Era uma tarde amarga. Pela janela gelada eu via a chuva adocicando o mar. Já não via mais o sentido de estar ali, de ser ali. Eu estava cansado, há tempos eu estava cansado. A solidão me rondava, minha única companheira nas atuais multidões. O tempo passara rápido demais, ele escapara das minhas mãos enquanto eu pensava poder ser eterno.
Afogado em minha vaguidão fui de repente salvo por um raio de luz que sugou todo aquele tédio que me afundava. Seus cabelos molhados e longos e seu sorriso interminável me trouxeram à vida e me fizeram voltar a sentir a vontade de ter alguem. Nossos olhares não se cruzaram, o olhar dela penetrou o meu e me fez cegar. Lentamente seus lábios se moviam e ela articulava palavras que eram, para mim, estranhas. Talvez ela estivesse falando de mim, talvez esse fosse apenas meu desejo.
Ela comprou um sorvete, encarou-me com olhos de menina e me mostrou que aquele olhar era apenas um truque... Saiu então do meu destino sabendo que dele jamais faria parte novamente.
Demorei algum tempo para acordar e voltar àquela escuridão sem graça. Nada mudou, ou tudo mudou. O sentido ainda me é estranho, mas é, entretanto, mais esperançoso. Esperança de que algum dia um raio de luz possa realmente me queimar.
2 comentários:
De todos os que li aqui, de longe o mais bonito. Entre textos tão densos, a imagem da "chuva adocicando o mar" traz como que um sopro de ar fresco, uma paz de espírito que eu não sei explicar...
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