Eu andei distraída caminhando sem rumo. Até que tropecei em você. De início suspeitei. Mas que diabos me fez tropeçar? Eu que andava com passos tão firmes. Não confiei. Não me abri. Cabreira, inventei mil desculpas pra não te querer. Todas eu te contei. Ainda assim, te quis. Te quis como quando do avião vejo as luzes das cidades e minha cabeça dispara querendo viver aquelas mil vidas desconhecidas. Te quis como a um pão de beijo, quentinho, recém saído do forno.
Não digo que você não me quis. Você só teve pressa demais enquanto eu te pedia paciência. Você teve descuido, quando eu mais estava quebrando. Você teve dez caras, quando só me mostrava duas. Não pode ser sincera. Preferiu me culpar e sair correndo. Como se nada. Como se ninguém.
Não digo que entendo os rumos da vida. Não vou fingir que sei o que está acontecendo, que confio que o rio vai desaguar no mar. Parece que nado, mas a correnteza é tão forte que meus braços as vezes não conseguem vencer. Parece que sai do calor da minha casa pra enfrentar uma ventania, uma tempestade. Quase vôo. Quase. Ao invés de voar, fico encharcada, machucada e sem casa.
Acredito que tenho direito de te odiar. Não porque eu perdi minha casa, afinal a tempestade já estava se formando há muito tempo, não havia como ficar naquele lugar inseguro. Não foi você quem me fez perder a casa. Mas porque quando sai dessa casa, vi a sua estrada perto da minha e acreditei que nosso rumo andava junto. Não acreditei sozinha. Te ouvi e peguei o rumo sem ver o mapa, sem ver tudo que estava acontecendo do meu lado e eu, perdida. Quando você nos escondia, eu acreditava nas suas justificativas. Quando você me cobrava, eu achava justo visto meu novo caminhar. Não podia ter acreditado, não devia ter aceitado.
Tem uma música que me lembra a gente. Não, não é uma dessas de batidas dançantes. É uma que desesperado ele grita pedindo que Deus não leve as lindas coisas que Ele deu. Eu já sabia que poderia perder você. Mas não achei que perderia só por perder. Por você não mais me querer. Me convenci de que não perderia então. Me convenci de que eu ainda ia passar horas cozinhando e ganhando beijos. Me convenci de que o que eu estava perdendo eram realmente lindas coisas.
Sem esse rumo tem me sobrado o palco. Não que esse rumo seja mais importante que o palco. Não. Nunca mais um rumo será mais importante que o palco, que eu. Ontem senti sua falta. Queria sair do palco e correr pro teu beijo. Queria saber que teus olhos tinham me visto. Que eu tinha te feito sorrir. Mas você não estava lá. Nem um adeus você pôde me dar. Disse que iria me demonstrar amor e então me jogou pedras. Você só nos deixou morrer, por dentro, em silêncio. Ontem meu coração derreteu, te odiei.
Por te odiar, minha vontade é pagar o que senti. Mas já não sou mais essa. Os espinhos já não me atraem mais. Por ter te desejado tanto, minha vontade era te implorar pra ficar. Mas já não sou mais essa que implora. Por me amar eu refaço meu rumo. Busco outras estradas. Por me amar eu me dou. Como me dei pra você. Por me amar eu subo no palco e com a cabeça a mil entrego muito mais do que quando serena. Por me amar eu escrevo. Por me amar eu te mato dentro de mim.
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