terça-feira, 20 de março de 2012

Dois em Um.


É, é a vida. Pro inferno com essa história de vida. Vai, fica calado e olha o tempo passar, espera teu destino te molhar, aguarda que há de chegar. Fica aí, sentado, frustrado, alheio, recolhendo garrafas, papéis. Daqui a uns anos eu venho te contar que vivi enquanto você esteve confortável. Corre atrás dela, seja ela mais uma, seja ela teu amanhã. O tempo vai passar, não volta, e você vai se arrepender  de não ter tentado mais uma vez. Eu dizia, vem comigo que eu te levo pro mundo. Tenho certeza que você, diferente de mim, nem precisava ir tão longe. Bastava ir, e não voltar. Ainda é tão óbvia essa tua sede de partir, mais óbvia é tua falta de coragem. Falou, fala, diz que vai, e fica, e chora. Diz que a vida é uma merda, finge que gosta dela, e que não teve o que quis, mas vai fazendo o que vier. E você ainda não mudou. Já te disse pra viver, não sei, nem nunca saberei se me ouviu. Quem sabe um dia nos encontraremos em um lugar ensolarado, em um supermercado ou em um bar escuro. Quem sabe um dia tomaremos um café, no frio, ou em um calor insuportável, em uma dessas cadeiras na calçada. Se pelo mundo você sair, esteja certo que me orgulharei de você. Seja no meio de prateleiras avulsas ou na água de um mar distante saberei quem você é de verdade, aliás, quem teve coragem de ser. Não pense que eu falo de mim, não, minha vida hoje é confusa e já fiz outro levantar do sofá e vir comigo pra onde der. Eu falo do que eu seus olhos querem ver, do que seu corpo quer sentir.
Até imagino histórias de um futuro, histórias sem fim, um bocado de palavras que não conspiram para um final, nem feliz, nem trágico. Em um futuro já não mais tão distante, em uma primavera ou em um outono, estarei em uma calçada, escrevendo pensamentos em um caderninho novo, o atual e o passado já estarão no fundo da gaveta. Você depois de um longo dia solitário de letras ou de mar estará por lá, caminhando com sua vida na mão, cansado, vivido, quase antigo. Estarei te observando apenas, tentando descobrir quem é você no meio da lembrança de todos aqueles homens. Mas lembrarei de você. E você me olhará. A saudade que nem sei se existe dará vontade de te abraçar, mas a falta de intimidade que você fez questão de cultivar não me permitirá te abraçar como um velho amigo. Constrangido, você vai sorrir pra mim, vai fazer algum comentário sarcástico e dizer que eu não mudei. Eu espero já não mais me incomodar com seus comentários. Perguntarei o que faz lá. Você respira fundo e diz que vive, que está vivendo. E isso me surpreende. Até que enfim! Cada vez que penso nessa história o final varia, talvez uma longa conversa cheia de surpresas, talvez um frio adeus cheio de medo de ousar, talvez o que sempre imaginei querer e hoje tenho medo de ceder. Mas se esse encontro tivesse fim não haveria graça, então invento. Não sei quem seremos, invento. Sou sempre outro, amanhã invento. Você já não me parece tão mutável, é um tanto quanto fixo, previsível, mas me esforço pra te reinventar. Às vezes vem a frustração de não ter acontecido ou me sinto culpado por ter acontecido. Ainda assim, tento viver esquecendo o que já passou e o que eu ainda quero que passe. Torço que dê sempre errado, que dê certo. Então, te dou o direito de inventar o final da história. Eu termino por aqui, ontem a noite me pareceu tão longa, mas hoje tenho muito o que fazer e isso aqui já não me interessa. E logo vai chegar a hora de dizer que eu já sabia.

Nenhum comentário: