Ela estava de preto. Sentada, de pernas cruzadas, brincava com uma caneta entre os dedos e me olhava fixamente.Seus cabelos eram ruivos e contrastavam com o branco inocente de sua pele.Ela era linda, uma pergunta sem resposta. Meus olhos estudavam cada detalhe de seu corpo, e a cada segundo eu descobria algo novo. Uma tatuagem no pescoço, um anel no polegar, uma cicatriz na coxa. Eu, encantado, decidi que ali ficaria pelo resto da noite, ou até mesmo da eternidade.
Eu estava cansado, havia, como sempre, trabalhado demais, achado soluções demais para problemas que não eram meus. Minha camisa já estava desarrumada, um botão a mais aberto. A gravata já fugia do corpo.Pensava que talvez fosse hora de me arriscar tanto quanto eu tinha medo de fazer até aquela noite. Depois de analisar minuciosamente aquela sedutora interrogação sentada à minha frente, resolvi aproximar-me.
Ao ver meus incertos passos ela abaixou o olhar e assim permaneceu.Cessei meu caminhar, talvez fosse muito cedo para abordá-la. Desviei o caminho e fui até o bar, de onde observava-a curvada e imóvel.Muito passou pela minha cabeça, pensei tê-la assustado, pensei ter sido precipitado, pensei ter sido agressivo.
Quando esqueci que ela ainda estava ali, fui surpreendido por seu rosto próximo ao meu. Sua maquiagem estava borrada, ela havia chorado. Encostou seus lábios em minha orelha e pediu-me desculpas, deixando-me só antes que eu pudesse questioná-la.Vi-a ir em péssima hora com passos apressados e firmes sob finos saltos. Ela deixou o hotel e sumiu em meio a chuva e a escuridão.
Não sei por que ela fugiu, com certeza por trás daqueles penetrantes olhos negros havia uma vida complicada, desconhecida. Ela deve ter vivido, diferente de mim. Minha monótona e incansável vida esbarra sempre em mulheres assim, cheias de perguntas para mim. Elas não apenas carregam histórias, mas carregam tudo o que me faz pensar em suas histórias. Elas me trazem sempre novidades de passados que ainda não vivi. E isso é delicioso.
4 comentários:
Fascina-me tanta beleza nas tuas palavras, Ana...
Estás de parabéns.
Acredito que isso não vem ao caso. Entretanto, saibas que desde o princípio sou um grande fã teu. E minha presença, ao menos aqui, há de continuar por um tempo.
Realmente essa minha paraibinha escreve muito! Quem sabe um dia vc não ensina um pobre engenheiro q só vê números a escrever ;)
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