Vivo feito fios de lã que se entrelaçam. Ainda não vejo a roupa pronta. Vejo já uma manga que se costura, amarrando passado, presente e futuro. Vejo contornos. Caibo. Deixo a tecelã costurar com meu sangue, meu suor. Lavar a peça com minhas lágrimas. Confio em cada ponto dado. As vezes assusto com a velocidade das agulhas que giram e mudam de mãos assim tão rápido. Pisco e mais um grande pedaço se fez. Outras horas mal vejo progresso. As agulhas de canto, paradas. Sem entrelaços nem entremeios, apenas silêncio e sossego. Antes de ver a primeira manga achava que esses momentos durariam pra sempre. Não confiava que daquilo uma roupa sairia. Dormia pensando ser rolo de lã deixado embolado. Quando finalmente a manga se mostrou parei de duvidar das calmarias. Veio tão rápida do ombro ao pulso que confesso, até pedi a tecelã que acalmasse. Mas sigo, ainda que cansada. Quero chegar ao dia em que saberei parar, sem que toda a costura se desfaça. Espero a hora em que mesmo incompleta eu possa me contentar com o silêncio das agulhas descansadas. Por enquanto, sigo buscando os fios para juntá-los em ponto. Sigo explicando a tecelã o que quero e não quero. Ela ri da minha inocência de achar que meu querer é tanto assim. Aprendi a esperar a magia sem pedir em voz alta. Vejo a gola se fazendo e peço um momento, preciso descansar. Mas quem trabalha é ela. Eu, apenas manequim e fio em forma de gente. Ainda assim, me fazer todos os dias é esforço monumental. Peço a tecelã apenas graça e um pouco menos de frio, para que eu siga sendo costurada.
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