terça-feira, 30 de abril de 2024

pente

 Eu te falei que você era real demais pra isso aqui. Agora que você se foi e eu nem sei o que virá, você aparece por aqui. Sabe, é que você levou o nosso pente. Você levou pois eu disse que você precisaria mais que eu diminuir a estática e quebrar menos. Logo eu, sempre tão quebradiça. Consertei. Nem sei bem como é que vim parar aqui quando olho nossas fotos do verão de 22. Talvez o inverno tenha sido longo demais, e a primavera não chegou pra nós dois ao mesmo tempo. Você é coral, eu te disse. Onde vivo, minha casa, meu porto seguro. Seguro talvez não mais. E se deixou de ser, fui eu quem te afastou. Peço que me entenda. Não te afastei porque não te amo. Não te afastei por causa delas. Afastei porque precisei que você deixasse de ser tão real. Por que preciso viver o surreal. Surreal é o pente de plástico que tive que usar. Mal penteia. Quebra. Deixa elétrico. Não liguei. Ainda assim minha mãe me salvou e trouxe outro de madeira. Claro, não é a mesma coisa. Funciona, mas não é gostoso de passar, nem de segurar. É que você é assim, posso até achar parecido, mas nunca vão ser você. Você que tem um grip perfeito, que escorre os dedos nos meus cabelos, que não me quebra, não me machuca. Não digo que nunca machucou. Sua incapacidade de aceitar algumas flores que eu te dava me doía, sim. Sua incapacidade de me dar algumas flores que eu precisava me doía também, sim. Mas a primavera veio tão forte que entendi que as flores entre nós trocadas são belas, e que posso trocar flores com outras. Entendi que não devo querer que o buquê inteiro venha de você, ou seja pra você. Afinal, isso vai contra minha própria natureza, peixe mas também abelha. Nessa primavera quero gritar: odeio azeitonas! Quero te dar as minhas, mas quero também alguém que igualmente as odeie. Pra odiar junto. Já você, não quero odiar nada. Quero te levar pra uma cabine no mato, pra dançar a noite toda ao som das estrelas que aqui a gente quase não vê. Quero a sorte desse amor tranquilo. Quero pegar tua mão e sair por essas ruas, bêbados. Um remédio antimonotonia. Quero passar meus dedos entre os teus cachos e dizer pra que você os contenha, por que a noite vou ser tua. Quero que você me leve pra janela, mas que dessa vez chegue mais perto. Quero mais devagar, quero mais profundo, quero gritar. Quero te encontrar num domingo de manhã, 70s Mix e café com leite. Dividir o brunch. Tirar tua foto, sorrir pra você. Quero fazer planos. Planos com você pra gente descobrir o mundo. Mas também planos que você não esteja, e eu não me sinta novamente a vilã da nossa história. Não quero dizer não por qualquer outro motivo que não minha própria vontade de dizer não. Quero te proteger por mim, não por você. Quero que você voe, quero te ver voar. Você é grande demais pra caber na Torre que te puseram. Você é vivo demais pra viver dormindo. Você é belo demais, pra encurvar teus ombros. Você é bom demais pra ser bonzinho. Quando a gente se toca, quero deixar a estática rolar. Chega de desculpas, chega de cuidados, chega de medos. Você é fogo também, eu descobri. Quero que arda. Que me queime. Que na batida dos seus tambores elétricos me faça sussurrar no seu ouvido. Que no Jazz Standards você me enxergue de verdade. Que olhe pra mim na sua frente, não pra mim no espelho. Estou com saudade de ver você louco por mim. Estou com saudade de encharcar nossa noite sem nenhuma preocupação. Danem-se os lençois, o colchão. Quero desaguar na tua boca e te afogar. Me render e te render. Chega de interromper esses raioszinhos entre o nosso lençol e cobertor. Que venha você, surrealmente real e com toda a estática do mundo. Meu coral, nosso pente de madeira vai nos proteger.

Nenhum comentário: