Eu disse que te deixaria ir. Não deixei. Não vou deixar. Sigo dançando contigo, ainda que eu pegue mil aviões e não chegue até você. Sou água sou rio sou mar mas em ti ainda não desaguei. Quem dera nossas digitais fossem mesmo portais. Não te sinto nas pontas dos dedos, mas, a cada passo que dou, te toco.
Te toco quando leio Krenak e ele lembra das confluências. Quando diz que somos movência. Te toco quando ouço "quem sabe o que o amanhã traz" e quero nisso acreditar. Quando ouço que "estou cansada de ficar sozinha" e lembro de você me dizendo que adora essa música, enquanto se balançava em frente a minha varanda. Te toco quando canto que "tô contando o tempo e ele me pirraça", mas eu nem sei quando te vejo. Te toco quando piso na areia e sinto a água salgada curar todas as minhas feridas, a areia escapando entre meus dedos. Te toco quando mil vezes falo teu nome, sem perceber, sem pensar. Te toco porque você está comigo, mesmo sem estar.
Já não sei mais o que fazer pra te ver. Poderia pegar o avião certo. Mas me encontro atravessada de dúvidas sobre o amanhã, tal como você. Me encontro sem pressa. Sinto que a pressa não existe entre nós, por mais que a vontade seja de correr pros seus braços. O reencontro nos persegue, você diz. Pois que ele nos alcance. Enquanto isso, fazemos planos. E quantos planos já fizemos.
Você encontrou no mar sua calma. Quero entender que esse mar também faz você sentir meu toque. O mar onde moro, o mar onde nasci, o mar que sempre esteve comigo. Acho curioso. Tanto quanto quando você desata a falar, me encontro curiosa. Curiosa pra te ouvir, te conhecer, te abraçar. Curiosa pra dançar com você uma noite inteira e todas as noites que vierem.
Quando te abraçei naquele dia ensolarado, você com ela, eu com ele, parece que o mundo mudou por um segundo. Não te contei, mas meu peito, quase desnudo no teu, fez mágica. Um breve terremoto. Uma tsunami. O resto em silêncio e eu não queria te soltar. Acho que você também não. Voltei a te abraçar nas terras geladas, mas esses abraços com tantas roupas trouxeram conforto. Não digo que meu mundo não mudou naqueles dias frios, mas mudou com tuas palavras e perguntas. Mudou com teu olhar. Mudou com o jeito que você sentava no braço do sofá devorando um pote de granola.
Acho que você fez eu me amar mais um pouquinho. As listas, nossos acordos, teu pedido de desculpas depois de uma longa noite, tudo fez sentido, fez sentir. E sentindo eu não pude mais voltar. Imagino então estar contigo num desses carros velhos dirigindo pela beira do mar. Anseio pelas horas de conversa que nunca vemos passar, sem uma tela no meio.
Anseio ver tuas lágrimas de novo, não as de cansaço, as de conexão sobrenatural. Não quero que você volte a sentir aquele cansaço, mas, se sentir, anseio poder novamente te acolher. Anseio ouvir sobre girafas, sobre mulheres que amam mulheres, sobre números, sobre movimento, sobre luta. Anseio te contar sobre o meu dia, sem ter que digitar. Anseio te preparar um café e te entregar devagarzinho, enquanto você olha o mundo lá fora. Anseio te navegar e te mostrar o que você nem deve imaginar. Anseio descansar meus pensamentos na tua força. Anseio te ver dançar, sem metáfora.
Ainda que você diga que eu falo a tua língua, me pergunto se não serão apenas falsos cognatos. Se eu mais uma vez estou vendo apenas o que quero (mas o que havemos de ver, se não o que queremos?). Achei que eu não aguentaria te perder sem te ter, mas aguentei. Busquei outras musas, mas não consegui te mudar em mim. Seja quem vem, você permanece. Pois aqui me ponho novamente. Pronta pra te perder de novo, sem nunca ter te tido. E tudo isso de ter e perder nem faz sentido. Só você é tua, só eu sou minha. Ainda assim, quero que sejamos nossas.
Nesse risco estou pronta pra nunca ter a oportunidade de te levar um café com abraço. Prefiro crer que terei. Prefiro crer que você vai gostar do meu café. Crer que nossos rios vão se encontrar. Prefiro crer que é tudo apenas uma questão de tempo. De alinhamento das estrelas, do mar. Proponho, então: vem.
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