A música diz que não perca seu tempo comigo, pois voce já está na minha cabeça. Minha coleção cresceu de tal maneira que já não sei de quem falo. Recito um verso qualquer e vem aquele que não deve ser nomeado, mas vem também estrela. Sou uma caixinha de recordações de amor e paixões. Guardo demais, guardo pra sempre. Cheiros, visões, cenas, sensações, toques, lembranças. Cada pequeneza, cada grandiosidade. Um ursinho sem lugar circulando na casa. Um porta retrato virado e desvirado. Um bibelô que mais lembra quem quebrou do que o que foi simbolicamente quebrado. Cartas e mais cartas de amor, de saudade, de verdades. Pequenas pistas da vida que passou e de quem nela me visitou. Entradas de cinema e teatro são beijos roubados e bilhetes trocados. Na memória o mesmo, cada pedaço uma pessoa. Que passou ou que passa ou que vive no vai e vem. As vezes seleciono a seção pra que seja uma memoria útil, mas em geral utilidade não há. É apenas aquilo que me cerca. Cumpriu seu dever, move on. Dizem vocês que vivem de futuro. Eu prefiro viver no presente o meu passado. Sem deixar de aumentar minha coleção tão colorida. Estrela quando tudo começou a desenrolar me disse que o passado passou, que não se vive nele. Pois me retrato do compromisso que fiz aquele dia. Meu passado é o chão que eu piso, é pedaço de quem sou. Fala em mim, fala por mim muitas vezes. Vivo no presente sem largar as teias que me entremeiam em um tempo contínuo de gente passada e gente presente. Vivo assim, emaranhada. Pois tudo isso por que não decidi quem a tal música mais me lembrava, você ou ele.