sexta-feira, 15 de abril de 2011

Stand=By

Seus dedos escorrem sobre os livros na estante. A janela ao seu lado. O tempo que passa, não passa. Não há dor, mas se gostaria que houvesse, para que se pudesse chorar. A distância não afeta, o tédio é o que incomoda. Soube-se em algum momento que o que se passava lá fora a pertencia. Agora, só se sabe que lá está fora, e dentro dela é vazio. Não sabe se foram as noites mal dormidas, se foi o dia ensolarado, se é a noite quieta. O que a ronda é o incomodo da ausencia de incomodos. Deveria doer mais, deveria sentir. Não sente, inércia. A vida está em seus fios de cabelo, mais do que em seus olhos, em seus abraços. O quarto é escuro, a música é escura. Sem cheiros, sem sons, sem vidas. Sua presença é formalidade. Poderia estar aqui, poderia estar lá, não é nada. Para ninguém.
Longe, em outro ambiente pouco habitado há quem faça silêncio no barulho, há quem carregue a vida como reação. Longe, há quem não sinta dor desejando sentir. No outro quarto, sem cheiros, sem dia, sem noite, não se sabe que não se está sozinho. Seus olhar também se coloca sobre a janela e rejeita o que há fora. Seus dedos também sentem as memórias, e o futuro. Em outras paredes, o mesmo se repete. Das ruas lotadas, das vidas sorridentes, há sobras. Há as madrugadas nos quartos pequenos, há as manhãs nas camas desconfortáveis, há vidas, poucas. Vidas em potencial, vidas guardadas. Vidas que esperam pela hora de participar do mundo, e essa hora não chega.
Em um, em outro, não há presente. Há um passado em que não se foi assim, que se viveu. Há um futuro que se espera. Não se enxerga mais do que se foi feito para enxergar, não se sente. Mas pensa, só pensa. Aqui e lá, pensamentos. Sabe-se que são os pensamentos que os fazem não sentir, não doer. Querem a angústia, mas não a tem. Querem o medo, não vem. Querem o pavor. O horror. Nada, inércia. Sem incomodos, sem mais, menos. Ignoram, todos, os ignoram. E querem permanecer ignorados. Precisam dormir.