Banalizaram o eu te amo com essa coisa de amar objetos. Pouco tempo atrás ele veio me visitar. Olhou-me de cima abaixo e logo se agitou. Tocou-me não com carinho e admiração, mas com posse e desejo. Eu, que já me achava objeto depois de anos treinada pelo mínimo, mais uma vez me vi manuseada. E então o vaso quebrou. Se foi ele quem quebrou, se foi outra, não sei dizer. Queria poder dizer que o quebrar desse vaso quebrou os encantos. Não, quando o vaso quebrou eu me tornei o vaso. Espalhado em cacos tentando me colar de volta, mas verdadeiramente precisando que alguém viesse com uma vassoura me juntar. Não vieram. No início até pisaram pra quebrar mais um pouco. Eu, objeto, tive então que ser sujeito pra me consertar. Para poder voltar a ser vaso útil. Consegui, e retornei a objeto. Agora lâmpada mágica. E assim sendo, ele continuou vindo pedir seus desejos. Não só ele. Eles, elas. Poucos me davam a impressão de que talvez eu não mais vaso-lâmpada fosse. E em geral, era mesmo só impressão. Pois eis que lá vem ele outra vez, agora diz que ama o vaso. Que amor é esse, por aquilo que não se considera sujeito? Já ouvi outra vez esse eu te amo, porém. Afinal, vaso é pra ser usado e não carregado pra todo lado. Pergunto a mim mesma qual o momento em que eu, objeto, deixei claro demais que tinha pretensões de sujeito. Foi o pedido de ajuda? Foram as lágrimas? Foram as medicações? Não sei. Sei que conveniente não sou pra quem diz me amar. Realmente, um vaso inútil eu também jogaria fora. Uma lâmpada mágica usaria todos os desejos. A diferença é que eu nunca enxergo vasos e lâmpadas. Mesmo quando acho que vejo percebo que é só meu reflexo, projeção. Só vejo gente. Cataram os cacos mas esqueceram de mim. Grito em silêncio no eco dessas paredes de vidro. Ele não escuta. Mantém o tom inalterado e aponta a minha inconveniência. E pensar que quando primeiro ele me escolheu na prateleira eu era uma barbie novinha. Depois virei até trofeu. Agora que transito entre sujeito e objeto é que tento entender a vida. Não feito a boneca que fui, feito criança. É isso enfim, objeto não sou, pois criança sou. Não me toque nunca mais.
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