sepultado cresce. Minhas pernas tremem, o batimento acelera, e pior é a certeza de que Alguem também sentiu. Olhei para os olhos, olhei ao redor, e nesse redor achei aquilo que sempre me fez tentar não olhar nos olhos, a responsabilidade do erro. Dessa vez porém, a sensação era outra, não era de tentar segurar e querer, mas de insultar, gritar, expor. O grito que viria era de cólera, também de surpresa, em parte de alegria. Consegui me calar. Alguem olha para mim para ter certeza do que vê e quando cruza os olhos no redor que eu olhava percebe que não sabe o que fazer. Não sabe, ou não pode fazer o que quer fazer. Mais um vez, chegamos ao limite que já havia. Pergunto-me se seremos capazes de estabelecer novos limites em uma vida outra que não essa que vivemos. Duas letras é o que sai de nossas bocas, ou teriam sido três. Com as letras o sorriso torto, e para evitar qualquer palavra que demonstre qualquer verdade, corro. Não esperava, não previa, não quis prever. Acaso desagradável. Dessa vez era tão curto, tão pouco óbvio e justamente na vez em que nem sabia pra onde ia e fui sou posto de volta ao chão. Fatídico o dia em que resolvo repetir os os passos dos anos passados, estavam claros os riscos que eu corria. Fico inquieto, me pergunto a razão de Alguem ter que aparecer justo agora. Alguem envelheceu, Alguem entristeceu, Alguem perdeu a mágica. Penso no que Alguem faz ali naquele momento, visto que tanto prefere as madrugadas nos corredores mal iluminados dos hipermercados toscos. Alguem não é algo, é mais um, de tantos outros com seus redores naqueles corredores lotados em busca de cadernos. Alguem não passa de um, com seu redor, sua melancolia e suas dores. E eu aqui, que tanto criei, buscando saidas para seu tédio sem saber que o tédio é sua parte. Tão mais sei hoje que de muitos alguens é feita a vida, e que alguem nunca será Alguem, se não minha ilusão. Continuo minha caminhada imerso no passado que a cada acaso se torna presente. Sigo conformado com a inevitabilidade de tais encontros, aprendo que por mais que só procure aqueles que me interessam, estou condenado a esbarrar nos que mais me incomodam. Sem mais um Alguem reduzo o medo desses pequenos retornos e seus acasos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Em Frente.

Olhar pro passado não pelos sorrisos, mas pelas palavras, fazem-me retornar imediatamente ao dia que sentei e escrevi. Retorno sem querer retornar, querendo olhar como olho os sorrisos, com uma distância inerte. Sorrisos são iguais, os meus pelo menos. Continuidade não dói. As palavras, porém, refletem cada segundo da nossa eternidade, e de tantos segundos, e de tanta dor, essa eternidade é feita. Palavras nos trazem o momento em que sentamos para escrever, mais do que nos trazem aquilo sobre o que escrevemos um dia. Palavras machucam, palavras fazem rir, fazem sorrir e agora me fazem chorar. Cada letra é um meio segundo que penso, que me transformo, que me edito. Edito hoje tão mais que editava anos atrás. Edito por que hoje me preocupo, por que minhas intenções são outras. Não editava, escrevia, e escrevia como falava. Certo, errado, torto, reto, escrevi e fui o que quis ser, sem me moldar. Exagerei, e foi bom exagerar. Hoje sou comedida, moldada, editada, não-exagerada. Sou pequena, mas sou grande, sou preto e branco, mas chorei ao deixar de ser colorida. Escrevo com sinceridade, escrevo com verdades, as verdades que antes não existiam. Já usei palavras pra descrever um amor (amor?), pra agradecer uma amizade, pra despejar desejos. Usei palavras para magoar, palavras para distrair, palavras pra seduzir e pra suportar. Não sei mais pra que as uso. Não tenho quem seduzir dessa forma, não tenho ninguém a quem impressionar, não há quem não saiba o que penso, quero, e faço. Revelei palavras demais, e vou continuar revelando. Palavras minhas, palavras dele, palavras poucas, palavras certas. Escrever tinha graça por que a graça estava em responder. Leio tudo o que escrevi, reparo no que mudei, rio do que era normal. Escrevia sem regra, sem lugar pra escrever. Era livre, era bonito, era puro. Era, e não é mais. Nas paredes, na escola, no quarto e na janela, rabiscava no livro, no caderno, no quadro e na tela. E sentia prazer, e não levava a sério. Então me regulei, me pautei, me coloquei. Leram, e ficou ainda mais livre, mais bonito, mais puro. Agora não lêem mais. Não aprovam, nem desaprovam, não compadecem e nem desgostam. Agora as palavras são minhas, e são sozinhas, são pra ninguém. Não há com quem falar, não há com quem brincar. Nem se brinca mais. Seduzir é corpo a corpo, magoar é cara a cara, chorar é ombro a ombro. Não vêm mais aqui, e eu não vou mais lá.Nem mais aulas, nem mais banheiros. Palavras escritas já não me fazem tão bem, por que não são lidas por ninguém.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Crise.

Não sabemos que fazemos, não sabemos que queremos, não somos o que queríamos. Em algum momento queríamos, e o que queríamos se perdeu totalmente. Não sabemos para onde vamos, não queremos ir à lugar algum. Somos tristes, somos frustrados, somos irrealizados, irreconhecíveis. Não somos jovens, somos grandes, somos grandes e chatos. Chatos e reformistas, não queremos mais nada. Não nascemos pra isso , não queremos mais além, não queremos incertezas. Somos insuportáveis. Eles nos enojam, nos enojam e nos cansam, nos enojavm, nos cansam e nos dão inveja. Nós queremos rabos-de-cavalo e mochilas, queremos correr pela escola, queremos chorar o amor perdido. Queremos voltar e ser diferente, queremos aproveitar mais, queremos construir de novo. Queremos re-conhecer nosso passado, re-enfrentar nossas escolhas e escolher de novo. Queremos coragem, coragem, coragem. Pra levantar, pra andar, pra correr. Coragem pra ir, pra mudar, pra saber. Coragem pra brincar. Então queremos vida, suplicamos por vida, por extase, pr novidade. Queremos risos, risos, risos! Queremos inocência e malícia, queremos sonhos. Queremos de novo.
Não buscamos, não tentamos, nos iludimos. Achamos ter razão, achamo-nos certos, achamo-nos decididos. Não. Queremos revolução, queremos movimento, queremos paixão. Somos sem graça, sisudos e donos de si, somos absurdos, resultados de um tempo em que fomos forçados a subir ao pódio e aceitar prêmios pelo que nunca quisemos. Somos pouco, pouco para nós mesmos. Sugamo-nos uns aos outros sem jamais nos satisfazer. Somos iguais a eles, somos a nova era, somos a última esperança. Somos o que não queremos ser, mas queríamos ser o que somos. E agora queremos ser mais, bem mais. Queremos ser excesso.

segunda-feira, 26 de abril de 2010


Não vai embora.










Fica.

sábado, 27 de março de 2010


Van Gogh.


Enivrez-vous

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.

Baudelaire

Vontade tardia de ser um funcionário público.

Bate na porta antes de entrar. Entra devagar e pede licença. Se eu quiser te deixo no frio e volto ao que fazia antes. Mas não entre sem bater, não me toque sem pedir, não se esquente sem que eu permita. Não te chamei aqui, não te deixei entrar. Por favor. Foi você quem saiu, foi você quem bateu a porta e nunca mais deixou um bilhete sequer. Você escolheu fugir, você quis se esconder. Agora volta e espera que eu te acolha em minhas memórias, que eu relembre tudo o que senti, que eu sinta aquele calor insuportável. Você não deixou de ser arrogante, não perdeu a pretensão. Acha que estamos todos dispostos a te aceitar, a rir dos comentários bobos, a alegrar-nos pensando no que você pensa. Quer que eu te aplauda de pé como sempre fiz. Não farei. Vejo sua obra mas não tenho vontade de entende-la. Não quero sequer nela me procurar. Não quero te ver, não quero te ouvir, quero gritar com você e te mandar embora daqui. Se foi, não tem por que voltar. E ainda me diz que nosso futuro é um tanto comum. Some e nunca mais volta por que em mim você provoca imaginação. Provoca mentiras, provoca agonia. Naquele passado quente e sem graça foi você quem me lembrou onde eu deveria estar. E ainda lembro o quanto duvidou de mim, o quanto não acreditou em mim. Lembro das apostas da minha falência. Pois não fali. Sobrevivi e vivo muito bem. Vivo sem sequer lembrar que pisei fora da linha. Pouco me recordo que você puxou meu pé que ainda estava na linha e, antes que eu pudesse pisar fora dela e finalmente relaxar você me jogou de volta no tal caminho certo. E me disse mentiras, e riu de mim. Nada disso me importa mais. Confesso que no começo até pensava nisso tudo, bolava as tais historinhas na minha cabeça. Procurava meios de te encontrar. Cresci.
Agora chega, se queres entrar novamente, bate na porta e pede licença. Quem sabe talvez tudo aquilo que fazia um mínimo de sentido antes volte a se encaixar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

What the REL?!

Publicar, produzir, analisar, criticar. Teoria, argumento, hipótese, objetivo, artigo. Acadêmico. Metodológico. Citar, fazer referência a, bibliografar, entender, explicar, pós-modernizar. Marco-teórico. Debate, Primeira Guerra, Wilson, Segunda Guerra. Realismo. Ganhar o debate. Entender o passado para mudar o presente. História, Estória, Filosofia e Ciência. Debate Interparadigmático. Balança de poder, estabilidade hegemônica, deterrence, enforcement. Falta de traduções. Anarquia. Angell, interdependência, economia. Marx. Sistema-mundo. Comportamento, unidade metodológica da ciência, behave, positivo. Ismo.Guerra Fria. Neo-realismo. Sistema internacional. Agente-estrutura, níveis de análise.Ganhos relativos, ganhos absolutos, teoria dos jogos, dilema do prisioneiro. Keohane. Interdependência, regimes, cooperação. Organizações. ONGs. OIs. Sociedade civil. Global.Globalização.Economia Política Internacional. Comércio. Tratado, paz, guerra, humanitário. Direitos Humanos. Legislação Aduaneira. Debate, debate, teoria, teoria. Pós-pós. Crítica. Mais ismos. Femini, pós-modern, pós-colonial, pós-estrutural, marx. Terror. Espaço, território, monopólio do uso da força. Estado. Eu. Outro. Nações, nacionalismos. Globalização, política e cultura. Exclusão, Sul, dominação, exploração, destribuição de capacidades. Desenvolvimento desigual. Genocídio, limpeza étnica, massacre. Crime de Guerra. Tratado, tratado, convenção, convenção. Conselho. Segurança. Organização. União das Nações. Diplomacia. Jogos de dois níveis. Abrir a caixa-preta. POLEX. Integração. Regional. Bloco. Economia. Teoria. I,II, III, IV, V. Walker. Saber o nome dos autores. OVNIs, Wendt. Operação e Paz. Manter, enforcement, fazer, construir. Recontruir. Missão. Falido, reconstrução. Imposição de modelo. Democracia, de mercado. Refugiado. Angelina Jolie. Economia de guerra. Militarização. Cimic. Coordenação. Campo. Intervenção. Humanitário. Mais um debate. Estudo de caso. Somália, Ruanda, Sudão, Bósnia, Yemen, Chechênia, Nicaragua, Haiti, Colômbia, Camboja, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Israel e Palestina. Conflito. Mediação. Negociação. Paz. Tratado, tratado, tratado. Nações Unidas. Proteção de civis. Terror. Erre para Pê. Dilema. Dilema. Debate. Debate.
Eu faço é RI!
Relações Internacionais? Eu, socialmente construído? Não, o outro. Do lado de lá da fronteira. Crise de identidade.

domingo, 21 de março de 2010


Edvard Munch.

O que olha ela? O tempo. A vida. A espera. A alegria, a dor. Saudade.

Quero olhar também.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Assim Morreu Uma Teia.

Perdi mais um encontro. Mais uma noite na qual não estive lá e mais um pouco estiquei. Lá já não faz sentido. Perdi o que era de tanto que quis o que chegou, sofri por perder, mas foi tão lento que pouco percebi que sofria por estar perdendo. Foi por desleixo, morreu. E como tudo o mais que morre por aí, morreu. Afinal sempre dizem que tudo tem um fim, pois não esperava que o fim se desse tão rápido. É claro que não foi só morte matada, hei de me consolar por saber que foi um tanto morrida. Morreu porque não se cuidou, teve também doença grave, e não procurou cura. Parte de si foi embora, a outra se enrolou em outro, mas o que nem viu que morria foi o que ficou. Ficaram, alguns ficaram, e nem viram que eram parte de um cadáver, já haviam se espalhado e não mais viviam daquele só corpo. Senti que morreu só depois de constatar que novamente não fui ao encontro, logo após ter rompido com aquele que também nos matava, e segundos depois de ver que tudo se romperia. Nada é para sempre, principalmente teias exageradamente complexas e propensas a ataques externos e males que nascem por dentro. Tudo se parte, separa, chora, rompe, e morre. Chorei como quando era repreendido por querer saciar minha sede do que viria, e chorei porque sabia que aquelas lágrimas não eram só pelo imediato passado, mas pelo futuro mórbido e pelo fim já esperado. Assim morreu uma teia. Uma teia cheia de falhas, mas forte para aguentar muita coisa. Há de se notar que a teia não sobreviveria a qualquer distanciamento de seus nós e isso só se percebeu quando ela já estava quase se partindo. A teia esticou, esticou, esticou e rompeu. Morreu de tanto que foi esgarçada, de tanto que foi testada, de tanto que já não se aguentava. É claro que cada um de seus fios não esqueceu-se do outro. Sabemos todos que existimos e lá no menor milímetro de nossos diâmetros desejamos refazer aquilo que nos unia. Sabemos, porém, que somos agora incompatíveis. Não sou mais um azul disfarçado de branco, ele não mais um vermelho de branco, agora tiramos nossas vestes e nos expomos para todos que quiserem olhar. Não temos mais vergonha de mostrar o quanto nos prendem nossos nós, não tenho mais medo de dizer que me incomoda estar presa em um corpo que se desfalece. Mais triste é ver que há aquele fio que não olha mais pra mim, logo aquele fio que me era tão grudado, logo aquele fio que tanto me fez bem. Ele e um intruso qualquer iam desfazendo o nosso nó devagarzinho, sem que eu percebesse e eu bem que tentei mante-lo.Foi em vão e no fim fui eu quem teve que corta-lo. Eu ouso dizer que os outros fios ainda gostam de mim, mas temo por eles não mais me olharem nu, como sou. Temo por amanhã eu mal ve-los de tão distantes, e de que nós todos nos ceguemos por novos nós que fazemos. Mantenho distância entre os nós daquele tempo e os que hoje me encantam, tento não criar atritos, principalmente dentro de mim mesmo. Crio novas teias e não mais choro a que se desfez, já mais uma desfeita em minha longa enrolação. Assim morreu uma teia, assim nascem novas.

Resolvi postar também algumas preferências pessoais. Dar uma cor.

Toulouse-Lautrec.

Espero que seja boa essa invenção.

Quanto aos textos, os mesmos, continuo escrevendo para sempre me ler. É prazeroso.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Yemen?!

Apenas uma pequena conclusão.
Yemen, em dois. Republica Popular Democratica do Yemen e Republica Arabe do Yemen.
Socialista, tornou lei a igualdade entre os gêneros. Defendeu e tornou lei o fim da poligamia, possibilitou o pedido de divórcio pela mulher, possilitou que a guarda de um filho seja da mãe, retirou a obrigação da burca, proibiu casamentos arranjados pela família, estabeleceu 16 anos como idade mínima para casamento para mulheres, estabeleceu 20 anos como a maior diferença de idade possivel entre os noivos. Além, iniciava sua constituição com pelo povo, para o povo, pela justiça social. Defendeu o livre credo. Uma sociedade islamica. E marxista. Que politicamente pouco ligava pra diretrizes soviéticas e pregava um socialismo científico adaptado as peculiaridades do Yemen, principalmente, adaptado ao fervor religioso de seu povo. Infelizmente, entregou aos soviéticos a exploração de todo o seu petróleo e passou por uma guerra civil em 86, resultado de uma disputa intra-partido. Afundou economicamente.
Capitalista, lei Sharia é a base de todas as leis. E, assim, burca, poligamia, mulheres que sofrem abusos, mulheres fora das escolas, do trabalho. Mães sem seus filhos, meninas casadas com homens com idade para serem seus avós, mulheres e meninas casadas pela vontade do pai. A constituição, para Deus, por Deus, pelo cumprimento dos desejos de Alá. Americanos interessados em explorar seu petróleo. Uma república autoritária com apoio saudita e confidente iraquiana. Prosperidade economica.
Presidente do norte capitalista se sobrepoe a força política do sul. O sul não tem com o que barganhar, se conflitasse, perderia. Unificação, sobreposição do regime capitalista. Lei Sharia é a principal fonte da lei, de volta as velhas tradições islâmicas. Bom, liberdade de imprensa e livre associação em partidos políticos. As mulheres de Aden não fazem parte disso, reclamam do retrocesso de seu antigo governo e igualdade, liberdade para um no qual a liberdade e igualdade não se extendem a elas. Para Deus, mas para o povo também. Liberdade e sua via de mão dupla. Partido político fundamentalista islamico, burca nelas! Não só burca, mas bombas também. Bombas no partido socialista, secularistas! Poligamia e mulheres em casa com seus senhores caquéticos arranjados, e fora os ateus que querem justiça social!
República (capitalista) do Yemen.
Conflito. Em Aden, as mulheres vão de um país que defende a secularização, mas também a liberdade de credo ( e há judeus, cristãos e hindus no Yemen!) para um que tem como base da constituição a Lei Sharia e ainda, de brinde, islamicos fanaticos que lutam pelo encarceramento da mulher em quatro paredes e panos e jogam bombas naqueles mesmos americanos que os colocaram onde eles hoje estão em nome de Deus.
Concluo que esse mundo é mesmo muito louco. Se eu fosse uma yemenita do sul teria desejado que os EUA fossem comunistas e explorassem o meu petróleo, ou que a URSS nunca tivesse acabado e tivesse explorado o tal petróleo direito. Talvez desejasse algo mais sensato, que meu país tivesse tido força economica, política e militar para se manter socialista e que hoje fosse a Cuba do Oriente Médio.
Havia esperança! Ainda há, em meio à guerra contra o terror em uma bipolaridade entre fanáticos islâmicos e fanáticos capitalistas, um lugar para a esquerda legítima ?