quinta-feira, 10 de outubro de 2024

soul grounding

O que a gente não vê é o que a gente mais sente. Aquele ditado que diz out of sight out of mind só vale porque fala de mente. Já em português, o que os olhos não veem o coração não sente, é uma tremenda mentira. O que não vejo, sinto. O que não sinto, vejo. As vezes vejo e sinto, mas o que está invisível é o que me atrai.

Acordei outro dia um tanto triste. Disse que chorei. Maria então apareceu lembrando de quando se sentiu em casa na cidade da torre. Disse que também chorou. Trocamos um dia inteiro de conversa, mas os cabos de fibra ótica não conseguem carregar o que a gente sente. O que a gente sente é como uma nuvem, uma cloud mesmo, de informações sensações sentimentos memórias. Vez em quando sinto acessar essa nuvem e fazer um download sem nem perceber. Daí vem o sentir. 

Andando na rua me sinto de olhos mais abertos. Uso esses que leem pra enxergar o que não vejo. Pra enxergar o sentido por trás da frase. O sentimento por trás da foto. Pra enxergar o amor por trás do bom dia. Pra enxergar na frase colada no poste um certo tipo de encorajamento divino. Pra ver um futuro em uma placa de aluga-se uma coin laundry. Uso esses olhos pra ler meu Português dizendo que outro mundo é possível em uma árvore de papel feita em 2005. 

Sinto meus ouvidos mais sensíveis. Uso esses que escutam pra ouvir mensagens não faladas. Pra ouvir a emoção por trás da voz de alguém. Pra sentir o gosto do Caju. Pra ouvir a minha história em uma música que não foi feita pra mim. Uso esses ouvidos pra ouvir meu Português dizendo take your time and relax que nessa estrada longa há um destino. Que ainda não sei como será.

Acredito veementemente. Acredito no que há entre nós todas, entre essas mulheres tão iguais e tão diferentes. Acredito no que não sei se será. Acredito no espaço entre racional e inexplicável. Acredito em cisnes brancos. Acredito no sol e na lua, nas estrelas e no amanhã. Acredito em mim, em nós, em vocês.

Não faço questão de entender ovo e galinha. Mais me interessa o ET. Mais me interessa o que não está escrito mas que sangra na tinta da impressora. Sub-texto. Meta-escrita. Metáfora e vida em folhas de papel, em ondas sonoras e pulsos em cabos de fibra ótica. Lá debaixo da água, no fundo do mar, minhas palavras são carregadas. Interessa-me saber o que chegou pra além das palavras que escrevi. 

Que os dias continuem desafiando a lógica. Que meu corpo continue rejeitando a imobilidade. Que as nuvens entre nós continuem se alimentando de nós. De sentimento, sensação, memória, e energia.  Que eu continue enxergando e ouvindo o que ali não está. Que minha alma continue falando mais alto que meus sentidos. Que a força das ondas estourando nas pedras seja a intensidade do viver para além do racional.

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