segunda-feira, 20 de maio de 2024

And the Oscars go to...

Not me, no. Pelo menos não o de protagonista. Não é exatamente também o de "coadjuvante". Não sou "co" de ninguém. Sou supporting. Em português esse termo não traduz. É que eu vim pra essa vida pra isso. Quem tem o prazer ou desprazer de entrar na minha vida encontra em mim uma mão pra segurar. Tive sempre medo de ser narcisa, mas o que me tornei foi espelho. Não que eu reflita os outros, mas seguro um espelho gigante na frente deles e tudo fica à mostra. Quando te olho, você vai se ver incrível. Ou vai ver tudo aquilo que precisa mudar, pra ontem. Se você está na pior, vem até mim que eu prometo vou te lembrar de quão protagonista você é. Mesmo que no fundo eu sinta que não é bem por aí. Se está bicho, vou te lembrar da tua humanidade. Se duvidando de que seja suficiente, vou encher sua bola até você lembrar de que é suficiente e o problema são os outros. Se anda melancólica, vou te ouvir por horas a fundo e te olhar com tanta admiração que te vai te dar alegria. No improviso, não vou ser sempre engraçada. As piadas não serão minhas. Mas vou te dar a deixa perfeita. Vou organizar a cena inteira pra você brilhar. Se você esquecer sua fala, vou te dar cola. Como dei na escola. Sempre batendo palmas pra amiga que era primeiro lugar e enxugando as lágrimas dela quando ela tinha a ousadia de duvidar de si. Continuo fazendo. Mas nas boas relações, como a da amiga-primeiro-lugar, eu também me enxergo grande. Talvez por isso ele e eu funcionamos desse jeito curioso, ele segura o espelho pra mim e eu pra ele. Acredito, enfim que ele hoje vê o incrível, e também o que precisa mudar. Acredito, enfim, que eu também esteja enxergando. Preste atenção, não há nada de ressentimento no meu papel. Sei o meu lugar muito bem. Cheerleader. Mais um termo que não traduz. É isso que nasci pra ser e pra sempre serei. Vim pra dar afeto. Capacidade de amor universal. Quando viram que cresceram, que alcançaram, que estão bem, muitas vezes dizem adeus. Se vão. As vezes sem a cortesia de dizer tchau, as vezes fingindo ser difícil ir, mas na maioria das vezes só indo, avec le temps. Tout s'en va, tout s'évanouit. Eu permaneço, insistente, narrando histórias alheias. Nasci pra contar a história dos outros. Aqueles que pra mim não seguram espelho me permitem até brincar de ser eles fora do palco. Mas logo vejo que ser outra que não eu, não é pra mim. Só no palco. Lá a luz vem em mim como eu vou nos outros. Nasci pra shed light on. Como aquelas luzes em sala de detetives de filme, um foco de luz no seu rosto te iluminando até que você consiga se iluminar sozinho. E se a luz estourar, sou eu quem vai pular na frente pra te proteger, como fiz há duas décadas em um hotel assombrado num banheiro úmido. E você, você nem sequer me deu adeus. Se aquela que me ataca te atacar, eu vou também voar 3 mil quilômetros pra te defender, como fiz há cinco anos. Você que diz acreditar que estou no seu time, mas ainda não sabe demonstrar e prefere as vezes brigar. Se a internet resolver que você é péssima, vou eu responder a cada um o quanto você é magnífica. Pedra preciosa. Você que foi a primeira, que nunca segurou pra mim espelho mas que eu também não quis imitar. Não digo que não tive ilusões de grandeza. Tive. Astronauta, diplomata, ministra, Sérgio Vieira de Mello. Desisti. Me convenci de que eu não tinha what it takes e fui pra sala de aula. A sala de aula é bem maior afinal do que um cargo qualquer. Resolvi trabalhar pela multiplicidade, não pelo meu próprio pódio. Agora nem mais isso, troquei o gostinho de me ver nos futuros protagonistas pela liberdade. E vivo livre, enfim sem espelhos pra segurar até que chegue a próxima. Agora transformo calada - ou melhor, escrevendo mal e falando por aí - o papel que escrevi pra mim. E subo no palco pra ser outras. Por aqui, carrego o espelho no bolso pra quem mais aparecer. Afinal já refleti tantos vocês que não espero parar por aqui. Continuarei sendo suporte. Ilumininando. Sendo trampolim. Na vida, best supporting actress. No palco, eu.