sábado, 24 de agosto de 2024

luto

Quantas mortes vivemos em vida. Não só mortes de carne e osso. Nascemos e assim vivemos a morte da simbiose com quem nos carreg. Caminhamos, comemos e morre assim nossa total dependência. Morre uma versão de nós. Crescemos e cada versão de nós se vai, seja com o tempo, seja com o trajeto.

Vida é pra ser sentida. De tanto sentir, morremos dentro dela. Morremos de cansaço, de tédio, de dor. Morremos de amor. E a dor é tão grande, tão onipresente que a gente precisa sentir na pele. Parece que o que está fora não ser o que está dentro faz doer mais ainda. É uma outra morte. 

Perder alguém, separar, perder o rumo, questionar quem se é, essas também são mortes em vida. Coração partido, amizade acabada, expectativa desprovida de realidade. Cada um vive uma imensidão de despedidas. Não volta. As mortes em vida são tão inescapáveis quanto a própria vida e a própria morte.

Quando nos perdemos e reencontramos o luto é de nós mesmos. Nos dias em que é possível suportar o luto de mim mesma, sobrevivo. Vivo. Rio. Bebo. Falo. Humana sou. Nos dias em que não, o luto é a própria morte. Me desespero. Me perco. Grito. Humana ainda sou.

Tantos de nós nos entorpecemos pra aguentar o luto. Tantos de nós buscamos o prazer. Ainda outros choram, outros calam, outros dormem. Eu de tudo tenho feito. Certa hora passa, dizem. A morte se vai. Renasce-se. O luto se encerra. Esse luto. Logo na próxima esquina outro virá, e continuaremos vivendo. 

Tempo de sentir é em cima da terra. É vida.

sábado, 10 de agosto de 2024

universo

Uma casinha branca de porta Azul, nós e o mar. Da janela a rua de paralelepípedo, bem pouco reta ou bem cuidada. Todo dia de manhã vemos os vizinhos passarem com curiosidade enquanto tomamos café. Assim como nós, quando passamos nas janelas deles. 

A casa é baixinha, casa de tijolo, coisa simples. É na medida do necessário, na medida do justo. Mas o quintal, o quintal é privilegiado. O quintal é um latifúndio pra todos os passarinhos que por lá passam. É canto de sombra, de frescor, das ervas, dos tomates, da mangueira. No quintal a gente troca poesia, troca carinho, troca cuidado com a terra. Troca descanso.

Lá dentro você na rede lendo um livro. Você não parou. Continua a potência que sempre foi. Eu na cozinha limpando o peixe que comprei do moço que saiu na jangada. Você diz que não gosta de cadáveres na geladeira mas aqui é um peixe que mantém toda uma gente viva. Nem tem tempo de geladeira. Vou cozinhar pra você e encher a casa de cheiro. 

A gente vive da gente, a gente vive da arte, a gente vive da escrita, do ensinar. Que vida que é viver assim. Pequena caminhada e o mar. Poucos passos e um oceano inteiro pra gente. O horizonte como se já nos esperasse naquele por do sol. De noite uma ducha, um vinho, um bom sono. 

Quem passa só vê a casinha com sua porta azul.  Azul mais escuro que o céu do dia, mais claro que o da madrugada. É fantasia e é vontade. É plano e é sonho nessa casinha branca da beira do mar. 




segunda-feira, 5 de agosto de 2024

pente 2

Quebras de longas relações são também longas. Ainda lembro o dia que antes de tudo acontecer você disse que eu te deixaria. Parece que de certa maneira você previu o que viria. Te deixei por mim, te deixei por nós. Ainda escuto John Lennon cantando enquanto eu aumentava o volume pra que Maria não nos escutasse naquela conversa que foi o prelúdio. Ainda lembro de deitar no chão quando você se foi pela primeira vez como se em um filme eu estivesse. Pediu que eu falasse pra Maria, e meu coração disparado sem entender. 

Maria não decidiu nossa história. Seguimos. Tentamos. Horas de palavras. Horas de lágrimas. Dor. E eu interpretando, maquiada de sorriso. Você continuando, me perguntando, e tantas, tantas perguntas. A vida não parou. Você foi embora pra perto. Voltou, mas a vida não parou de acontecer.

Essa primavera foi de flores e de morte. Foi de cores e de escuridão. De descoberta e retirada, sobrevivência e super-vivência. Mais perguntas. E de repente uma vontade. Quem apareceu pra você de repente era pra mim. Ela ganhou o jogo. Fui de peito aberto saciar um desejo, te machuquei e me machuquei. Te golpeei. Te surpreendi. Eu só precisava viver. Em uma noite morta de segunda feira você então desabou. 

As perguntas já não tinham mais respostas suficientes. Meu amor já não era pleno o bastante. Maria continuava viva, mas aqui já não estava pra ser justificativa de nada. Pairavam no ar as palavras daquela madrugada: cruel, maldosa, e rios de lágrimas. Eu não sabia o que fazer. Eu não poderia saber o que fazer. A vida não veio com tamanho manual. E você querendo respostas. 

Como um carro velho no meio da Rio-Lagos eu de tanto correr no calor pifei. Superaqueci. Soltei fumaça mas você continuou insistindo. E quando eu morri você se foi e me deixou no acostamento. Foi pra longe. Minha vida continuou. Perdi parte do meu sustento. A outra parte já com fim no horizonte. Meu melhor colo então se foi. Ficou a mãe e as palavras no ar. Você lá perto de Maria e eu aqui, sozinha. Não te culpo. Eu sei o quanto te machuquei. Sei o quanto duvidei. Sei o quanto busquei um fogo que consumiu tudo. Talvez uma parte de mim esperava que você lutasse por mim. Lutasse por nós. Mas não havia forças. 

A vida seguiu. Eu no palco pintada de risos. Ela me chamando, me pedindo, me dando. E as palavras daquela noite ecoando: cruel, maldosa. Você então com tempo e suporte. Você com grana e amigos. Você se entendendo e eu aqui, sozinha. Me equivoquei então. Quis lutar sozinha. Disse que voltaríamos quando você voltasse. Mas você falando de 50% de chance. Você continuando a questionar. E eu exausta. Durante o dia o trabalho, o estudo, a mãe. A noite você com suas dúvidas. Nada leve. Nada simples. Tudo pesado e duro. Ela então me dava esquecimento. Alegria.

Ao lado dela as palavras sumiam. Ao lado dela as perguntas cessavam. Ao lado dela eu me deitava e a tarefa mais difícil que eu tinha era faze-la revirar os olhos. Descanso. Mas me enganei. E doeu. Confesso que até hoje não sei bem porque chorei antes de você chegar. Se por você, se por ela. Se por ver que nada do que eu achava que viria pela frente veio. Se por perceber que eu estava enfim sozinha. Se por sentir que falhei. 

E então uma nova fase veio. Te avisei antes de você chegar. Você não se surpreendeu. Você voltou e dclaramo-nos dois. Declaramo-nos sós. Não foi aqui que desistimos, que fique claro. Desistimos naquela segunda feira de abril. Desistimos quando você entrou no avião e eu não corri atrás de você. Aqui só formalidades. Comunicações. Lágrimas ainda, mas talvez lágrimas menos trágicas. Foi então minha vez de ir embora pros braços dos meus. 

Ouvi tanto. Ouvi todos. Balancei. Fiquei firme. Falei com a sua mãe e de novo as palavras vieram: cruel, maldosa. Uma culpa enorme que só eu conheço o peso. Uma culpa que eu não aguento mais carregar. Nem por mais um segundo. Ainda assim, culpa. Foi o palco, sua mãe disse. Foi Toronto, disse a minha. Foram as mulheres e meus questionamentos, disse você. 

Digo eu que foi o cansaço. Foi o cansaço de sentir o meu peso e o seu. O cansaço de me questionar a todo segundo pra logo então ser questionada por você. Foi o cansaço de fazer escolhas, tantas. Foi o cansaço de ter segurança em nós por nós dois. O cansaço de ser mulher. De ser filha. De ser esposa. De trabalhar dois, três trabalhos e ouvir que nós ainda precisávamos de mais. O cansaço de não acertar nunca o que você realmente queria. O cansaço de tentar te fazer feliz e não conseguir. Foi o cansaço. 

Agora nesse início do fim do término o cansaço é também físico. Te vejo chorar e quero apenas parar. Não consigo mais te ver sofrer assim. Não sei o que fazer, o que te dar. Se eu tivesse uma poção mágica pra te fazer feliz eu te dava ela inteira. Mas não há poção. E eu, eu não te faço feliz. Eu te dou tesão, eu te dou companhia, eu tento te dar alegria. Mas felicidade, acho que não. E é por isso que mesmo que o cansaço passe eu não posso continuar tentando. Você precisa se fazer feliz. 

Hoje a tempestade voltou. Como quando nos casamos. Como quando você foi pra longe. Como quando mais chorei. Mesmo que o céu chore, te peço que sorria. Te peço, por obséquio, que seja feliz. E quando for, serei então uma flor adornando sua vida. Serei um passarinho que vem e bebe da tua água. Serei peixe que sazonalmente visita tuas águas. Serei eu e você será enfim você. Assim como nosso pente será sempre nosso meu amor permanecerá. Ainda que novo, ainda que nova, ainda que outro. Ainda assim, amor.