segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Sono.
Dormir transforma tudo em passado. O que era recente torna-se distante. Ainda se pode retornar antes que se fechem os olhos, mas, quando abertos, é impossível voltar. Ela estava deitada ao meu lado, olhos bem abertos, sorriso cansado. Piscava lentamente sempre que meus dedos chegavam às pontas dos seus cabelos. Eu nao cansava de dizer que a amava, que ela era linda. Ela me interrompia e, efusiva, falava em casamento. Planejava o futuro, dava nome aos nossos filhos, decorava a casa, escolhia a raça do cachorro. Aquilo me cansava. Nao que eu nao quissese aquele futuro, mas minha ansiedade pelo presente se chocava com sua pressa em viver o que ainda viria. Eu sabia que ela seria minha mulher, que envelheceríamos juntos, nos amaríamos para sempre. Nao entendia, porém, a necessidade que ela tinha de saber o amanha se o hoje nao havia terminado. Falou da lua-de-mel, das férias na Disney com as crianças, da casa de campo. Era inútil tentar traze-la para mim, para aquele instante.Eu sentia ciúmes do meu eu futuro que ocupava seus pensamentos. A queria agora, nao na esperança de um futuro distante. Desisti, fui ao banheiro. Interrompi-a. Ela calou-se, zangada, ela detesta ser interrompida, principalmente em seus devaneios ansiosos. Quando voltei para cama, ela dormia. Nem notou meu retorno, ela provavelmente sonhava comigo dali a vinte anos.Fiquei calado admirando minha menina. Em seu sono ela parecia serena, presente. Somente enquanto dormia ela me permitia te-la plenamente, presentemente. Adormeci com o rosto acima do seu, sem tocá-la. Por que dormi? Ao abrir os olhos ela nao estava mais sob o meu olhar, seu corpo nao estava ao meu lado, a cama esfriara.Desesperado, gritei por ela, procurei a roupa da noite que terminara. A casa estava vazia, eu estava sozinho, eu nao soubera amá-la como ela queria ser amada. Sob a mesa, apenas um recado. Nao deveria ter dormido, deveria ter acompanhado seus pensamentos, deveria ter pedido desculpa por nao ter ido ao futuro com ela. Perdi-a.O futuro que ela desenhava será agora de outro, de um que nao tenha ciúmes de si mesmo, que nao se apegue ao presente.Seu futuro era agora meu passado. Por que fechei os olhos?Descuidado. Dormir transformou tudo em passado.O que era vivo adormeceu, o calor do contato tornou-se a fria saudade. Com meus olhos abertos, sei que nao posso retornar e te-la de volta. Nem sei se sonhava, ou se sao apenas memórias. Antes fosse sonho, sonharia de novo. Fiquei preso ao passado, ao futuro que nao virá.Vou ao banheiro. Adormeço.
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5 comentários:
lindo o texto.. assim como os outros, gosto desse tipo de leitura me interesso por elas :) otimo o blog!
Nossaaaa!!!!
"Eu sentia ciúmes do meu eu futuro que ocupava seus pensamentos".
cada vez melhores, seus textos!!
amei!!
"Quem mais toma café não são os nobres leitores de Nietzsche, são os trabalhadores da construção". Nice, hehe.
não vou nem comentar mais, já cansei de dizer o quanto gostei.
onde andam os textos novos? não acredito que da tua cabeça não tenha saído mais nada. impossível!
saudades, chata que não gosto de mim mais! :x
é exatamente disso que eu estava falando... é incrivel como seus textos muitas vezes falam por mim!
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