Eu hoje ando nas ruas que já eram minhas antes de serem minhas. Eu só não sabia. A duas quadras de onde fiquei em 19 estava a rua da igreja, onde se une a minha gente, e eu sem saber o que o universo guardava. Fui com ele, sentei em um pub, pedi um poutine. Voltaria ali com amigas, e no pub ao lado com duas belas mulheres. Andaria naquela rua com meu outro eu de cabelo preto em 24. Seria o meu lugar na cidade. Nevava. E eu não tinha ideia.
"It takes a village" diz a pintura na parede onde tirei foto e me assumi pro mundo em 21. Lá em 07 me questionei ao amar Pequena, mas não soube responder. Meu coração partiu ao som de PJ Harvey. Fui vivendo sem pensar, mas já escrevia textos para uma certa alguém em 2010. Pra outra em 12, outra em 14. Ainda assim, fingindo. Até que em 24 foi mesmo um vilarejo, um conjunto de mulheres sábias e complexas que me trouxe de volta o gosto pela complexidade. Perdi o medo de viver. Foi um vilarejo, foi uma comunidade.
Já me pensei tantas coisas. Não estava dentre elas ser parte de uma comunidade. Não estava dentre elas ser alguém que se ama. Alguém que atravessa fora do sinal. Que sai pra dançar e conhece alguém de nome Ana. Que sobe em um palco e rima. Não pensei na vida sem ele, por que eu não me parecia suficiente pra estar sozinha. Não pensei em viver daquilo que eu só desejava. E então um palco, uma estrela, e uma comunidade me lembraram o que é viver, nada menos do que o que senti aquela semana.
Como um efeito borboleta uma levou a outra. Conheci então Be, e não teve volta. Pensei que ainda daria pra fingir mais um pouco. Pensei que não fingir seria falhar. Feri Be, e me feri mais ainda. Mas o efeito já não podia ser interrompido. O universo já havia decidido que máscaras agora só no palco. Estrela já me dizia pra ser eu. Be não sabia quem eu era. Parece que me senti desafiada a mostrar. No mês do arco íris Be me deu adeus e eu dei adeus enfim a velha versão de mim.
Estou sentada em Rosedale fumando, ouvindo um saxofone tocar. Sexta feira estou no palco, hoje joguei um esporte com mulheres que amam mulheres, amanhã invisto no crescimento espiritual de estrela. Sábado junto quem amo ao redor da mesa comendo feijão. Junto parte do vilarejo que se recusa a usar máscaras. Até Be, que agora me conhece. Não há mais amor que isso.
24 também teve paralelos no mesmo espaço. Como pensar que quem estrela conheceria naquela noite seria então parte do meu vilarejo. Que quem eu conheci na noite que tudo mudou era amiga de Be e dividiria um banco de trás apertado com mais três. O universo parece que costura com uma dramaticidade teatral. Parece mesmo que essa vida é arte. A minha sem dúvidas é. Arte que faço que vejo que sinto que sou. Esse ano a arte me salvou. Está ventando bastante lá fora. Já chegou o frio.
Olha eu aqui, refletindo sobre o ano e ainda é novembro. Ando vivendo mais, me movendo mais, agindo mais. É especial. Muitas águas ainda virão. Aguardo ansiosa o sal o sol e o abraço de estrela de jade de vó. Melhor que eu vá dormir, amanhã posso reencontrar mais uma versão do meu passado. Direi adeus e muito obrigada.
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