sábado, 29 de junho de 2024

Estrela do Mar

Há vinte e três anos nascia Maria, longe do mar. Maria não é qualquer Maria. Não é Maria dessas que tem por aí. Não é Maria dessas que copia as outras. Não é Maria só Maria. Maria é Luiza, é muito mais que só Maria, que só Luiza. 

Maria nasceu em um ano complicado. Um ano que enrijeceu o mundo. Um ano que sacudiu. Sacudia também Maria. Sacudia a vida de Regina, sacudia a vida de Sônia, sacudia a vida de Renato. Mal sabia, Maria, que sacudiria também a minha vida, vinte e um anos depois. Não sei se quando Maria era menina era daquelas de encher a casa de alegria. Suspeito que era. Não por suas manhas, essas eram de Regina. Mas sim pelo seu tamanho, mesmo pequena. Pela sua voz. Pelo seu coração, na mão e na cabeça, sendo declamado a cada passo de Maria. Ela era também daquelas que iria levar o mundo nas costas. Maria cuidava, Maria cuida. Como se a responsabilidade fosse sua, sem muito questionar.

Ainda assim questionava. Ou melhor, enfrentava. Maria não se escondeu quando viu que não era mais uma. Maria pôs a cara no mundo. Sofria, Maria. Nem só por que tinha uma casca forte que as palavras da rua nela não doíam. Ela sabia quem era. Mesmo assim, fácil nunca seria e ela nunca deixaria de ser a Maria que amava marias. Maria foi pra escola e na escola fez o mundo. Ocupou o espaço que a negaram e gritou pelo que acreditava. Maria organizou e lutou e marchou e mudou e caminhou e amou e radicalizou, sem perder a ternura.

Sabe, é que Maria tem suas ideias. Tantas, tantas ideias. O mundo não pode enrijecer tanto como no ano em que nasceu. Maria sabe que é preciso ser mais humano. Sabe que a humanidade é o que aparece no falar das palavras, no ensinar dos números, na poesia do abraço. Maria sabe que sentir e sonhar entre o racional e o inexplicável é o que faz a vida valer a pena. 

Maria seguiu. Regina precisou dela e lá estava Maria. Maria a primeira, mas não seria a única. A primeira por que mostrou a Regina que era possível. Que ela estaria lá ao lado dela, mesmo que distante. Maria foi pra longe, ainda perto. Saiu da terra do horizonte e foi pra terra onde os prédios cobrem qualquer beldade. Ainda assim achou beleza. Beleza no corre, beleza nos amigos, beleza nos amores, beleza nos números, na poesia. Sobretudo, beleza na luta. Maria novamente sobreviveu. Nos cálculos do dia a dia, subtraiam-lhe tudo e ainda assim, restava Maria. E de repente ter ocupado aquele chão da escola a mostrou um novo caminho. 

Bendito caminho, bendito chão da escola, bendita pedagogia da liberdade. Sem saber no que daria, Maria foi entender a educação. Livro e caneta na mão, resolveu Maria que ainda mais alto voaria. Bendito desejo de voar. E em um final de abril Maria então entrou no meu caminho. Benditos malditos bilionários que investem em educação. 

Logo vi que Maria é dessas que tem a voz mansa e a fala forte. Logo vi que Maria era pequena, e gigante. Que seu coração estava sempre no lugar certo. Que seu caminho seria de luz. Luz Maria sempre foi, mesmo quando com raiva briga, mesmo quando destruída chora. Apostei em Maria. Apostei alto de que não era possível que os outros não vissem o que eu via. É que Maria é o mundo. Certo dia eu em um trem, Maria falando trem, eu vi que Maria era também o meu mundo. Passei horas segurando a mão de Maria. Passei horas lendo Maria. Horas debatendo, conversando, guiando e o tempo nunca, nunca passando. 

E é claro, eu estava certa. Não do vôo mais alto, não era hora ainda. Nem do vôo mais perto de mim, também não era hora. Mas de um bom vôo. Ah, se eu soubesse, Maria, que aquele lugar árido tanto a machucaria. Ainda assim sei que ela teria ido, por que minha proteção não poderia jamais pretender segura-la. Mas ao menos um colchão eu teria posto, ao menos um aviso eu teria dado, um abraço bem mais apertado. 

Maria então me conheceu de verdade. Maria veio e como fez com a escola, ocupou o meu espaço. Em um março conturbado, Maria me abraçou. Como eu imaginava, abracei com ela o mundo. Maria, Maria. Que noite e que dia. O Rio de Janeiro não era nada caótico perto do meu peito. E Maria, nada sabia. Quando me deu adeus e se foi pras terras do norte tive medo de perder Maria. Benditos malditos bilionários que investem em tecnologia. 

Eu quis ver Maria dançar. Ela que tem uma dança que é só dela, que é bela. Ela que se move com o fluxo da vida ainda que as vezes só queira parar. Ela que carrega o mundo na cabeça e os amores no peito, mesmo quando só precisa descansar. Ela que nos meus braços desabou, e tudo que eu queria era resolver o mundo pra ela. Ela que vê poesia nas menores coisas do dia. E lê. E escreve. Ela que junta os alimentos como quem faz um jardim, e planta flores no meu coração. 

Maria então veio me ver. Eu que não achei que esse trem era tão grande, de repente me supreendi com o comboio de Maria. Nada mais importava além do sorriso de Maria. Quando chorava, eu só queria lhe dar colo e dizer que ficaria tudo bem. Quando me olhava e perguntava, meu coração disparava. Ah, Maria, quanta curiosidade. Quantas conversas nos moveram. Quanta cumplicidade. Quanta humanidade. De repente granola. Granola e Lamparina na minha vitrola. Uma lista. Maria chora com o cisne. Maria vê girafas no céu. Maria e a melhor batatinha frita que há. Taças de vinho e a chuva lá fora. Biscoitos, frescos e quentes. Eu, caos, e Maria serena. Uma chuva de sentimento e Maria nem sabe o que fazer com tanto afeto. Eu não sabia que podia haver tanta bondade assim, Maria. Havia. Há.

Agora Maria é a estrela do meu mar. É que Maria descobriu que large bodies of water também a acalmam. Cresceu longe do mar e longe de mim, mas a vida mostrou que ao lado desses dois tudo pode ser melhor. Mineira que sabe nadar. Uma estrela que brilha forte, que de longe me dá amor, que de longe cuida de Sônia, Regina e Renato. Maria que me deu coragem pra ser quem sou. Maria que dança como se ninguém mais houvesse, que se expressa com a liberdade que ela mesma construiu. Que calcula e pensa em um café qualquer como quem vê uma série boba. Maria que também gosta das minhas séries bobas, da boa comida e da boa companhia. Maria que luta. Maria que não é bicho. Maria, uma Luiza que essa Luiza só pode amar. Não há mais a vida antes de Maria. Bendita força, bendita vida, bendita Luiza, bendita Maria. 

Que eu possa sempre te ver dançar. 


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