quarta-feira, 23 de junho de 2010
Em Frente.
Olhar pro passado não pelos sorrisos, mas pelas palavras, fazem-me retornar imediatamente ao dia que sentei e escrevi. Retorno sem querer retornar, querendo olhar como olho os sorrisos, com uma distância inerte. Sorrisos são iguais, os meus pelo menos. Continuidade não dói. As palavras, porém, refletem cada segundo da nossa eternidade, e de tantos segundos, e de tanta dor, essa eternidade é feita. Palavras nos trazem o momento em que sentamos para escrever, mais do que nos trazem aquilo sobre o que escrevemos um dia. Palavras machucam, palavras fazem rir, fazem sorrir e agora me fazem chorar. Cada letra é um meio segundo que penso, que me transformo, que me edito. Edito hoje tão mais que editava anos atrás. Edito por que hoje me preocupo, por que minhas intenções são outras. Não editava, escrevia, e escrevia como falava. Certo, errado, torto, reto, escrevi e fui o que quis ser, sem me moldar. Exagerei, e foi bom exagerar. Hoje sou comedida, moldada, editada, não-exagerada. Sou pequena, mas sou grande, sou preto e branco, mas chorei ao deixar de ser colorida. Escrevo com sinceridade, escrevo com verdades, as verdades que antes não existiam. Já usei palavras pra descrever um amor (amor?), pra agradecer uma amizade, pra despejar desejos. Usei palavras para magoar, palavras para distrair, palavras pra seduzir e pra suportar. Não sei mais pra que as uso. Não tenho quem seduzir dessa forma, não tenho ninguém a quem impressionar, não há quem não saiba o que penso, quero, e faço. Revelei palavras demais, e vou continuar revelando. Palavras minhas, palavras dele, palavras poucas, palavras certas. Escrever tinha graça por que a graça estava em responder. Leio tudo o que escrevi, reparo no que mudei, rio do que era normal. Escrevia sem regra, sem lugar pra escrever. Era livre, era bonito, era puro. Era, e não é mais. Nas paredes, na escola, no quarto e na janela, rabiscava no livro, no caderno, no quadro e na tela. E sentia prazer, e não levava a sério. Então me regulei, me pautei, me coloquei. Leram, e ficou ainda mais livre, mais bonito, mais puro. Agora não lêem mais. Não aprovam, nem desaprovam, não compadecem e nem desgostam. Agora as palavras são minhas, e são sozinhas, são pra ninguém. Não há com quem falar, não há com quem brincar. Nem se brinca mais. Seduzir é corpo a corpo, magoar é cara a cara, chorar é ombro a ombro. Não vêm mais aqui, e eu não vou mais lá.Nem mais aulas, nem mais banheiros. Palavras escritas já não me fazem tão bem, por que não são lidas por ninguém.
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