Eu sempre digo que casas são pessoas. Devo adicionar que as vezes casas são apenas casas. Paredes e chão planta e pessoa. Mas as vezes é onde tudo passa tudo sente tudo acontece. Saímos dessas casas e nelas deixamos uma parte de nós. Uma versão de nós que não vai mais existir. Você não vai mais naquela padaria. Não frequenta aquele café. Já não lembra mais o número do ônibus. Já não dorme mais com ele. Casas são também fragmentos de nós.
Quero construir uma nova casa. Não porque essa não seja boa, mas não é minha. É talvez de outra pessoa que não eu. Eu achei que era. Me confundi. Acordei. Não volto mais pra essa que não é minha. Não digo que não haja luto. Há. Das noites de televisão e doces, dos dias e dias de trabalho, de poucas porém ilustres visitas. Ainda assim, é hora de partir.
Dessa casa me despeço e com ela dou adeus a uma versão de mim que não existe mais. Agradeço ao verde da janela, ao lago lá no fundo, as máquinas que facilitam a vida. Agradeço ao que cresci aqui e as memórias de uma vida. Aqui é onde eu estava quando me senti com os pés no chão pronta pra voar. Agradeço. Alívio também.
Alívio de saber que cheguei até aqui. Que essa casa já não me pertence. Que essa que fui já não sou mais. Essa casa fica comigo então, mas eu nela não fico. Vou pro centro. Vou pra vida outra. Sair da torre. Pra perto do chão. E de lá vou voar, vou atrás de uma nova casa seja ela ou outra. Vou encher de vida de gente de mim.
Vou pra casa de madeira casa de rua casa de quase século. Casa que tem história e que ainda vai ver mais. Casa quente que faz sair e aproveitar o verão. Sem máscara. Que vai ter um novo café uma loja um restaurante. Vizinhos. Gente outra. Casa que me cabe. Casa que é minha. Casa.
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