As vezes acho que planejaram em algum lugar desse universo pra que eu nascesse em março. Pra que eu nascesse com as águas que renascem todo ano. Seja chuva, seja neve, seja gelo, seja a mistura com a terra que faz uma bagunça danada. Essa primavera veio muito mais molhada do que todas as outras. Como se anunciando uma tsunami. Engraçado, disseram-me que esse ano eu chegava à idade de Cristo. Ele que andava transformando água em vinho, como se vinho fosse melhor que água. Ele que andava multiplicando os peixes, como se o mundo aguentasse as lágrimas de tanto peixe. Não que eu tenha qualquer coisa que remeta a Ele. Pelo contrário. Sou um festival de pecado e já rejeitei a salvação porque me disseram que ela não incluía os meus. Ainda assim, 33. E nessa primavera foi mesmo milagre que me fez viver. Viver como eu não vivia há década. Viver como quem vive pela primeira vez. É que os astros resolveram me banhar nessa primavera. De lágrima, de prazer, de suor. Me pego pensando se não é tudo apenas uma piada de mau gosto que meus antepassados resolveram contar. Eles que atravessaram mar, por escolha ou por força, agora rindo dessa que conversa com as águas. Me pego pensando se na próxima esquina eu tropeço e caio. Mas até agora, passos firmes. Uma firmeza tão estranha que me espanto. Acuso que foi ela ou ele que deram os passos. Não. Foi mesmo minha cabeça estranha, meu duplipensar, minha cara no palco. Seca. Fui eu, eu e todas as versões de mim que já vivi. Sabendo que todas essas decisões são duras como pedra, hoje a água veio dar força. Veio lembrar quem é que manda. Veio dizer que sem ela não há prazer, não há lágrima, não há esforço. Veio dizer que só ela apaga um fogo que queima e consome. Que só ela me transforma de verdade. Que é ela quem sabe do meu coração quando escorre nas minhas bochechas. Hoje não estive sozinha. Escutei o grito das águas mais fortes, escutei o chamado das águas mais profundas. Senti. E sentindo soube que não são memórias. É novo. As ondas vieram, me lavaram e levaram consigo tudo o que me afogava. Restou uma estrela do mar pra eu levar pra sempre. Restou grande parte do meu ecossistema, sem poluição. Restou o coral onde vivo, de quem me alimento e onde me encontro. Mas está em perigo. Não por fogo, fogo não arde dentro do mar. Nem mesmo por mim, peixinho que ali vive. Apenas por um desequilíbrio. Quero crer que o desequilibrado equilibrado estará quando a próxima lua cheia vier, e a maré encher. Quero crer que as águas vão continuar transparentes. Que a secura do meu rosto vai continuar apenas pra que o choro tenha sentido. Eu que já chorei por tantas bobagens. Água desperdiçada. Vida desperdiçada. Não mais. Aprendi a nadar.